A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Seminário Aberto: A Filosofia de Epicteto e Marco Aurélio

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O Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto informa que de 29 de Março a 9 de Abril de 2010 estarão abertas as inscrições, para o Seminário Aberto:

A Filosofia de Epiteto e Marco Aurélio
Leccionado pelo Prof. Doutor Álvaro dos Penedos (FLUP)
Início: 12 de Abril 2010
Segundas-feiras: 19,30h-20,30h.
Máximo de 30 participantes

Informações e inscrições:
Secretariado do DF:
Torre B, piso 1
Telef./fax: 226077187
e-mail: df@letras.up.pt
Web: www.letras.up.pt/df

Ficha de inscrição em anexo. (A ficha de inscrição, depois de devidamente preenchida, deverá ser entregue no secretariado do DF).

Nota: Os seminário são ministrado por um Professor Jubilado, a título gratuito, sem quaisquer encargos para os participantes

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO (VI)

Quando alguém te fizer mal ou o disser de ti, lembra-te que cuidava que fazia bem naquilo e assim lho pareceu; porque não pode ser que ele siga o teu entendimento, senão o seu. E se ele julga mal de tuas coisas, sua é a perda, pois que vive enganado. Porque, se um julga a verdade por mentira, não é por isso ofendida a verdade senão o que a não conheceu. Com esta consideração sofrerás com o ânimo o que disser mal de ti e a tudo dirás: — «Assim lhe pareceu a ele».

Todas as coisas têm como duas asas por onde se tomam: uma tolerável e outra insofrível. Se teu irmão te fizer alguma injúria não tomes a coisa por aquela parte que é injúria, que essa não é tolerável, mas toma-a pela parte que é irmão, que se criou contigo, e por esta parte sofrê-lo-ás.

Não são boas consequências estas: Eu sou mais rico que tu, logo sou melhor; eu sou mais eloquente que tu, logo sou mais virtuoso. Estas outras sim, que são boas: — Eu sou mais rico que tu, logo a minha fazenda é mais que a tua; eu sou mais eloquente que tu, logo a minha oração é mais elegante. Mas tu não és fazenda nem oração.

Lava-se um depressa, não digas que se lavou mal, senão depressa; bebeu alguém muito vinho, não digas que bebeu mais do que o necessário, senão que bebeu muito, porque, antes que saibas bem o que passa, como sabes que foi aquilo demasiado? Porque, doutra maneira, virás a dar por tempo em imaginações falsas, julgando as coisas que vês diferentemente do que elas são.

Não te mostres sábio e filósofo, nem fales entre ignorantes muito de preceitos e regras, como no ban­quete não trates de como se há-de comer, mas come como convém. E lembra-te que Sócrates em toda a parte fugia à ostentação, de tal modo que, se alguém lhe perguntava por algum sábio ou filósofo com quem se aconselhar, levava-os a outro. Tampouco curava de ser tido em pouco.

Assim que, se alguma vez entre ignorantes vier a prática a tratar de algum preceito, o mais do tempo está calado, porque é muito perigoso deitar pela boca o que ainda não está bem digerido. E se alguém, ven­do-te calado, disser que não sabes nada e tu não te perturbares, sabe que vai a coisa bem principiada. Porque as ovelhas não mostram logo a seus pastores quanto comeram cada dia, mas, digerido bem dentro de si o que comeram, fora depois o mostrarão no leite e na lã. Assim, tu não entornes logo muitas palavras com os ignorantes; mas com obras mostra que tens madura consideração.

Se vives sóbria e temperadamente, não te enso­berbeças por isso e, se não bebes vinho, não digas logo com qualquer ocasião que bebes água, porque, se queres exercitar-te em trabalho, seja para teu pro­veito e não para te mostrares aos outros, como os que abraçam as estátuas em público. Nem tampouco, se alguma vez, com grande sede, tomares um trago de água na boca e a tornares a deitar fora, não digas logo que não bebeste.

Condição e sinal é de homem plebeu e vulgar nunca esperar de si mesmo o dano nem o proveito, mas das coisas de fora. Condição e mostra clara é de um filósofo e sábio de si mesmo esperar todo o pro­veito ou dano.

