A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Outro texto que nos chegou...




A CIDADE E O PORTO DE LOURENÇO MARQUES HÁ 120 ANOS
António Trabulo

No final do século XIX, os portugueses e fundaram a povoação de Lourenço Marques (Maputo) numa língua de areia da baía que alguns chamavam da Lagoa e outros da Boa Morte, situada no ponto em que desaguam no Oceano Índico as águas dos rios Lagoa, Manhiça e Maputo. Os povos moçambicanos opunham-se à ocupação estrangeira, e a feitoria teve de ser muralhada.
Há cento e trinta anos, Lourenço Marques ocupava a área abrangida pelas ruas depois chamadas Consigliére Pedroso e Araújo, e era limitada pelas muralhas de uma fortificação. Os terrenos conhecidos pelo Cântano, e os ocupados pela Avenida da República eram cobertos de água, pelo menos durante as marés cheias.
A população da cidade não parava de crescer. Em 1882, o major de engenharia Joaquim José Machado foi encarregado de proceder aos primeiros estudos da linha de caminho de ferro. A área que Lourenço Marques ocupava não podia comportar o desenvolvimento que a construção da via férrea iria trazer à cidade.
Na altura, o governo geral da Colónia sediava-se na ilha de Moçambique. Em Lourenço Marques, mandava o governo do distrito, que se opunha ao derrube da fortificação. A população branca receava os ataques dos indígenas que viviam nos domínios da rainha de Marracuene.
O major Joaquim Machado considerava os receios infundados e assumiu sozinho, em 1885, a responsabilidade de extinguir as fortificações. As fundações assentavam em areia solta e o trabalho fez-se durante a noite, com rapidez e sem ruído. Uma grande extensão das muralhas foi escavada pelo lado de fora e derrubada. Ao amanhecer, os habitantes da cidade deram com boa parte da fortaleza deitada abaixo.
Deste modo, um acto de indisciplina de um militar português contribuiu para a expansão da cidade.
A gravura que apresentamos data de cerca de 1890 e mostra o aspecto de Lourenço Marques pouco tempo depois do derrube das muralhas.


Referências: Duarte Veiga, O Mundo Português nº 9 e 10, Setembro e Outubro de 1934.
Joel Serrão, Dicionário da História de Portugal.
Fotografia: O Mundo Português, nº 62, Fevereiro de 1939.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O dancing-bar "Vasco da Gama"




No tempo em que as noites adormeciam ao embalo de “era uma vez…” e puxava para os olhos a manta protectora dos medos nocturnos, o bulício nocturno da avenida de Angola entrava pela varanda fronteira à sala que à noite era quarto, da longa recta de alcatrão que se metamorfoseava quando os candeeiros se acendiam e as formigas humanas se travestiam no exótico da vida nocturna, em que homens solitários se refugiam em bandos de seus iguais na busca da anestesia alcoólica e do sexo barato que o som alto das juke-boxes promete.

Quase fronteiro ao meu está o prédio onde é rei da noite local o ‘Dancing-Bar Vasco da Gama’, catedral da luxúria e dos desejos lascivos com bolsos menos afortunados. Uma prostituição de classe intermédia, sem ser a naif que se visita nas barracas do caniço profundo nem a espampanante dos bares próximos ao porto, lá na zona baixa da cidade, Rua Araújo e adjacentes; algo a meio caminho entre a modesta capulana que se abre num só gesto, para alimentar a criança que também aninha, e as mini-mini saias de lantejoulas e meias de nylon, também o modesto lenço na cabeça em oposição à cabeleira postiça, rígida de laca e despenteada em vãs ilusões.


Cresci conhecendo-as, mirando ao longe a sua ostentação corporal, e não fui muito tempo indiferente à sua oferta. Nas noites em que adormecia ouvindo o seu linguarejar que subia a rua onde os táxis se sucediam, as suas gargalhadas, às vezes os seus gritos e impropérios, na privacidade dos sonhos íntimos adivinhava em mim cresceres, maturações corporais, e nas carícias onanistas que a mim concedia eram elas as ninfas que oniricamente as guiavam.

A fauna militar em folga era a clientela de eleição do bar, mais o pequeno assalariado da cidade de cimento, mais todos os malandros e proto-malandros do bairro e arredores. Por tudo isto, pelo caldeirão inevitavelmente explosivo que junta putedo e tropa, embriaguês de frustrações e vidas falhadas, a autoridade policial era visita regular do ‘Vasco da Gama’. Se os jeep’s da polícia civil só lá acorriam quando chamados a por cobro a desmandos, mais frequentes em fins-de-semana, os da polícia militar paravam sempre por lá na sua ronda, com os tropas de capacete branco bebendo nos olhares de receio os ‘desenfiados’ que procuravam. Noutras vezes acorriam chamados pela polícia civil por causa de brigas que envolviam militares, assim como a polícia aérea e a naval, embora estas fossem raras de ver nos subúrbios da cidade pois os seus soldados eram elite ao lado do vulgo ‘feijão-verde’, e saciavam necessidades de evasão em locais mais perfumados que este ‘dancing-bar’ de 3ª classe, onde as incansáveis juke-boxes eram substituídas por veros conjuntos musicais, e a idade das moças ofertantes não pesava tanto nos atributos físicos que vendiam, como nas, que em regra, ganhavam os dias nas noites do ‘Vasco da Gama’. Naturalmente estava proibido de lá entrar, ou sequer de me abeirar, quando os serões de verão autorizavam gostosas horas em brincadeiras no passeio em frente ao meu prédio.

