A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

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Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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domingo, 13 de janeiro de 2013

"A Saudade dos Heróis: Vico na Razão Atlântica", de Rodrigo Sobral Cunha. Em breve...

Oferece-se este estranho livro ao leitor cuja alma é elevada à proximidade da ideia de heroísmo. Mas o heroísmo de que aqui se trata desaparecia já a olhos vistos da cena europeia ao tempo de Vico. Daí o apelo do napolitano, aliás em ciclo análogo ao de Platão que, como recordava, fez da Academia escola de heróis. Contra a determinação aparente da época. Quando, um século depois de Vico, falou Thomas Carlyle no culto dos heróis, dava-o praticamente por extinto, projectando a esperança num futuro em que os homens voltassem a ser sinceros. Pois a insinceridade é a marca do anti-heroísmo. Era 1840. De lá para cá institucionalizou-se a vulgarização de todas as coisas, a ponto da invulgaridade corresponder ao exacerbamento de uma qualquer característica vulgar. Nunca a alma heróica se faz tão significativa como quando a insignificância, para não dizer a ausência de sentido, se fez regra geral. Num certo sentido, porém, permanece o mais importante intocado, precisamente porque é intocável. A isto mesmo se dedicam, em primeiro lugar, os heróis tal como vêm aqui pensados.
Para além dos factores misteriosos, há vários métodos para activar a alma heróica – a coragem inteligente – e o estudo é, concertadamente, um deles. Donde, de resto, parte significativa da estranheza deste pobre livro. Reúne ele textos, cujas circunstâncias se explica em notas, segundo um ritmo correspondente à razão dos estudos. Para o efeito, convidam-se ao diálogo pensadores que não foram alheios à neociência. No meio disso faz-se o levantamento de algumas linhas quase invisíveis do pensamento em língua portuguesa, procedendo ao seu encordoamento.
A ciência heróica não é para os homens de mente discursiva, como é sabido na tradição heróica da filosofia portuguesa considerativa da intuição intelectual e da pura acção.
Nos cem anos da Renascença Portuguesa, deseja-se que estas páginas sirvam, entretanto, a Renascença Luso-Brasileira.
Cada um saberá o que fazer.
Está a intuição imaginativa para a filosofia poética da razão atlântica como a onda está para o mar.
Contemplando aventurosamente o Universo, o herói faz a ponte entre a origem e a novidade de todos os acontecimentos, projectando no mundo uma luz sobrenatural que infinitamente o ultrapassa.

Rodrigo Sobral Cunha

sexta-feira, 19 de março de 2010

Para ler o resto, vai ter que esperar pelo nº 6 da NOVA ÁGUIA...

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Giambattista e Vico e Europa: Ciência da Lira e das Nações

RODRIGO SOBRAL CUNHA

Começamos por tomar emprestada ao autor da Scienza Nuova a imagem com que, na sua Vita, designa os Pensées de Pascal, lumi sparsi, que serão aqui uns tantos pontos de vista de alguns ilustres leitores europeus do platónico partenopeu, demasiadas vezes denominado obscuro.
Esse “homem misterioso” (como o designa Antero de Quental, em 1866), que teve, entre outros, o dom da profecia retrospectiva, não poderia talvez imaginar até que ponto o mal-entendido perseguiria a sua obra ao longo de mais de dois séculos e meio, ainda que não pouco da obscuridade desta, deliberada, tivesse em vista reproduzir o eco e os reflexos, entrecortados no claro-escuro do tempo, das cisões que as idades do homem assinalam sobre a terra.
Assim, era natural que fossem os philosophes iluministas a dicionarizá-lo como o “ilegível” e “confuso” professor de eloquência da Universidade de Nápoles, primeiro doutrinador anti-cartesiano, ao que então mais parecia importar, estranho inimigo da rationalité, autor ainda de uma teoria dos ciclos históricos, quando não o “fundador da filosofia da história”, que anteciparia em parte algumas “teorias” do romantismo, em parte outras do fundador do positivismo. E a pouco mais do que isto se resumem, da primeira metade do século XVIII a esta parte ainda, a generalidade dos verbetes sobre o filósofo italiano. Isto no tocante à superfície.
Todavia, ainda em 1841, o viajado Visconde de Sernancelhe José da Gama e Castro, colocava estas considerações aos pés de O Novo Príncipe:

“Entre os mais recomendáveis publicistas que escreveram pelos princípios do século de setecentos, há um quase de todo desconhecido, ainda entre os seus, porque a muita originalidade com que escreve o torna obscuro, e exige, para cabalmente compreendê-lo meditação e estudo. Chama-se João Baptista Vico. De todos os escritores de que até agora me tem chegado notícia, nenhum me parece haver tratado com tanto conhecimento de causa da origem das línguas, da formação das nações, e de muitos outros objectos não menos curiosos que interessantes.”