Os sinais de quem aproveita são: não repreender ninguém, não louvar ninguém, não culpar ninguém, não acusar ninguém, nem se gabar a si mesmo, tendo para si que é alguma coisa ou sabe alguma coisa. E quando lhe impedem alguma coisa ou lhe vão à mão, a si mesmo põe a culpa; quando alguém o louva, consigo mesmo se está rindo dele; se o repreendem, não se defende, mas como quem ainda está fraco da doença, anda com cuidado e temor não torne a recair, não estando ainda bem firme na saúde; todos os seus desejos são das coisas que dependem dele mesmo e o que foge são as coisas que repugnam à natureza das que estão em nossa mão; o que deseja, tudo é tibia­mente e não lhe dá nada de ser tido por néscio ou ignorante; finalmente guarda-se de si mesmo como de um inimigo que o anda espreitando.

Se alguém se gloria por entender e explicar bem os livros de Crisipo
[1], diz a ti mesmo: — «Se Crisipo não escrevera com estilo escuro, não tivera Este de que se gloriar. Mas eu, que procuro? De entender a natu­reza e segui-la. Pergunto logo: — Quem é o que isto ensina? Ouço dizer que Crisipo. Vou-me a Ele, mas não entendo os seus livros. Busco quem mos explique. Até aqui nenhuma coisa destas é grande. Como achar mestre que mos explique, o que fica por fazer é usar dos preceitos, e só isto é a importância; porque, se só parar na explicação e compreensão deles, fico sendo um gramático em lugar de filósofo, só com esta dife­rença dos outros que eles explicam Homero e eu Cri­sipo. E quando alguém me pedir que lhe explique Crisipo, ser-me-á vergonha não responder com as obras àquela doutrina que ensino.»

Estas coisas hás-de guardar como uma lei invio­lável e que sem grande pecado se não pode deixar de observar; e não cuides de nenhuma coisa que de ti digam, porque isso não está em tua mão.

Até quando hás-de demorar o lançar mão destas coisas excelentíssimas para ti, e o resolveres-te a de nenhuma maneira violar os termos da razão? Ouviste estes preceitos que eram para receber e recebeste-os? Que outro mestre esperas agora para que com sua vinda te emendes? Não és já mancebo, mas homem de idade madura. Assim que, se desprezas estas coisas e as não pões por obra, mas a uma detença ajuntas outra e a um propósito outro e guardas a determinação para um dia depois, não vês que isso é não aproveitar nada e que viverás e morrerás como um homem vul­gar e ignorante? Portanto, toma a vida que convém a um homem que quer aproveitar e ser perfeito; o que te parecer o melhor e mais acertado, como uma lei inviolável. E quando se oferecer alguma coisa traba­lhosa ou suave, honrosa ou afrontosa, lembra-te que estás em perigo e que entras em batalha que se não pode dilatar para outro tempo, e que do primeiro en­contro hás-de sair vencido ou vencedor. Assim, Sócrates veio a ser o que foi com sempre se melhorar e não obedecer a nada senão à razão. E tu, ainda que não sejas Sócrates, assim deves viver como quem o quer ser.

O primeiro e mais principal lugar na filosofia ou sabedoria é o que trata dos preceitos, como de não mentir; o segundo o que trata das razões, como e porque se não há-de mentir; o terceiro saber o porque aquelas razões são boas, como e porque é demonstra­ção, que coisa consequência, que coisa argumentar que seja o verdadeiro ou o falso. Pelo que o terceiro lugar é necessário pelo segundo, o segundo pelo primeiro e o mais necessário de todos e em que se há-de parar é o primeiro. Nós fazemos muito ao contrário, porque no terceiro lugar fazemos todo o fundamento; o primeiro totalmente não fazemos conta dele; e assim em efeito mentimos, mas nas razões por que se não há-de mentir estamos muito versados.

Em qualquer coisa que empreenderes, estas coisas hás-de desejar e pedir: — «Encaminha-me, ó Júpiter, e tu, Destino, para aquele fim que me tendes destinado, que eu o seguirei de boa-vontade, porque, se não quiser, serei culpado ; e mais, havê-lo-ei de seguir ainda que não queira».

O que se acomoda à necessidade é sábio e entendido nas coisas.