Entre nós, putos do prédio que nos juntávamos em conversas secretas num qualquer muro enseroado tentando adivinhar o crescer, o ‘Vasco da Gama’ e o seu acesso era visto como se de passaporte para a desejada vida adulta se tratasse. O nocturno, o verdadeiro. Porque, à luz do dia, todos nós, em grupo ou a solo, já lá tínhamos penetrado olhos curiosos a pretexto duma chuinga ou duma laranjada. Tentando descobrir no bucólico vazio das mesas a magia da sua animação nocturna, no olhar a uma ou outra prostituta em espera de trabalho fora de horas, tentávamos adivinhar segredos que a vida ainda não desmistificara. Passaram anos e noites húmidas antes de ousar nele penetrar na sua hora própria, palácio de desejos e tentações revelado em toda a sua cor e ruído, alegria. Timidamente, claro. Mais ousadamente à segunda, claro, como se de veterano desses folguedos se tratasse. Depois mudei de bairro e não tenho memória de lá ter regressado, ganhara outras asas e independências que iam mais longe que o furtivo atravessar duma rua. Mas passava lá em frente muitas vezes, mais de dia que de noite, e havia sempre um olhar cúmplice que trocava com a sua fachada, com os seus velhos dizeres a néon.

Quando a Frente de Libertação de Moçambique entrou na capital moçambicana após o acordo de Lusaka de 1974, careceu dum local para sua sede e foi o edifício do velhinho ‘dancing-bar Vasco da Gama’ que foi escolhido. Foi simbólica a mensagem que pretendeu transmitir, e eu percebi-a. Mas, quando lá passava e os olhos brilhavam ao fitá-lo, não o faziam só à bandeira das utopias que lá esvoaçava, ainda prometedora; era também ao néon definitivamente apagado e às memórias que ele me induzia, ao tempo do “era uma vez”, vezes tantas que marcaram o meu crescer e ensinaram-me que há mistério e beleza numa puta que sorri e gargalha, seja envolta em gasta capulana ou despida em lantejoulas.



(fotos do jornalista moçambicano Ricardo Rangel, ambas obtidas no blogue do meu blogo-amigo 'jpt': o "ma-schamba".)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Humanus Laurentinus


Espécie de origem africana, habita maioritariamente no sul da Europa em região de uso da mesma língua para comunicação social. Diásporiano forçado, a sua adaptação a outros meios e climas realiza-se com alguma facilidade embora lhe sobrevenham, ciclicamente, períodos de febre nostálgica. Acasala com facilidade e alimenta-se maioritariamente de bebidas algo fermentadas e do chamado prato do dia. Quando diversos se juntam à hora de alimentação, a sua dieta costuma adquirir matizes exóticos e mais condimentados, alongando-se a mesa ao sabor das histórias contadas e relembradas. É sociável e cultiva as relações de tribo. Considerado na sua classe como espécime empreendedor e dinâmico, mesmo quando afastados geograficamente os humanus laurentinus realizam periodicamente concentrações tribais onde praticam exorcismos psicológicos diversos.

Face à mutação de climas e de ambiente, embora apresente ainda coloração bronzeada, acredita-se na sua extinção completa em 30, 50 anos. Os descendentes reconhecem objectos e locais visualizados, mas o seu sentido de olfacto não memorizou outro trópico, e o seu corpo não reage da mesma forma à exposição solar ou ao calor. A sua rápida adaptação ao novo habitat e dispersão por outras tribos do sul europeu e doutras regiões por onde se espalharam (após movimentos sociais de algum vulto doutra História), não tem permitido aos antropólogos um estudo mais aprofundado desta espécie que, ainda que de curta existência autónoma, vê-se ameaçada de morte pela impossibilidade de recriar o local de nascimento para procriação de novas gerações que reúnam as mesmas estruturas, e permita adoptar os mesmos comportamentos tribais.


A actual geração de humanus laurentinus efectua periódicos voos transcontinentais para a região de origem. Existem correntes de opinião que defendem que tais viagens são comportamentos individuais por saudade genética, mas afirma-se também que são acções de grupo para rejuvenescimento da tribo e seu fortalecimento. Embora ainda não devidamente catalogada, a influência dos seus membros tem-se feito sentir em todas as regiões onde estabeleceu colónias, e muitos dos seus espécimes já obtiveram menção de relevo em galerias de destaques locais em diversos parâmetros.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Memórias Moçambicanas IV - Levanta-se o réu!



A tarde de sábado nada prometia em especial e no grupo que se formara no bar do hotel Moçambicano o consenso foi-se formando. Sobre a mesa e ao lado das bicas que o mestre Abílio ia servindo, sempre muito elegante na sua magreza com o lacinho negro na camisa branca, casaco azul, já só restavam duas propostas como aproveitáveis para salvar a tarde, que a noite já era sempre outra conversa e poderia depender e muito da forma de passá-la, a tarde. Há festas que nascem diariamente e nos locais mais insuspeitos: havia que circular para gozar o dia e preparar a noite. Portanto era: umas voltas de carro por outros cafés à procura de novas doutros grupos, eventualmente visitar um ou outro à porta de quem passássemos e desse para entrar e ouvir uns lp’s, ou ir ao cinema pois havia sempre um filme ou outro que valeria a pena ver e, lá, pela fauna sabiam-se muitas novidades sobre a flora. Nem me lembro em qual votei mas o certo é que a última ganhou e lotamos o meu carro rumo à baixa da cidade, descendo a antiga av. Anchieta de forma a tomar-se a da República (esta hoje av. 25 de Setembro, ao que penso) por detrás do Bazar, perto do restaurante Telavive e depois da cervejaria Nacional. A intenção era de passar em frente ao Scala e ver os cartazes e o tamanho da fila, idem para o Avenida, Dicca e Estúdio 222.