É à terceira leitura que, segundo Vico, se entra na Scienza Nuova, ainda que, por outro lado, o número de pontos de vista patentes nessa obra seja quase inexaurível. Jules Michelet, que desde 1824 apresentou o pensamento de Vico à Europa do século XIX, escreveu:

“No vasto sistema do fundador da metafísica da história, existe já, pelo menos em germe, todo o trabalho da moderna sabedoria. Como Wolf, disse ele que a Ilíada era o trabalho de um povo, seu trabalho erudito e última expressão, depois de muitos séculos de inspirada poesia. Como Creuzer e Görres, interpretou as figuras heróicas e divinas da história primitiva como ideias e símbolos. Antes de Montesquieu e Gans, mostrou como o direito surge dos costumes de um povo e representa fielmente cada etapa da sua história. O que Niebuhr encontraria após vastas pesquisas, foi adivinhado por Vico; ele restaurou a Roma dos patrícios e fez viver de novo as suas curiae e suas gentes. Certamente, se Pitágoras recordaria ter lutado sob as muralhas de Tróia numa vida anterior, esses ilustres germanos podiam ter lembrado haverem todos eles vivido anteriormente em Vico. Todos os gigantes do criticismo estão já contidos e sobra lugar, no pequeno pandemónio da Ciência Nova.”

Um dos jovens discípulos de Michelet, entre os muitos que por aqui encontrou o mestre humanista francês, Oliveira Martins, escreveria em 1872:

“Presidindo à descoberta da psicologia metafísica, feita pela filosofia alemã, presidindo à teoria da economia social, feita pela raça anglo-saxónica, presidindo à escola histórica, Vico aparece aos olhos do historiador como um destes espíritos gigantes e precursores que, pela própria força e liberdade, determinam e descobrem, indicam e registam, os caminhos diferentes que a humanidade tem de seguir dentro do ciclo que uma concepção determinada do todo ilumina.”

A apresentação de Vico ao século XX, coube ao admirável esforço do seu conterrâneo Benedetto Croce, promotor, desde 1904, dos studi vichiani, movendo o filósofo idealista italiano a ideia de se encontrar no pensamento de Vico o século XIX em gérmen.
Michelet escrevera: “A palavra da Scienza Nuova é esta: a humanidade é a sua própria obra.” E é talvez este mote do romantismo liberal do historiador da Revolução que define todo um ciclo hermenêutico, mais aparente, da obra do luminar napolitano e que, passando por Croce, vem até aos nossos dias.
Um juízo do autor da Teoria do Ser e da Verdade, juízo relativo ao Sistema dos Mitos Religiosos de Oliveira Martins, vale todavia para o referido ciclo hermenêutico:

“Não vê que os mitos assinalam, entre brumas, três idades: a divina, a cósmica, a simplesmente humana.”

Um século depois daquelas palavras de Oliveira Martins, atrás citadas, escrevia o filósofo lusitano:

“Se os portugueses tivessem sido atentos ao que ocorreu na Itália, após o profundo e pletórico Renascimento, particularmente com o pensamento de Vico e a meditação do tempo e da história, do mito e da simbólica na Scienza Nuova, os nossos próprios caminhos ter-se-iam esclarecido. Mas não é impossível hoje regressar ao ponto de meditação que dizemos crucial.”