[1] Um dos mestres do estoicismo (III séc. a. C.).

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO (V)

Nas coisas que tocam à Religião dos Deuses, a principal coisa é sentir bem deles, que creias que os há e que governam bem e justamente todas as coisas, que estás obrigado a obedecer-lhes e ter por bem o que se faz por eles e isso seguir de boa-vontade, como coisas ordenadas por tão alto Saber. Assim, nem os acusarás nunca, nem te queixarás que não fazem caso de ti. Ainda que isto nunca o poderás fazer, se não deixas primeiro as coisas que não estão em nossa mão pões o bem e o mal nas que estão em nosso poder; porque, se imaginas que naquelas coisas está o bem ou mal, forçosamente, quando não alcançares as que pretendes ou caíres nas de que fugias, te hão-de queixar aborrecer os autores delas. Coisa é natural a todo o animal fugir e aborrecer todas as coisas que lhe são danosas e as causas delas; e, pelo contrário, buscar e amar as que lhe são proveitosas e suas causas. Nem há ninguém no mundo que folgue com aquilo que cuida que lhe é mau, porque ninguém se alegra e folga com seu mal próprio e daqui nasce que o filho diz mal do pai, se não parte com ele largamente de sua fazen­da; e daqui teve princípio a guerra e discórdia entre Etéocles e Polinices
[1], porque tinham para si que era boa coisa reinar. Também por esta causa blasfema o lavrador de Deus, por ela o marinheiro, o mercador e os que perdem os filhos ou as mulheres, porque o interesse é a religião de cada um. Portanto, o que procura de aborrecer e desejar as coisas como deve ser, Este tal guarda bem o que é pio e religioso. Os sacrifícios, ofertas e primícias sejam, segundo o costume da Pátria, casta e puramente oferecidas, não com negli­gência e miséria, nem mais do que tua faculdade e substância permitem.

Quando fores consultar o que adivinha, lembra-te que não sabes o que vais perguntar e que para isso vais a saber; e se fores sábio e filósofo, antes que saíras de tua casa o puderas saber. Porque, se é das coisas que não estão em nossa mão, sabido está que não há bem nem mal nelas. Portanto, não há que perguntar ao que adivinha o que hás-de fugir ou o que hás-de procurar; doutra maneira irás tremendo quando fores. E assim, isto hás-de ter por firme pres­suposto que nem um acontecimento bom ou mau qual­quer que seja te toca a ti nem te há-de mover um ponto, pois podes usar dele bem e convertê-lo em teu proveito sem que ninguém to possa impedir. Aconse­lha-te com Deus com muita confiança; e do que te aconselhar tem memória e lembra-te que, se não segui­res seu conselho, que desprezarás a autoridade de tão grande conselheiro. Quando finalmente fores ao Orá­culo, seja como Sócrates ia, que era tratar só das coisas de que com nenhuma razão nem arte se pode dar nelas, por totalmente se não saber quais são, senão pelo sucesso que depois se vê. Para socorrer ao amigo que está em necessidade ou à Pátria, não há para que con­sultar o que adivinha se nos poremos a perigo por isso. E, quando disser que os sinais nos sacrifícios que fez não são propícios, sabido está que, quando muito, podem ameaçar morte ou perda de algum mem­bro ou desterro; mas, por outra parte, também a razão diz que pelo amigo e pela Pátria vos haveis de pôr a perigo. E senão, olha o que fez o grande Oráculo de Apoio que mandou deitar do templo a um que, vendo matar um seu amigo, não o socorreu como estava obrigado.

Põe-te a ti mesmo alguma regra e lei que guar­des contigo mesmo e com todos aqueles com que tratas.

Pela maior parte, cala sempre e diz só as coisas necessárias e essas com poucas palavras. Poucas vezes, ainda que se ofereça ocasião, saiamos a falar e, quando o fizermos, não seja de qualquer coisa, nem tratemos dos esgrímidores, nem do que aconteceu nos jogos, nem de comer ou beber, que são tudo coisas muito ordinárias. E, mais que tudo, nos guardemos de quando se fala de algumas pessoas, que nem as louve­mos muito, nem comparemos com outras.

