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"Os ódios foram-se acumulando, sem que Sócrates fizesse nada para os aplacar; continuava na sua missão de esclarecer os espíritos e não era o medo que o poderia desviar da empresa que tomara; nesse ponto, não tinha domínio sobre si, não poderia deixar de ser o que era. Contava bastante cerca de setenta anos, quando Melito, poeta medíocre, o acusou perante o tribunal de não respeitar os deuses da cidade e de corromper a juventude; acusaram-no também dos mesmos crimes Anito e Licon, um como representante do povo democrata, o outro como representante dos políticos; na audiência que se realizou pouco depois, Sócrates não adoptou nenhum dos processos que eram vulgares nos tribunais para enternecer os juízes; desejava que eles julgassem em plena consciência"
In Sócrates, Lisboa, Edição do Autor, 1943, p. 23.
A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
Platão e o Tirano: nada melhor para um almoço de Domingo...
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Sócrates - Quanto a esse protector do povo (...), depois de ter abatido um grande número de rivais, sobe para o carro da cidade, e de protector transforma-se em tirano completo.
Adimanto - Era de esperar essa atitude.
Sócrates - Vejamos agora a felicidade deste homem e da cidade onde se formou semelhante mortal. Nos primeiros dias, sorri e acolhe bem todos os que encontra, declara que não é um tirano, promete muito em particular e em público, adia dívidas, distribui terras pelo povo e pelos seus predilectos e finge ser bom e amável para com todos. Não costuma ser assim?
Adimanto - Forçosamente.
Sócrates - No entanto, depois de se desembaraçar dos seus inimigos do exterior, reconciliando-se com uns, arruinando os outros, e ao sentir-se tranquilo deste lado, começa sempre por provocar guerras, para que o povo tenha necessidade de um chefe. E também para que os cidadãos, empobrecidos pelos impostos, sejam obrigados a pensar nas suas necessidades quotidianas e conspirem menos contra ele.
Adimanto - É evidente.
Sócrates - E ocorre que, se alguns têm o espírito demasiado livre para lhe permitirem comandar, encontra na guerra, creio eu, um pretexto para se ver livre deles, entregando-os aos golpes do inimigo. Por todas estas razões, é inevitável que um tirano suscite sempre a guerra. Mas, ao fazê-lo, torna-se cada vez mais odioso aos cidadãos. E não acontece que, entre aqueles que contribuíram para a sua elevação, alguns falem livremente, quer diante dele, quer entre eles próprios, e critiquem o que se passa? Pelo menos os mais corajosos?
Adimanto - Sim.
Sócrates - É necessário, desse modo, que o tirano os elimine, se quiser continuar a ser o chefe, e que acabe por não deixar, tanto entre os seus amigos como entre os inimigos, nenhum homem de algum valor. Com olhar arguto, deve distinguir os que têm coragem, grandeza de alma, prudência, riquezas, e a sua felicidade é tanta que se vê forçado, quer queira, quer não, a declarar guerra a todos e a preparar-lhes armadilhas, até que consiga depurar o Estado.
Adimanto - Linda maneira de depurá-lo!
Sócrates - Sim, é o oposto da que utilizam os médicos para curar o corpo. Estes últimos fazem desaparecer o que há de mau e deixam o que há de bom: o tirano faz o contrário.
Adimanto - Será obrigado a isso, se quiser conservar o poder.
Sócrates – Então, ele vê-se ligado por uma bem-aventurada necessidade, que o obriga a viver com gente desprezível ou a renunciar à vida. Vê, não é verdade que quanto mais odioso se tornar aos cidadãos pelo seu agir mais necessidade terá de uma guarda numerosa e fiel?
Adimanto - Sem dúvida alguma.
Sócrates - Mas quais serão esses soldados fiéis? De onde os mandará vir?
Adimanto - De livre vontade, muitos correrão até ele, se lhes pagar.
Sócrates - Com quê! Parece-me que te referes a zangões estrangeiros e de todas as espécies.
Adimanto - Acertaste, Sócrates.
Sócrates - E da sua própria cidade? Acaso não pretenderá...
Adimanto - O quê?
Sócrates - Tirar os escravos aos cidadãos e, depois de os ter libertado, fazê-los entrar para o seu exército?
Adimanto - Mas é claro. E serão esses os seus soldados mais fiéis.
Sócrates - Com efeito, segundo o que dizes, é bem acertada a situação do tirano, se fizer de tais homens amigos e confidentes, depois de ter feito morrer os primeiros!
Adimanto - E, a meu ver, não poderia fazer outros.
Sócrates - Portanto, esses companheiros admiram-no, e os novos cidadãos vivem na sua companhia. Mas a gente honrada odeia-o e evita-o, não te parece?
Adimanto - E como pode ser de outro modo?(...)
dimanto - Está claro que, se a cidade possuir tesouros sagrados, o tirano servir-se-á deles e, enquanto o produto da sua venda bastar, não imporá ao povo impostos muito altos.