Como nas salas de cinema não se fuma, e lá dentro ou cá fora é também proibido fumar cigarros feitos à mão e de conteúdo exótico, o carro parecia um cinzeiro ambulante quando virou a esquina já contada. Éramos cinco, ia cheio. Não sei bem quem lá ia mas havia mais de um encartado, e eu não era nenhum deles. Talvez pela névoa interna ou pela imunidade que a idade imagina, quando entrei na avenida da Republica e vimos o auto-stop ao fundo, ainda distante, visível pelo aparato pois era feito de ambos os lados da avenida, os comentários não divergiram muito do já habitual resmungo à seca que eram ou auto-stop’s policiais, agora acrescidas de revistas aos carros, até ao prudente conselho de apagar as beatas e fechar as janelas. Pensando bem, além de ter podido estacionar e mudar-se de condutor, poderia ter feito entrada pelo parque do bazar e depois um desvio para a av. D.Luís, ou até uma inversão de marcha sem nenhum problema para além dos normais de trânsito. Mas foi com postura inocente e ar cândido que o conduzi a Daihatsu 1000 Station para a boca do lobo, melhor contando a palma da mão erguida da camarada Hamina Daúde, moçoila com umas trancinhas na carapinha e voluptuosamente excessiva para a apertada farda azul que tinha, ainda a cheirar a nova. E bastante aborrecida no momento, facto que veio a originar a segunda parte desta história. O carro estacionado antes do meu, e também sob seu controlo, tinha um problema com o fecho da bagageira que não cedia a nenhuma investida, com ou sem chave. Não abria, e ela e o condutor já estavam meios esquerdos um com o outro. Um porque aquilo não abria de forma nenhuma, a outra porque o queria ver aberto.

Em tão sorridente cenário dei-lhe um montão de cartões para a mão na esperança da quantidade ocultar as carências. As coisas estavam portanto bem encaminhadas e já havia quem olhasse para o relógio e fizesse contas ao tempo que duram os documentários antes do filme... Entretanto, a camarada Hamina dedicava mais atenção à zanga com o meu colega da frente e já era ela em corpo e peso que investia sobre a impávida fechadura, sem nenhum sucesso e com os meus papéis na mão. Pensei estar aí a oportunidade e aproximei-me do carro da mala avariada para namorar-lhe a devolução da minha papelada mais a ordem para recuperar o já anunciado atraso para a matiné, quando a situação descambou, como tem tendência a descambar o que anda torto.

Frustrada na sua missão fiscalizadora do outro, mas reconhecidamente impotente para reclamar mais pois aquilo não abria de maneira alguma, já eu estava de mão estendida quando dos papéis se começam a levantar situações confusas, dúvidas, e sobrou para mim o ímpeto policial, legalista... eu comecei a assobiar baixinho quando ela, a olhar para os papéis um por um, deu em perguntar pela essencial ‘carta’, que não existia e nunca ninguém antes me pedira. Lá, no meio do livrete do carro e dum cartão de sócio dum clube qualquer, para aí com ano e meio de quotas de atraso, estava bem dobradinha e já com honoráveis vincos uma declaração duma escola de condução que confirmava a minha inscrição e declarava-me autorizado a conduzir ligeiros ao lado dum encartado, para aprendizagem. Nem o Nixon nem o Brejnev tinham documentos mais dúbios que eu, e são malta que jurou até morrer ter sempre vivido na maior legalidade possível. A declaração tinha data que atestava a minha veterania nessa árdua aprendizagem e até tinha o recibo do pagamento da primeira prestação, indispensável que fora para que a dita fosse emitida.

Mas ela, camarada polícia Hamina Daúde como depois li nos bilhetinhos que amorosamente me dedicou e autografou, estava sem paciência para decidir sobre questões filosóficas que fossem além da viabilidade de pegar numa chave de rodas e escaqueirar a traseira do outro carro até que a bagageira desistisse e abrisse a boca, e como estava com vontade de reinvestir sobre a maldita aviou-me com uma multa e com uma espécie de notificação para ir à morada tal, logo na segunda-feira seguinte, explicar melhor essa história meio esquisita do papel-que-não-era-carta-mas-valia-tanto-como-se-a-fosse. Até mais, provavelmente diria quem me ouvia, mas ela estava surda. Bem, o tal vago "terceiro" que tinha de ser encartado lá passou para o banco da frente e lá fui a resmungar para o cinema, eles com hilariantes piadas mascaradas de palavras de conforto, eu a ver a vidinha complicada.
Ora bem, no escritório falei com a Becas que era a nova chefe de secretaria e lá me apresentei à morada penteadinho e de camisa lavada, até fui no carro pois de mota podia cair e sujar-me. Hoje penso que seria dos chamados ‘tribunais de polícia’, que julgam causas menores tais como estas infracções de código da estrada. Era na zona perto do Rádio Clube, início do bairro da Maxaquene. Encaminhado ao que ia, havia uma espécie de bicha para dar o nome, etc, etecéteras que um funcionário ia martelando na burocrática máquina de escrever. Ainda éramos bastantes do lado de cá do balcão, e aqui vou abordar a questão racial que então era pormenor muito em discussão: fazia-se sentir no dia-a-dia para além do vulgar "eu sou branco e tu és negro, gordo e baixo ou alto e magro, ok, já vimos isso vamos ao resto". As velhas discussões acrescidas pelo momento revolucionário pós-independência nacional que se vivia. Eu era o único branco na sala, ambos os lados do balcão considerados.