Quando boamente puderes com os que tens fa­miliaridade encaminhar a prática a que se trate do que convém, procura-o e, se estiveres com gente com que não tens conversação, cala-te.

O riso não seja muito, nem de qualquer coisa, nem de maneira que te descomponhas.

O jurar escusarás de todo ponto, podendo ser, ou, ao menos, quanto puderes.

Foge os banquetes de gente vulgar e fora da tua conversação. Mas se alguma hora for necessário, tem muita conta em que não te derrames, acomodando-te aos costumes vulgares. Porque, quando o companheiro não andar limpo, sabe que o que muito se ajunta com ele, por mais limpo que esteja, por força se há-de sujar.

Das coisas que servem ao corpo não se há-de to­mar mais de quanto convenha para o ânimo, como de comer, beber, vestido, casa e serviço; o que não serve senão de vaidade ou de delícias, deita-o de ti.

Quando te disserem que alguém diz mal de ti, não te desculpes, mas responde: — «Não sabe ele todas as minhas faltas, pois não diz mais que essas ».

Quando fores falar com algum senhor, cuida pri­meiro que não o acharás em casa, ou que estará reti­rado, ou que te darão com as portas no rosto, ou que não fará caso de ti. E se, com tudo isto, te convém ir, sofre o que suceder e não digas: — «Não cuideí que me sucedesse isto», porque é de homem vulgar queixar-se das coisas que estão fora dele.

Nas familiares conversações guarda-te de contar tuas façanhas e os perigos que passaste, ponderando aquilo prolixamente, porque não gostam tanto os ou­tros de ouvir os trabalhos que passaste, como tu de os passar pela memória e contar.

Se a imaginação te representar algum deleite, tem mão em ti e não te movas logo a segui-lo; mas cuida bem no que é e toma tempo para deliberar. Depois disto, te hás-de lembrar de dois tempos: dum, em que hás-de gozar daquele deleite; e outro, em que te hás-de arrepender de o haver gozado. E te hás-de repreender e conferir uma coisa com a outra, que, se te refreares, que te alegrarás depois e te louvarás. Mas se, contudo, te determinares de admitir aquele deleite, olha bem que te não vençam os afagos, suavidades e os mimos. E a tudo isto opõe, quanto mais excelente coisa é, de­pois de haver vitória, uma boa consciência.

Quando fizeres alguma coisa que te convém fa­zer, não te pese que te vejam, ainda que o vulgo haja de julgar aquilo por mal; porque, se a coisa é má, não a faças e, se é boa, que te dá dos que repreendem sem razão?

Se quiseres representar nesta vida alguma figura que excede as tuas forças e capacidade, farás duas coisas: isto que não podes, fá-lo-ás mal e indecentemente, e deixarás o que puderas fazer bem e com louvor.

Como, quando andas, vais com tento, não metas algum prego pelo pé ou o desconcertes e torças, assim no discurso da vida tem tento que a razão governa­dora de tuas acções não receba dano ou se descompo­nha. E, se tivéssemos este advertimento no princípio, com mais consideração cometeríamos as coisas.

A medida da riqueza deve de ser para cada um sua pessoa, como a do sapato é o pé. E, se nisto te pões com determinação, não excederás o modo; não o guardando, irás com ímpeto, como quem se despenha de um monte; como, se pretendes mais que andar cal­çado, logo quererás que seja o sapato dourado ou pes­pontado e de púrpura, porque, como se passa o modo que é a necessidade, tudo o outro não tem termo.

É sinal de engenho grosseiro gastar muito tempo nas coisas que pertencem ao corpo, como gastar muito tempo em comer ou beber, ou em muito exercitar-se, ou noutras coisas que, ainda que sejam necessárias, hão-de fazer-se como de passagem e o cuidado todo empregá-lo nas coisas de alma.