Sócrates - Mas quando começarem a faltar-lhe esses recursos?
Adimanto - Então passará a viver dos bens paternos, ele, os seus comensais, os seus companheiros e as suas amantes.
Sócrates - Então, o povo que deu origem ao tirano é quem vai alimentá-lo, a ele e aos seus.
Adimanto - Não haverá outra saída.
Sócrates - Mas o que estás a dizer? Se o povo se rebela e decide que não é justo que um filho na flor da idade esteja a expensas do pai, e que, pelo contrário, o pai deve ser cuidado pelo filho; que não o trouxe ao mundo e o criou para ele próprio se tornar, quando o filho for grande, o escravo dos seus escravos e para o alimentar com esses escravos e o grupo que o rodeia, mas, ao contrário, para ser desembaraçado, sob o seu governo, dos ricos e daqueles a quem se chama gente honrada na cidade; que agora lhe ordene que saia do Estado com os seus amigos, como um pai expulsa o filho de casa, com os seus indesejáveis convivas...
Adimanto - Então aí o povo saberá o erro que cometeu quando procriou, acariciou, criou semelhante filho, e aqueles que pretende expulsar são mais fortes do que ele, por Zeus!
Sócrates - O que estás a dizer?! Ousaria o tirano ser violento com o seu próprio pai e até feri-lo, se ele não lhe obedecesse?
Adimanto - Sim, depois de o ter desarmado.
Sócrates - Pelo que dizes, o tirano é um parricida e um triste apoio dos idosos. Então, ao que me parece, chegámos ao que se costuma chamar de tirania: o povo, de acordo com o ditado, evitando a fumaça da submissão a homens livres, caiu no fogo do despotismo dos escravos e, em troca de uma liberdade excessiva e inoportuna, vestiu a farda mais dura e mais amarga das servidões.
Adimanto - Em verdade, é o que acontece.
Sócrates - Ora bem! Implicará erro se dissermos que explicámos de modo adequado a transição da democracia à tirania e o que é esta, uma vez formada?
Adimanto - A explicação cabe com perfeição.
In Platão, A República
Sócrates - Quanto a esse protector do povo (...), depois de ter abatido um grande número de rivais, sobe para o carro da cidade, e de protector transforma-se em tirano completo.
Adimanto - Era de esperar essa atitude.
Sócrates - Vejamos agora a felicidade deste homem e da cidade onde se formou semelhante mortal. Nos primeiros dias, sorri e acolhe bem todos os que encontra, declara que não é um tirano, promete muito em particular e em público, adia dívidas, distribui terras pelo povo e pelos seus predilectos e finge ser bom e amável para com todos. Não costuma ser assim?
Adimanto - Forçosamente.
Sócrates - No entanto, depois de se desembaraçar dos seus inimigos do exterior, reconciliando-se com uns, arruinando os outros, e ao sentir-se tranquilo deste lado, começa sempre por provocar guerras, para que o povo tenha necessidade de um chefe. E também para que os cidadãos, empobrecidos pelos impostos, sejam obrigados a pensar nas suas necessidades quotidianas e conspirem menos contra ele.
Adimanto - É evidente.
Sócrates - E ocorre que, se alguns têm o espírito demasiado livre para lhe permitirem comandar, encontra na guerra, creio eu, um pretexto para se ver livre deles, entregando-os aos golpes do inimigo. Por todas estas razões, é inevitável que um tirano suscite sempre a guerra. Mas, ao fazê-lo, torna-se cada vez mais odioso aos cidadãos. E não acontece que, entre aqueles que contribuíram para a sua elevação, alguns falem livremente, quer diante dele, quer entre eles próprios, e critiquem o que se passa? Pelo menos os mais corajosos?
Adimanto - Sim.
Sócrates - É necessário, desse modo, que o tirano os elimine, se quiser continuar a ser o chefe, e que acabe por não deixar, tanto entre os seus amigos como entre os inimigos, nenhum homem de algum valor. Com olhar arguto, deve distinguir os que têm coragem, grandeza de alma, prudência, riquezas, e a sua felicidade é tanta que se vê forçado, quer queira, quer não, a declarar guerra a todos e a preparar-lhes armadilhas, até que consiga depurar o Estado.
Adimanto - Linda maneira de depurá-lo!
Sócrates - Sim, é o oposto da que utilizam os médicos para curar o corpo. Estes últimos fazem desaparecer o que há de mau e deixam o que há de bom: o tirano faz o contrário.
Adimanto - Será obrigado a isso, se quiser conservar o poder.
Sócrates – Então, ele vê-se ligado por uma bem-aventurada necessidade, que o obriga a viver com gente desprezível ou a renunciar à vida. Vê, não é verdade que quanto mais odioso se tornar aos cidadãos pelo seu agir mais necessidade terá de uma guarda numerosa e fiel?