Lá chega a minha vez, e estava embrenhado a contar a minha vida em números e moradas ao zeloso escrivão quando me apercebo que está alguém ao meu lado, atento ao que ouve e a tentar ler pouco discretamente a folha que já se dobrava sobre o rolo da máquina e descaía para a secretária. É outro de raça branca, um rapaz mais ou menos da minha idade. Olhamo-nos e eu, que até então estivera para ali mudo a ler o jornal de parede e os editais pendurados até começar a debitar às perguntas do escrivão, perguntei-lhe, confesso que com olhar solidário: "- é por não ter carta. e tu?". Não gostei do olhar dele, mas esse e o silêncio de resposta foram rapidamente esquecidos porque o questionário ainda não terminara, e também porque ele desapareceu como aparecera. Quando olhei de novo, já se sumira. E lá fomos para a sala do julgamento. Chamaram-nos todos ao mesmo tempo e lá nos sentamos à espera que a sessão começasse. Talvez uns catorze ou quinze, à volta disso. Pelo que já perceberam todos os outros réus eram de raça negra, e esclareço que a maioria era tão jovem que as suas caras indiciavam ainda serem mais novos que eu, eu que então tinha vinte anos e já 'emancipado' para tirar a carta de condução mas que nunca sentara o inhófe num carro de ensino.

A sala tinha bancos corridos cá atrás, uma paliçada para lá do meio e, ao fundo e sobre um estrado em madeira como os das salas de aulas antigas, a douta secretária vaga à espera do juiz, que surgiu aperaltado com a primeira toga que vi ao vivo na minha vida. Era ‘ele’, o outro rapaz branco, o curioso de poucas falas, provavelmente um dos estudantes de direito que foram promovidos ad-hoc a juízes de causas menores após a sangria geral de quadros no sistema público que o fim da administração colonial portuguesa trouxe a Moçambique. Estava a começar a ter a sensação de que esta história toda começara mal e estava com sérias vontades de assim continuar, render juros em memórias prolongadas, enfim, já me coçava. É feita a chamada individual e das perguntas e respostas extraio que o resto da malta trabalha toda em oficinas e contam que ganham uma miséria, eu sou o único empregado num escritório e ganho a fortuna de sete contos por mês – já o confessara ao tal da máquina de picotar e era com espanto que ouvia os ordenados dos outros e achava-me rico sem nunca antes de tal fortuna me ter apercebido. Mais o emprego de luxo ao lado das roupas com manchas de óleo. E não se esqueça que era o único português e branco, eles eram todos moçambicanos e negros. Como a tal cereja que não deve faltar em cima de bolo que se preze, o caríssimo juiz podia estar mal impressionado sobre a minha curiosidade sobre a sua personalidade criminosa. Estava tramado...

Foi com este ânimo que ajeitei a camisa para dentro das calças e passei a mão pelos caracóis, e avancei para o homem do bibe preto quando chegou a minha vez. Optimista e diplomata, ter-lhe-ei feito até um pequeno aceno de velhos conhecidos, e cá de baixo terei piscado o olho lá para cima tentando ocultar que já estava a suar fininho, a minha estreia judicial estava mesmo a correr mal. Os olhos dele gelavam quando olhou para mim, de cima para baixo e voltaram a subir, e disse-me e eu também gelei: "- Isso são maneiras de apresentar-se num Tribunal?" Impossível. Era impossível. Primara como se fosse a um baile, até tivera o cuidado de limpar o pó do assento da carrinha para não me sujar a caminho do tribunal, e não viera na motorizada por isso mesmo. Olhei-me todo, até conferi se a braguilha estava ou não fechada, e mirei os sapatos; tudo normal, mais do que bom e até podia ir casar-me. A minha cara de espanto era tão natural quando lhe voltei o olhar que, então, ele apontou-me a razão lobrigada para abrir a lide com capote de ouro, e declarou em voz de indignação autoritária: "- O botão! aperte-o!" E apontava para a minha camisa que tinha não o vulgar um mas sim dois botões desapertados. Aquele velho hábito de justificar com a entrada de ar fresco e deixar a peitaça à mostra das pitas, o segundo botão desapertado... se não fosse um tribunal até um terceiro tinha seguido igual caminho, digo, abertura.

Bem, lá o apertei e não sei quantos tormentos legais depois ouvi a pena. Uma quantidade enorme de dias de prisão (mentalmente já estava a fazer contas às férias que seria forçado a antecipar e gastar com a 'pildra'), no fim explicado que eram dias remíveis ao pagamento duma multa, um dinheirão por cada dia. No fim de tudo e da toga findar o seu tenebroso voo, juntamo-nos todos junto ao escrivão que fez as contas individualmente a cada um, mais as custas. Calhou-me quatro contos e quinhentos, o que me deixou teso e a ganir um mês inteiro. A malta das oficinas, colegas de crime mas não de profissão, ficou com uma média de um terço do que eu tive de pagar daí a uns dias. Raios partam as manchas de óleo na roupa, a descabida pretensa solidariedade racial, e a ditadura do proletariado que impunha complexos de pequeno-burguês a quem não trabalha a terra ou nos caminhos-de-ferro. E raios partam a camarada Hamina Daúde pois essa malandra das trancinhas é que teve a culpa daquilo tudo. Vinguei-me depois, numa das historietas do "Demmis" e da "Amélia": ainda não foi promovida e continua na esquadra da Baixa a fazer o giro, como castigo condenei-a a eternos pés-chatos.