[1] Eram ambos filhos de Édipo, lendário rei de Tebas; é a luta entre os dois irmãos que serve de fundo à tragédia Antígona de Sófocles

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO (IV)

Estes cuidados não te dêem nenhuma pena: — «Viverei sem honra, não me terão em conta» — por­que, se a falta de honra é mal, por nenhuma via virás mais depressa a ele que pelos vícios. E teu ofício, por­ventura, que tenhas grandes honras ou que te convi­dem aos banquetes? Não por certo. Onde está logo a desonra e o ser tido em pouco? Quem não sabe que só naquelas coisas que estão em tua mão e por elas em tua mão está ser quão honrado quiseres? Dirás que sim: mas que sendo-o não poderás aprovei­tar aos amigos. Como entendes isto? Que não lhe poderás dar dinheiro nem fazê-los cidadãos romanos? E quem te disse a ti que isto é do que está em nossa mão e não em poder alheio? Como pode um dar a outro o que não tem para si? Dizem eles: —«Ganha-o tu para que nós o tenhamos». Se eu o posso ganhar sem perder a vergonha, a verdade e a grandeza de ânimo, ensinai-me como, e ganhá-lo-ei; mas se vós quereis que perca eu meus bens próprios para vos adquirir os que não são verdadeiramente bens, atentai que sois injustos e temerários. Que quereis antes, dinheiro ou um amigo modesto e sincero? A isto logo me ajudai e não me peçais coisas por donde eu perca aquelas. Está bem isso, dizem eles, mas não aprovei­tas nada à tua Pátria. Em que consiste o aproveitar-lhe? Não farás nela nenhuns edifícios públicos para o bem comum, pórticos, ou banhos. E isto que é? Também não tem pelo sapateiro armas, nem pelo fer­reiro sapatos; e não será pouco que cada um cumpra bem com seu ofício. Não te parece que seria muito proveito para a Pátria se lhe desses um cidadão vir­tuoso e modesto? Sim, por certo, pois assim não serás à tua Pátria inútil. «Que lugar terei, logo dirás, na República?» Digo que o que puderes alcançar sem perder a inteireza e vergonha. E se por esta via não aproveitares à tua Pátria, como lhe poderás aproveitar sem vergonha e sem verdade?

Se preferirem alguém a ti no banquete ou na cor­tesia, ou em lhe pedirem conselho, e se tens estas coisas por boas, dá os parabéns àquele a quem isto acon­teceu; se as tens por más, folga que não caíste nelas. E lembre-te que, como tu não faças aquelas coisas por onde se alcançam as que não estão em nossa mão, que não pode ser que tas dêem. Porque, como há-de valer tanto o que nunca visita, como o que sempre anda visitando? e o que acompanha e o que louva, como o que não louva nem lisonjeia? Injusto serás e desarrazoado, se, sem haver primeiro contribuído aquelas coisas pelas quais estoutras se vendem e gran­jeiam, quiseres que tas dêem de graça. Vejamos por quanto se vendem umas alfaces? Ponhamos, por caso, por um dinheiro. De maneira que o que der o dinheiro levará as alfaces e tu, não dando nada, irás sem elas. Nem por isso hás-de cuidar que és de pior sorte que o que as levou, porque se aquele fica com as alfaces, tu ficas com o dinheiro que não deste. Desta própria maneira passa este outro negócio. Não te chamaram para algum banquete nem tu deste o por que se vende o ser chamado; vende-o o que o dá por adulações, louvores e serviços. Portanto, se estas coisas te pare­cem bem, hás-de dar o preço pelo qual se vendem; não o querendo dar e mais querendo que tas dêem serás tido por injusto e avaro e de pouco saber. Pois como não te fica nada em lugar do banquete? Sim, por certo, não louvaste a ninguém contra tua vontade, nem sofreste a soberba e insolência do senhor da casa quando entravas nela.

A tensão da natureza se pode conhecer naquelas coisas em que todos convimos, e em que entre nós não há diferença. Ponho, por exemplo: se o criado do teu vizinho quebrou um vidro ou coisa semelhante, logo se diz: — «Coisa é isto ordinária». — Adverte logo que quando se quebrar alguma coisa que seja tua, que sejas o mesmo que foste quando se quebrou a que era alheia. E assim, passa daqui às coisas maiores. Morreu o filho do outro ou a mulher, não há quem não diga que àquilo estão sujeitos todos os humanos; mas, se ao mesmo que diz isto, lhe acontece alguma coisa destas logo suspira e diz que é mofino; e houvera de lhe lembrar de ter o mesmo juízo nisto que teve quando ouviu que acontecera a outrem.