Reiteradamente afirmou Vico que uma das principais descobertas da Scienza Nuova e aquela que precisamente a converte em ciência, é a de uma história ideal eterna percorrida no tempo pelas nações. Segundo ele, o “curso” efectuado por estas, de que Roma é caso paradigmático, compreende três diferentes tipos de tempo, como de naturezas, três espécies de costumes, como de direito natural, três Estados civis ou Repúblicas, três tipos de jurisprudência assistida por três diferentes espécies de autoridade, três tipos de razões e juízos e três diferentes formas de linguagem. De da idade histórica, a dos homens, é próprio o pensamento discursivo, estruturado por géneros inteligíveis ou abstractos, manifestos na racionalidade da filosofia e da ciência, já as outras duas idades fundamentam-se nos universais imaginativos ou fantásticos, que a lógica poética da Scienza Nuova, adunando-se à sapienza poetica, deixará entrever como o próprio do mito e da fábula. A arqueologia do génio partenopeu procurará demonstrar, com efeito, como à fábula, posterior ao mito, corresponde, de acordo com a remota tradição, a vera narratio, a fala de outrora, característica das formas primevas do ser e do saber, em cujo centro luz a sapiência poética. Esta, segundo Vico, é a chiave maestra da Scienza Nuova.
A Scienza Nuova de Giambattista Vico, que meditou “sobre os mistérios que as tríades de longe procuram significar e até exprimir” (Álvaro Ribeiro) , é assim obra de tripla dimensão hermenêutica, correspondente aos três níveis de leitura para que esse livro, a nosso ver, aponta. São estes, em primeiro lugar e para a época em que foi Vico chamado a viver, decerto ainda a nossa, o de uma antropologia humanista, o de uma ontologia nobiliárquica e o de uma teologia providencialista; esta, princípio e fim de toda a verdadeira scientia .
A alta concepção do modo como a vera tradição humanista – isto é: a scientia de rerum divinarum et humanarum – culmina na Scienza Nuova, para ser justamente atendida, deve ser identificada com o tipo de acção prudencial entregue às mentes heróicas, cuja vigilância procura cumprir os desígnios da providência, salvaguardando o sensus communis, ou sentido comunitário, para bem da humanitas, de acordo com a vis veri da heroica sapientia.

(...)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Giambattista Vico e a Filosofia da História Portuguesa