Uma nota final pois lembrei-me dela na busca de hipótese de localização do tal ‘tribunal de polícia’ na Maxaquene. Estou em crer que é no mesmo velho edifício de traça colonial, onde funcionava uma repartição pública tipo conservatória de registo civil, e onde até 30 de Setembro de '75 se entregavam as declarações de opção de nacionalidade e se instruíam os processos de naturalização moçambicana. Foi lá, nos últimos dias, que entreguei a minha opção, ainda tenho guardado o recibo dos emolumentos. Nasci em Lisboa mas vivia em LM desde os sete anos. Foi essa a minha decisão do coração.

Que aconteceu em tão pouco tempo que, em Dezembro, já estava inscrito no consulado português e com passaporte requerido, feito a carta de demissão no emprego e os lp’s e os livros prometidos dar a um amigo? É o tal período onde o som das dúvidas tornou-se-me insuportável, e em Janeiro de '76 tomei um avião à descoberta de mais mundo.


(imagem da av. 25 de Setembro, Maputo, daqui.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Epistolar estudantil: as minhas memórias do Liceu António Enes






Há tempos recebi um mail que me provocou uma chuva de memórias em volta da minha fugaz passagem pelo Liceu António Enes de Lourenço Marques, hoje respectivamente Escola Francisco Mayanga e cidade de Maputo.
Veio de alguém que não conheço e que sabendo provavelmente por algum comentário meu aqui pela Internet que lá tinha ‘passeado os livros’, divulga-me
um site alusivo e diz que recordações daquele tempo, estórias que são a sua história, são bem vindas.
Na resposta alarguei-me, pois conforme escrevia ia recordando mais e mais... Ficou assim:

“A. J., meu amigo: primeiro quero agradecer-lhe ter-se lembrado de mim como ex-aluno do Liceu António Enes. Não sei se foi pelos sites MSN ou pelo blogue que soube que fui lá (mau) aluno, e acredite-me que muito me sensibiliza este convite. Tenho é um grande problema: como se terá talvez apercebido quando escrevinho recordando o meu passado laurentino, a minha memória do Antº Enes já é bastante difusa e por exemplo digo-lhe que tenho recordações mais fortes da Escola Joaquim de Araújo, para onde 'transitei' após subtil sugestão da reitoria do AE aos meus pais... bem, mas essa é uma das tais estórias que me deixam envergonhado e pelo menos até me dar uma de louco, não a conto a não ser com sentença judicial e sob tortura, perdidos os recursos possíveis e portanto transitada em julgado, sem emprego possível em Londres na V & A, Associados, Ltd."

Bem, e vendo melhor, até que me lembro de alguns episódios no AE onde passeei os books dois anos e onde a minha irmã já era ‘dos crescidos’... foi lá à porta, naquele terreno tipo baldio mesmo em frente da escadaria, do outro lado da estrada, que levei um enorme arraial de porrada, provavelmente o maior até hoje, felizmente... uma daquelas estórias entre putos que depois já não se sabe como nem quem começou; mas ficou no ar público aprazado combate fora do recinto da escola e no fim das aulas... o 'incidente' entre eu e o meu algoz deverá ter-se passado logo à entrada ou no 1º intervalo, dedução que obtenho do peito feito que então fiz e lhe mostrei, ao desafiar para umas lambadas 'a sério' um matulão qualquer que me pisou os calos ou eu a ele... na verdade e lembrando-me, conforme as aulas iam passando e a cada intervalo, havia cada vez mais olhares de pena que me eram dirigidos e lá no corredores ou no pátio era apontado a dedo com um olhar de dó e aquela curiosidade mórbida, então já latente em nós, putos e pitinhas, de saber quem era - e ver-lhe a cara..., a anunciada vítima do massacre já apregoado por todo o liceu... é que o outro era - e não estou a justificar o arraial que levei, não!, ele era um bom palmo maior que eu, além de demasiado bem entroncado ao lado do lingrinhas caixa d'óculos, eu. Quando saí e desci as escadas fronteiras eu não imaginava que 'descia' para o cadafalso, eu fazia-o de facto: é que fi-lo entre duas filas de salivantes espectadores e quando levantava os olhos do chão era para ver na outra extremidade, já no tal terreiro, o meu carrasco pronto para a exibição do século: até já estava sem camisa e eu, mesmo míope, já imaginava mais que via músculos a mais para os (poucos) que eu admitia aguentar... bem, como o resultado era já antecipadamente conhecido fui-me logo a ele e - espero que a memória esteja correcta, em defesa da minha honra!...., a 'primeira' foi minha e acertei-lhe. Depois... ok, depois as coisas começaram a correr mal a uma velocidade excessiva, acho que deixei de ver as caras que me rodeavam quando dei a talvez 5ª volta no chão, até que a minha irmã apareceu, avisada por alguma inimaginável alma caridosa de aluno e conseguiu safar-me do maior arraial de pancada que levei em toda a vida. Permito-me aqui fazer uma pausa para repetir o já falado "felizmente".