Assim como o alvo não se põe para errarem, senão para acertarem, assim também na natureza não há nenhuma coisa que de si seja má ou feita para mal. Se alguém te entregasse a um que acaso passasse pela rua para que te tratasse mal à sua vontade, com razão te indignarias contra ele; pois não te envergo­nhas de entregar tua vontade e entendimento ao pri­meiro que se oferece para que, com uma má palavra que te diz, te perturbes todo e te descomponhas? Por­tanto, quando empreenderes alguma coisa olha bem o que precede e se segue; porque doutra maneira come­çarás com alegria não olhando os inconvenientes que se podem seguir; e depois achando-te com eles ficarás corrido e afrontado.

Queres ser vencedor nos jogos olímpicos? E eu também, em verdade, que é coisa honrosa; mas olha primeiro o que é necessário antes e se segue depois; e assim põe-te a isso, se te parecer bem. Haverás de pôr-te em dieta e comer muitas coisas que te não sabem bem, guardar-te de viandas delicadas a certo tempo, exercitar-te por calma e por frio, não beber senão por medida assim água como vinho, enfim entregar-te nas mãos do mestre da luta como nas de um médico. Depois disto vir ao combate e porventura desconjuntar uma mão ou uma perna, beber muito pó e às vezes darem-te muitas pancadas e depois de tudo ser vencido. E se, consideradas todas estas coisas, todavia te contenta entrar no combate, entra; doutra maneira, entrando sem consideração, farás como os meninos, que ora lutam, ora tangem flautas, outra vez esgrimem, outra lhes parece bem tanger trombeta, outra representar tragédias. Assim tu, ora lutador, ora esgrimidor, depois orador, finalmente filósofo e nenhuma coisa destas de propósito nem com todo o ânimo. Mas, como um macaco, andarás arremedando tudo o que vires, tomando uma coisa e deixando outra, porque nenhuma daquelas coisas empreendeste com consideração, mas temerariamente seguiste a leviandade do apetite. E assim há muitos que vendo algum filósofo e ouvindo dizer: — «Quão bem disse Sócrates! Quem pudera falar como ele!» logo tam­bém querem ser filósofos.

Todos os serviços que devemos a alguém se hão-de regular pela obrigação que lhe temos; como a teu pai: obedecer, ter cuidado dele, ceder-lhe em tudo, se te disser más palavras, e, se te castigar, sofrê-lo. Dirás, porventura: — «É um mau homem». A obri­gação da natureza não é a bom pai, senão a pai. Faz tu o que estás obrigado para com ele e não olhes para o que ele faz, mas atenta para o que hás-de fazer para viver bem e conforme à razão, porque, se tu não qui­seres, ninguém te ofenderá. Só serás ofendido quando cuidares que o és. E desta maneira entenderás a obri­gação que tens ao vizinho, ao teu concidadão, ao sol­dado, ao capitão, tendo conta com o respeito que a cada um se deve.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO (III)

De nenhuma coisa digas que a perdeste, senão que a tornaste a seu dono. Morreu-te o filho? que foi isso senão torná-lo a quem to deu? Tomaram-te a fazenda? também é torná-la a cujo era; o que ma tomou foi um mau homem. Que te vai a ti em que quem ta deu ta peça pelo meio que ele quiser? Enquanto te deixar ter, aproveita-te dela como coisa que não é tua, como faz o caminhante na estalagem.

Se queres aproveitar, deita fora de ti estes pensa­mentos: «Se não olho por minha fazenda, não terei de que viver; se não castigo o moço, far-se-á velhaco». Porque mais vale morrer de fome, livre de temores e moléstias, que muito rico com o ânimo sempre pertur­bado. E menos mal é que seja o moço qual for, que seres tu infeliz.

Começa pelas coisas pequenas. Entornou-se um pouco de azeite; furtaram-te algum vinho; deita logo conta que, por tanto como aquilo, se compra a quieta­ção e o sossego do ânimo, e que de graça não se alcança nenhuma coisa. Quando chamares um moço, cuida que pode ser que te não ouve; e, ainda que venha, que não fará o que queres à tua vontade; e não é razão que ele valha tanto que esteja em sua mão poder-te perturbar quando quiser.