Adimanto - Sem dúvida alguma.
Sócrates - Mas quais serão esses soldados fiéis? De onde os mandará vir?
Adimanto - De livre vontade, muitos correrão até ele, se lhes pagar.
Sócrates - Com quê! Parece-me que te referes a zangões estrangeiros e de todas as espécies.
Adimanto - Acertaste, Sócrates.
Sócrates - E da sua própria cidade? Acaso não pretenderá...
Adimanto - O quê?
Sócrates - Tirar os escravos aos cidadãos e, depois de os ter libertado, fazê-los entrar para o seu exército?
Adimanto - Mas é claro. E serão esses os seus soldados mais fiéis.
Sócrates - Com efeito, segundo o que dizes, é bem acertada a situação do tirano, se fizer de tais homens amigos e confidentes, depois de ter feito morrer os primeiros!
Adimanto - E, a meu ver, não poderia fazer outros.
Sócrates - Portanto, esses companheiros admiram-no, e os novos cidadãos vivem na sua companhia. Mas a gente honrada odeia-o e evita-o, não te parece?
Adimanto - E como pode ser de outro modo?(...)
dimanto - Está claro que, se a cidade possuir tesouros sagrados, o tirano servir-se-á deles e, enquanto o produto da sua venda bastar, não imporá ao povo impostos muito altos.
Sócrates - Mas quando começarem a faltar-lhe esses recursos?
Adimanto - Então passará a viver dos bens paternos, ele, os seus comensais, os seus companheiros e as suas amantes.
Sócrates - Então, o povo que deu origem ao tirano é quem vai alimentá-lo, a ele e aos seus.
Adimanto - Não haverá outra saída.
Sócrates - Mas o que estás a dizer? Se o povo se rebela e decide que não é justo que um filho na flor da idade esteja a expensas do pai, e que, pelo contrário, o pai deve ser cuidado pelo filho; que não o trouxe ao mundo e o criou para ele próprio se tornar, quando o filho for grande, o escravo dos seus escravos e para o alimentar com esses escravos e o grupo que o rodeia, mas, ao contrário, para ser desembaraçado, sob o seu governo, dos ricos e daqueles a quem se chama gente honrada na cidade; que agora lhe ordene que saia do Estado com os seus amigos, como um pai expulsa o filho de casa, com os seus indesejáveis convivas...
Adimanto - Então aí o povo saberá o erro que cometeu quando procriou, acariciou, criou semelhante filho, e aqueles que pretende expulsar são mais fortes do que ele, por Zeus!
Sócrates - O que estás a dizer?! Ousaria o tirano ser violento com o seu próprio pai e até feri-lo, se ele não lhe obedecesse?
Adimanto - Sim, depois de o ter desarmado.
Sócrates - Pelo que dizes, o tirano é um parricida e um triste apoio dos idosos. Então, ao que me parece, chegámos ao que se costuma chamar de tirania: o povo, de acordo com o ditado, evitando a fumaça da submissão a homens livres, caiu no fogo do despotismo dos escravos e, em troca de uma liberdade excessiva e inoportuna, vestiu a farda mais dura e mais amarga das servidões.
Adimanto - Em verdade, é o que acontece.
Sócrates - Ora bem! Implicará erro se dissermos que explicámos de modo adequado a transição da democracia à tirania e o que é esta, uma vez formada?
Adimanto - A explicação cabe com perfeição.
In Platão, A República
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)
Sócrates
Como não podia deixar de ser, a actividade de Sócrates junto dos jovens e toda a sua maneira de pensar criaram oposições que, no primeiro momento favorável, o haviam de bater; estavam contra ele os religiosos que não entendiam a ciência de deus e se contentavam com um culto de superstições e de fórmulas, sem que a piedade em nada influenciasse a sua maneira de viver; estavam contra ele os ricos que o viam desprezar os bens materiais e aconselhar os homens a que voltassem para os bens do espírito as suas forças de alma; odiavam-no os democratas da assembleia, porque frequentemente se referia à falta de inteligência e de saber dos políticos e à irracionalidade do povo que o levava a adoptar com entusiasmo as propostas mais absurdas; os aristocratas, por não o consideravam seguro e tiveram boa prova de que o não era na resistência que opôs ao governo dos trinta tiranos; cada um dos que seguiam no caminho, presos pelos seus dogmas ou pelos seus interesses, não conseguiam compreender aquele homem que buscava soluções universais e se não deixava limitar pelas visões de momento, pelas modas, nem enfileirava docilmente num dos rebanhos formados, nem sequer se mostrava disposto ao cómodo silêncio que não levanta embaraços a ninguém. Os ódios foram-se acumulando, sem que Sócrates fizesse nada para os aplacar; continuava na sua missão de esclarecer os espíritos e não era o medo que o poderia desviar da empresa que tomara; nesse ponto, não tinha domínio sobre si, não poderia deixar de ser o que era.
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