(na última imagem vê-se esse terreno; é o mesmo ao fundo da avenda que termina em frente ao Liceu, onde está agora um muro. Na penúltima, reparem no tamanho da escadaria neste ângulo e visualizem-me com os olhos do meu pavor naquele momento, cordeiro a caminho da ara onde seria sacrificado em nome da Honra de Macho...)

E do AE onde, sei lá se no 1º ou 2º ano que lá andei, na estrada que passava entre o campo de básket e as barreiras, ao lado duns prédios que ali havia, houve uma explosão de granada e, contava-se, morreu um 'terrorista' que a transportava. Sim, vivia-se no tempo em que o 'terrorismo' era o diabo colonial e a explosão até poderá ter sido por um acidente, algo do género: sabe-se que muitos militares após desmobilizados traziam consigo material de guerra desviado aos direitos, como soe dizer-se. E até quando de férias na 'capital' provavelmente alguns lembravam-se de meter umas 'castanhas' ao bolso, nem que fosse para se armarem aos cucos junto dos amigos do antes-tropa. Bem, sei lá se verdade ou boato, a estória correu então assim e lembro-me de se apontar para umas manchas na parede exterior do tal prédio ao lado do qual a tragédia aconteceu, e para as árvores perto, e apontarem-se as manchas e gritar-se 'sangue', e apontar-se tudo o que fosse susceptível de parecença ou confusão e gritar-se ainda mais que aquilo eram pedaços de carne do 'terrorista'. E se calhar sim, até era sangue e carne do desgraçado que rebentou a ameixa nas próprias mãos. Sei lá. Mas nesse dia já não houve mais aulas e fomos todos mandados para casa. Uma estória do Liceu António Enes, portanto...

Também me recordo dum ‘granda maluco’ que lá havia - há-os sempre em qualquer escola que se preze! e que por via duma aposta, daquelas apostas estúpidas que se fazem quando a parvoíce é a nossa forma de viver "não és homem nem és nada se não fizeres isto ou aquilo", o grande doido saltou da varanda do 2º piso - e se o pé-direito dos andares do AE era pequeno... - para um daqueles pátios com relva que lá havia (e ainda há)... claro que partiu os dois tornozelos e houve peregrinação ao local onde, supostamente mas não contestado por ninguém! viam-se as marcas dos seus pés quando caiu, marcadas na relva. São assim os Heróis, não é? eheh e se nessa idade temos tendência de acreditar em heróis, em imaginá-los como bem reais e nossos conhecidos... da lenda consta ainda que antes do salto que lhe deu acesso aos anais, ele foi-se informar com o prof de ginástica em como se devia 'cair bem' após um salto; e dizia-se em defesa do Herói que ele até fez tudo bem e deveria ter saído da aventura como o novo Vice-Rei da cidade, e incólume, e isso só não aconteceu - o incólume, obviamente... porque ele cometeu o erro xis e o erro ypson, coisa que nós nunca faríamos se um dia nos tivéssemos de submeter a tal prova de masculinidade que nos abriria as portas da glória. E abanávamos a cabeça que sim, todos muito entendidos nessas coisas de saltar dum segundo andar. Já não me lembro do nome do 'herói' mas recordo-me da estória do salto, episódio já da história do LAE.

(na 2ª imagem um dos tais dois pátios interiores; reparem na altura do varandim do segundo andar...)

Lá conheci a Alice, o meu primeiro amor, tal como o conto no
Xicuembo sob o título "quando os amores eram eternos". E, sabe-se, não há amores como os primeiros, além de que, facto, a Alice era a pitinha mais linda em toda a cidade. Brigava então e brigo hoje com quem o negar. Hoje e via esta maravilhosa Net, voltei a encontrá-la e deixei os olhos sorrirem ao recordar os rubores que sentia quando ela me olhava, indecisa entre o trocista e o amigável; do terno que era era estar-se perdidamente apaixonado com dez anos, mas ser tão tímido que caso ela me dirigisse palavra morria de facto e de jure de imediato. É bom recordar...

Sei lá como nem porquê, foi no AE que tirei o curso de "chefe de quina" da Mocidade Portuguesa, coisa que me deu muito jeito quando fui emigrado para a J. Araújo e, mui prazenteiramente, livrei-me de marchar na minha turma aos sábados de manhã pois, estúpidos, os de lá quando souberam que era ch-d-q deram-me uma turma inteira (a mim!!!) para 'comandar'... caramba! nunca na Araújo houve malta mais acertada e disciplinada a marchar como a 'minha' turma era, e isto até virarmos a primeira esquina e, em posição de sentido, após rápidos olhares em volta para ver se havia mouros na costa, ouvir-se o mais célere 'destroçar' que as manhãs de sábado da Araújo alguma vez ouviram, por certo... era um "ala que se faz tarde" e lá por trás, pelo lado das oficinas, raspava-se tudo o mais depressa possível e havia toda uma manhã de sábado à nossa espera... não podíamos era ficar lá dentro pois 30 putos fardados a passear dava mais nas vistas que a falta duma turma inteira a marchar.