Se quiseres que tua mulher, ou filhos, ou amigos, sejam sempre prósperos ou vivam para sempre, és de pouco saber, pois pretendes que o que não está em tua mão esteja nela e seja teu o que é alheio. Assim, também és ignorante se queres que o moço não erre, porque isso é querer que o vício não seja vício, senão outra coisa. Portanto, se quiseres alcançar sempre o que pretendes, pretende o que podes.

É senhor das coisas àquele que em todas as que quer ou não quer tem poder para alcançá-las, ou para livrar-se delas se quiser. E assim, o que quiser ser livre não queira nem aborreça o que está em mão alheia, porque doutra maneira forçado lhe será servir e sujeitar-se.

Lembra-te que nesta vida assim nos havemos de haver como em um banquete. Se algum prato anda pela mesa para que tomem dele, quando passar diante de ti toma com modéstia o que convier; se passou, não detenhas, e, se ainda não chegou, não estendas muito braço nem o desejo, mas espera até que se ponha diante. Assim procede com os filhos, assim com a mulher, com as riquezas e ofícios, e desta maneira virás a ser digno de ser convidado dos Deuses. Mas se que te oferecerem não tomares e o tiveres em pouco, não semente serás convidado dos Deuses, mas serás companheiro com eles no governo de seu mando.

Lembra-te que nesta vida és um actor de uma comédia, tal qual ao autor dela parecer; se breve, breve; se longa, longa. Se quiser que representes um pobre, faz por representar aquela figura o melhor que puderes e assim se for a de um manco, ou de um prín­cipe, ou de um plebeu, porque o teu ofício é represen­tar bem a figura que te derem; o escolher qual há-de ser é de outrem.

Se o corvo com o seu grasnar te anunciar algum mau agoiro, não faças caso disso nem te alteres; mas diz contigo mesmo: «Este a mim não me prognos­tica nenhuma coisa senão ou ao corpo, ou à fazen­dinha, ou à honrinha, ou aos filhos, ou à mulher; para mim tudo será próspero se eu quiser, porque de qualquer coisa que suceda posso eu tirar proveito se quiser.»

Nunca serás vencido em nada, se nunca entrares em contenda em que a vitória não esteja na tua mão.

Se vires alguém muito honrado ou poderoso, ou por qualquer outra via engrandecido, olha que não te deixes levar daquelas aparências e o tenhas por bem-aventurado; porque, se a importância e essência do sossego se puser no que está em nossa mão, nem a inveja nem a emulação terão lugar em nada, e tu mesmo, antes que ser imperador, cônsul, nem senador, tomarias ser livre e senhor de ti mesmo, para o que há um só ca­minho que é o desprezo de todas as coisas que não estão em nossa mão.

Adverte bem que o que te diz más palavras ou põe em ti as mãos, não é, realmente, o que te ofende, senão a imaginação que tu tens de que aquelas coisas são ofensas. E assim, quando alguém te agravar, sabe que a opinião tua é a que te agrava. Pelo que, procura de não consentir com as coisas que vês de fora, porque, se deres tempo e te detiveres em consentir, facilmente serás senhor de ti.

Traz sempre diante dos olhos a morte, desterros, e tudo o que se tem por trabalhoso, e mais que tudo a morte. E com isto nem terás nenhum pensamento baixo, nem desejarás nada com muita força.

Se desejas de empreender o estudo da Sabedoria, aparelha-te, que logo se hão-de rir de ti, zombar e dizerem: — «Tão depressa se fez este filósofo?; donde lhe veio esta carranca?» — E carranca não a tenhas, mas, naquilo que te parecer que é o melhor, assim está firme, para não te moveres daquele lugar como se um Deus te pusera nele; e tem por certo que, se permane­ceres no mesmo estado, os que primeiro zombavam de ti depois se admirarão; mas se te deixas vencer deles, com dobrado motivo zombarão de ti.