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DALILA PEREIRA DA COSTA

As linhas de força do pensamento deste filósofo italiano de Seiscentos, expostas na sua grande obra Scienza Nuova, como filosofia da história, se mostrarão de grande fecundidade para uma sua possível aplicação e abordagem hermenêutica na história de Portugal: e agora, mais do que nunca, nestes nossos dias actuais, de urgente consciência da identidade nacional. Pois, misteriosamente, essas linhas de pensamento de Vico, estarão em sintonia perfeita com as que estruturam nossa história, – desde os arcanos que as criaram, primigénios.
Releve-se, entre outras, a do Providencialismo, como nossa mais peculiar e fecundante, da filosofia da história, criada na Alta Idade Média, precisamente no século V, pelo galaico Paulo Orósio, e ainda herdada de seu mestre, Santo Agostinho. Providencialismo ao qual se poderá ligar a própria afirmação do próprio Vico: que o homem não é essencialmente o autor da História, mas sim, desde o transcendente, o “Senhor da história”, Deus. Autor assim da história comandando-a e dela independente. Uma muito visível abertura informa seu humanismo, construído para além dos limites do imanente, definidos pela visão antropocêntrica do humanismo renascentista.
Aqui e ainda, a figura soberana de D. Afonso Henriques, surgindo como exemplo desses fundadores carismáticos das pátrias, de que nos fala Vico; e na realidade portuguesa, marcada ainda pela mão dessa providentia, como agente sobre a terra da vontade do “Senhor da história”. Na Nação portuguesa, seu Fundador recebendo em Ourique um mandato pelo próprio Cristo Crucificado, que iria no futuro, por si, sua descendência e seu povo, tecer, organizar e justificar toda a história dessa Nação, à medida universal: como missionária sobre a terra inteira, unindo toda a humanidade sob uma só fé.
Se atentarmos ainda na eleição que o filósofo napolitano concedeu à poesia, como via privilegiada do conhecimento, nesta sua função, ela aclarará em muito o conhecimento da história pelos humanos: veremos assim um dos vectores que teceram este conhecimento em relação a nossa história pátria: e muito em especial posto em relevo e usado por dois de seus maiores historiadores; Garcia de Rezende e Oliveira Martins.
Na grande actualidade da filosofia da história de Vico, haverá como um especial convite, agora premente, aos portugueses, na sua função noética: formulado há três séculos, e agora tão actual, nestes nossos dias de fins de tempos e começos de outros novos, nos quais a humanidade surge em queda livre, de ritmo acelerado, levando a uma sua possível animalidade. Queda, tal como Vico poderia dizer: na sua inconsciência se sobrepondo à consciência da humanidade e tendo como fim o fim das histórias.
Será notável exemplo, justamente neste século de Descartes e seu racionalismo extreme, conquistando em toda a força o pensamento ocidental (e até nossos dia), que, contemporaneamente, surja Vico, com seu pensamento tão aberto e aceitante de funções gnoseológicas ultra-racionais; valorizando assim a imaginação, a intuição, o sentimento. E se atentarmos, que todo o pensamento e vivência dos portugueses trabalhou em preponderância por essas vias primevas e na forma fenomenológica peculiar, tal como já apontada pelo nosso rei filósofo, D. Duarte e por ele usada: tal afinidade entre o pensamento de Vico e dos portugueses, partilhando uma mesma axiologia no campo noético e existencial, deverá agora ser tema de meditação para nós: utilizando o ensino de Vico para um nosso auto-conhecimento.
Atentemos que foram essas vias ultra ou transracionais, que os portugueses utilizaram no seu conhecer e sua acção, do mundo e no mundo; e que a razão iria desenvolver conjuntamente, explicitando e organizando; vias próprias que Vico designou e esperou como aquelas do homem fantástico do futuro. E teria já sido esse homem, que, a partir da imaginação foi primeiro em busca das ilhas paradisíacas na rota do ocidente: iniciando assim sua obra universal da Descoberta: e para a humanidade, iniciando seu novo ciclo histórico, como Idade Moderna.
Nesta escolha de vias gnoseológicas por Vico, elas tão dissemelhantes às do racionalismo então reinante nesse seu século, teremos para nós, portugueses, um enfoque útil a usar agora para nossa filosofia da história. Serão as luzes de sua modernidade, como dum percursor de tantos valores da actual teoria do conhecimento, que agora nós devemos usar para vários enfoques novos de nossa história, levando-nos a vislumbrar e construir o que o próprio Vico chamaria por si, a história ideal eterna de Portugal.
E será ainda esta história, construída entre poesia e teologia, a que o Conde de Barcelos, D. Pedro e Frei Bernardo de Brito, concederam à sua pátria.
Numa dimensão desde as descendências bíblicas, passando pela Grécia, Roma e Idade Média: através de vários ciclos históricos, em nascimentos e mortes sucessivas, como fins das histórias e das nações, até seus ressurgimentos: no dizer do próprio Vico.
Ainda nesta amplitude da história, se virá inserir por Vico, porque fiel discípulo de Platão, a valorização do mito, como em si contendo as verdades essenciais e fecundantes da história.
Portugal, surgindo através de seus tempos criado em tessitura unida e inseparável de mito e história (ou a história como criação do mito) – tudo agora e ainda, se afigurará aos portugueses vital no ensino de Vico; como repto para decifrarem as raízes de sua própria história. E finalmente não valorizarem como só possível aquela história vista e descrita nos moldes unicamente historicistas. Mas sim, história fazendo-se no tempo, mas ao tempo transcendendo, na sua origem e fim: que nela, foi sempre teleológico. Manifestando-se no tempo da terra mas a ele subindo desde as raízes secretas do mito preexistindo na eternidade.
Aqui e agora, porque tudo nestes nossos dias se ligando ao perigo iminente dum fim da humanidade, haverá a atentar na afirmação suprema de Vico: que os homens enlouquecem ao desaparecer em si a substância espiritual, sustentáculo de sua vida em comum. Ao elanguescimento e frenético ser do homem actual, urgirá pôr fim; e urgentemente, in extremis, dar-lhe a força espiritual que contrabalance e se una à força material: hoje desencadeada e usada imprudentemente em toda sua violência, pelo orgulho do homem actual, na sua imaturidade. Perfazendo-se assim o necessário equilíbrio humano e cosmológico, hoje ameaçado de morte; se o homem não quiser precipitar-se de vez numa catástrofe apocalíptica, tal como essas do seu longínquo passado, marcando o fim duma era. Será para evitar esta possível catástrofe e para o evento dum tempo novo, para o qual o ensino de Vico nos pode conduzir.