Eu seguia sempre para a Baixa e passava horas com os sonhos colados à montra da Casa Vilaça, vendo os Matchboxes, os Corgi e os Dinky Toys. Ou ia ao John Orr, do outro lado da rua, e chegava a conseguir que me dessem um dos catálogos anuais que essas marcas de miniaturas faziam com fotos das colecções inteiras, que eu lia e relia até materializar em sonhos todos os prazeres que a sua posse (virtual, sim, é verdade; mas que sonhava, isso...) dava. Houve uma altura em comecei a temer que alguém estranhasse um puto fardado andar desenfiado na Baixa à hora em que deveria estar a marchar e a dar ordens de "à esqueerda! o..bli....quaar! 'êrdo, 'êito, óp eis, 'squerdo 'eito, óp eis, 'squerdo!", e tinha uma severa desconfiança que naquele mundo gigantesco da baixa de LM dos adultos, as minhas divisas de chefe-de-quina não serviriam para me safarem se alguém estranhasse e me inquirisse.

Comecei a atravessar a rua para o outro lado mas não julgue, caro A. J., que me escondia nos Correios ou no Scala. Não evito um sorriso quando me lembro que ao fim duns tempos eu já não atravessava a rua para me esconder: quando chegava à Baixa, desenfiado da MP aos sábados de manhã, entrava directo na Biblioteca e alarguei lá a minha capacidade de sonhar anos que, indubitavelmente, eram muito mais propícios e dignos de qualquer outra parvoeira que de... marchar :-(

(finalmente, na primeira imagem, o edifico meu refúgio ao ‘marchar, marchar’: a biblioteca pública da baixa lourenço-marquina)

Bem, mas esta já é estória dos tempos da Araújo, embora as divisas tenham sido 'ganhas' no Liceu António Enes. Como lhe disse, do AE lembro-me de muito pouco e não me recordo dos profs, menos ainda dos seus nomes. Talvez haja por aqui uma memória do de ginástica, creio que já com umas cãs brancas e, talvez, com óculos. Bom tipo, eu gostava dele embora eu fosse um pisso em desporto. Mas ganhei com ele 'tesão' pela ginástica e já não sei se quando fui para a Araújo se ainda no 2º ano do AE inscrevi-me na 'ginástica aplicada' do Ferroviário, onde andei dois anos se não estou enganado. O prof. era o sr. Abranches, um ex-praticante já quarentão, mulato, que tinha um ‘caparro’ do caraças. Andava lá o Agostinho, o Néneco, o Júlio, sei lá quem mais. E o Cândido de Azevedo era então 'star', Cândido que vim a encontrar aqui pelo Ribatejo duas décadas depois (actualmente está em Pequim, após uma data de anos em Macau). Eu gostava da barra fixa e das paralelas e detestava o cavalo de arções e as argolas, já fazia o flique atrás mas nunca dei um mortal sem o 'cinto'.

O que é que mais me lembro do AE? da separação masculino-feminino nas salas e nos corredores e que só na zona do refeitório/bar é que havia misturas que se desejavam e se suspiravam: que prazer de expectativa havia naqueles empurrões malandros que se davam na bicha e ninguém fugia à deliciosa confusão de corpos comprimidos contra corpos, havia um brilho especial quando se ia para a bicha das senhas no bar, na demanda do chocoleite e da arrufada... Recordo-me também duma sala em anfiteatro que era onde havia aulas de música, mas o canto coral era passado a ensaiar 'Angola é nossa' e coisas do género... uma seca. Dos campos desportivos: lembro-me bem deles. Sempre preferi o básket e ia mais para o do fundo do pátio, mas, no outro mesmo em frente à porta de trás, talvez a meio do terreno dos pátios, no campo de futebol/andebol que lá havia (alcatroado se bem me lembro), fui elemento equipado duma equipa de andebol que levou uma trepa tal no 1º jogo que nunca mais fez nenhum: o prof. exigiu que a turmas se organizassem em equipas de andebol de sete para um mini campeonato interno. A 'minha equipa' não fez um único treino e, suspeito, todos ou quase todos sabiam de leis do andebol o mesmo que eu: zero. Descobri em próprio jogo que além das mãos não se podem usar os pés (quem diria uma coisa dessas? que raio de ideia, hein! e nem avisaram...), que não há contacto corporal como no rugby e, havendo-o, o alcatrão é danado para os cotovelos e os joelhos. Ao intervalo já estaria uns vinte-zero, ou coisa parecida. Foi memorável e ainda hoje tenho comichão quando leio uma notícia sobre andebol: há coisas que ficam para sempre, tecnicamente os profissionais chamam-lhe "traumatismos" :-)

Bem, se calhar outro dia recordo-me de mais. Mas acho que não. Como disse ao princípio, A. J., eu mal me lembro dos tempos do LAE. Ah! Há ainda outra estória e que também está no
Xicuembo: a da caderneta de cromos dos aviões de guerra, passada com o Jorge que era meu compincha e que era da Matola, e que ficou com o álbum no fim do ano embora tivesse sido feita pelos dois. Esse malando, vim a encontrá-lo num Grupo MSN uns quarenta anos depois e, claro! pedi-lhe contas pela 'nossa' caderneta... Nas palavras dele ficou lá, na Matola. Ainda bem, desejo que outro puto tenha sonhado, desfolhado-a.

Um abraço do cg”


(Obviamente que as fotos foram gamadas na net; sei lá onde ou a quem... 'nacionalizei-as' pois essas imagens também fazem parte do meu passado)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Música & memórias, ldª

... laurentinas, tá claro!

São dois posts memorialistas que editei no
meu tasco pessoal, mas que gostarei de partilhar com quem aceitar clicar nos links abaixo sem preconceitos moralistas ou sermões quejandos, até que o que lá vai lá vai e já está tudo prescrito, portanto nem vale a pena chibarem-se...

Assim já sabem: têm O no canto (o segundo, essencialmente esse), embora no meu casto e interesseiro entender seja em grafia suave e bem musicada.

Aqui, Emerson, Lake & Palmer, e aqui Uriah Heep.

Boas audições aos afoitos e não me lapidem, que isso dói e depois eu nunca mais páro de berrar... :-)


Nota: "laurentinos", era a designação generalista dada aos habitantes de Lourenço Marques (tal como "Coca-Colas"), existindo então uma famosa cerveja com o nome "Laurentina"; agora se foi o ovo ou se foi a galinha que... não sou filósofo: nunca fui esquisito e tanto bebia essa como a 2M... ;-)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Cá de longe, do Tempo



Divorciamo-nos há mais de trinta anos atrás. Um amor juvenil, um namoro em que as mãos dadas e as carícias trocadas fizeram-me suspirar por mais, acasalamento e de papel passado, uma tarde rabiscado naquela avenida que desce a colina e beija-te no ventre, baixa da cidade onde o Homem ergueu orgulhosos trinta e tal andares para dizer à linha da paisagem, em grito de posse para a terra amante fiel e tolerante que tudo lhe dá e permite, que a sua ambição é grande, alta, excessivamente alta. Antes do divórcio que desalinhou o nosso entrelaçado de afagos, mesmo antes do casamento precipitado pela nossa recém maioridade, eu e tu, musa-cidade, namoramos sem fim nem jeito nas tuas esquinas que me eram tão familiarmente sensuais, esquecidas as convenções nas partilhas de amor que trocamos no teu Sol africano, esse bafo quente que clamava por quinhões de emoções que não lhe regateamos. Era um amor doce, eram beijos sem fim trocados na suavidade da brisa que subia da baía para a colina e amenizava fins de tarde tropicais, doutras vezes impetuosos no travo de sal das ondas que nos lambiam na areia macia das praias, portas do mar onde nos sentávamos, juntos, próximos, amantes, jurando cumplicidades e sorrindo ao viver. Sim, estávamos apaixonados e o nosso namoro era tão lindo como é o amor que líamos nos nossos olhos quando nos encarávamos e sorríamos, enlevados na nossa paixão.

Hoje, os tais trinta anos depois mais coisa menos arrufo, ainda não gosto de falar no divórcio, prefiro afagar em mim o enlevo das carícias da memória, as mãos dadas, os suspiros e as juras que trocávamos. Compreendes-me querida? Como dizem os antigos e que muito conhecem destas coisas dos amores perdidos, não há verdades únicas nas separações e é difícil arrolar razões e encontrar culpados únicos quando os dedos se separam e deixa de se sentir o conforto da sua carícia. Quando o romance termina e esvaziam-se os dias dos calores como aqueles de que o nosso namoro foi farto, quando sobrevém às noites o frio da solidão. Não, nem as palavras de traição são aliçadas, excessivas na injustiça de tanta letra dura para contar lágrimas derramadas, o tempo que passa, a separação. Aconteceu, os Deuses entenderam que o nosso romance precisava de mais provas, outro fogo que não o que nos aquecia na ânsia dos jovens amantes, e ele soçobrou; o nosso casamento, pueril, reprovou-se a tal prova e chumbou o enlace que se jurara eterno. Conheci outras cidades e outros leitos, mais amores, e valha a verdade em contar-te que, neles, também fui feliz. Noutros colos e noutras ruas também amei e o meu sorriso surgiu natural ao acariciar seios-colinas, nas águas doutras praias e na sombra doutras árvores, na crosta urbana doutras terras e doutras cidades também ternas na sua secular carícia, sapiente. Mas há estes momentos de melancolia em que olho o passado e recordo o primeiro amor e cai-me uma lágrima de saudade.

Hoje, vida feita e semi-gasta, com tanto balanço encerrado e de contas ajustadas há em mim uma portinha que não se cerra, abro o peito e espreito, vejo-te a ti minha primeira amada. Vejo-te, minha cidade. Se me olho ao espelho e tento ler as rugas, decifrar as cãs, desisto de nelas contar as desilusões e deixo o meu olhar perder-se no brilho dos olhos quando a memória em ternura te contempla, as avenidas e o caniço, as acácias tão rubras como quente era o nosso enlevo. Fazes-me falta neste Outono da vida, querida. Sinto a falta do teu bafo quente, o brilho do teu sorriso, da magia que era acordar de mãos em ti enlaçadas e acreditando na eternidade da nossa paixão. Desculpa-me pelo que errei, pelas minhas culpas na nossa separação. Desculpa-me. Porque ainda te amo, pelo tempo passam outras que me amam e me tratam bem mas confesso-te em letra de lei que, em mim, ainda não aconteceu amor como o nosso primeiro. Desculpa-me meu amor, minha cidade.


(Imagem de Maputo, ex-Lourenço Marques, de autoria de Helena Afonso e encontrada aqui, gostei tanto dela que... trouxe-a comigo: cola-se bem à que guardo no meu álbum íntimo, aquele beijo que diariamente desfolho antes de adormecer.)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Memórias moçambicanas III - Princesa das duas cidades


Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.


Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava.


quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.


nem tinham sido inventados os chapas, pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...


O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.


(lá, naquele tempo)


Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimísticas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...


– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.


Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.