Se alguma vez acontecer que, saindo fora, queiras contentar a alguém, entende que caíste do estado em que estavas. Baste-te em todas as coisas ser sábio; e se desejas também de o parecer, contenta-te de o parecer a ti mesmo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO (II)

Das coisas que há no mundo, umas estão em nossa mão e outras não. Em nossa mão está a opi­nião, a suspeita, o apetite, o aborrecimento, o desejo e, numa palavra, todas as obras que são nossas. Não estão em nossa mão o corpo, a fazenda, nem a honra, nem o senhorio, nem, com efeito, nenhuma das que não são obra nossa.

As coisas que estão em nossa mão — de sua na­tureza são livres e senhoras, sem impedimento, nem embaraço. E as que não estão em nossa mão de si são fracas, servis, embaraçadas e sujeitas.
Olha que, se tiveres por livre o que de sua natu­reza não o for, e por teu o que em efeito não o é, que haverás de embaraçar-te, turvar-te, lamentar-te e quei­xar-te dos Deuses e dos homens. Mas, se só o que é teu tiveres por tal, e por alheio, como o é, o que não é teu, não haverá nunca quem te faça força, nem te im­pedirá ninguém; a ninguém acusarás; de ninguém te queixarás; nenhuma coisa farás contra tua vontade; não terás nenhum inimigo; ninguém te fará mal; nem receberás nenhum dano nem perda.

E, assim, se para negócio tão grave como este te dispões, cuida que não deves começá-lo não estando para isso, nem ainda meãmente aparelhado, senão que é mister deixar algumas coisas de todo e outras suspen­dê-las por agora. Porque, se cuidas alcançar sossego de ânimo e mandar e enriquecer-te juntamente, perde­rás isto por ir atrás do primeiro, e ficarás de todo sem aquilo por cujo meio se alcançam a felicidade e liber­dade perfeitas.

Quando quer que se te represente alguma ima­ginação com veemência, tem por costume de dizer: «Isto é imaginação e não com verdade o que parece». Examina-a bem pelas regras que aqui tens, principal­mente por esta: se é das coisas que estão ou não estão em teu senhorio. E se é das coisas que não estão nele, diz logo que a ti não te pertencem.

Em tudo o que se estima, ou por contentamento ou por proveito, considera bem de que qualidade seja e começa por coisas muito pequenas. Folgas muito com algum vaso; lembra-te que folgas com uma coisa quebradiça, e não te dará pena se se quebrar. Amas a mulher ou o filho, faz de conta que amas a uma coisa mortal e não te lastimarás quando morrer.

Quando quiseres fazer alguma coisa, põe bem diante dos olhos que coisa seja o que empreendes. Queres ir a banhar-te; cuida no que se faz de ordiná­rio nos banhos públicos; os que se molham tiram uns aos outros do lugar, zombam e furtam os vestidos; lembrado disto, começarás a obra sem perigo, com dizer: «O que eu aqui pretendo é lavar-me e conser­var-me no propósito que devo, e o mesmo em qualquer outro negócio». E, assim, se algum embaraço sobre­vier no lavar-te, terás a ponto o dizer: «Eu não somente quis isto, mas ainda manter-me no propósito que devo conforme à natureza, o que não poderei fazer se me inquietar com o que aqui suceder».

Perturbam aos homens não as coisas, senão a opinião que delas têm, como a morte, na qual não há que temer, porque, se o houvera, também Sócrates temera; mas a opinião que da morte se tem a faz espantosa. Portanto, quando formos impedidos de alcançar alguma coisa ou estorvados de nossos apeti­tes, não culpemos ninguém senão a nós mesmos, por­que tudo é fruto das opiniões que temos. Porque é de homem ignorante acusar outrem do trabalho próprio; de quem já começa a aproveitar acusar-se a si mesmo; do já aproveitado nem a si, nem a outrem.

De nenhuma excelência alheia te engrandeças. Se um cavalo, prezando-se de si mesmo, dissesse: — «Sou formoso» —, coisa fora tolerável; mas tu, quando te ensoberbeces, dizendo: — «Tenho um cavalo formoso» — sabe que te honras do teu cavalo ser bom. Pois que é em efeito o que é teu? O uso das coisas que vês, pelo que, quando delas usares como deves e a natureza pede, então te gloria; porque então te poderás louvar com razão de algum bem teu.

Como quando se navega, se a nau toma porto e sais em terra a tomar água, de caminho podes colher conchas e marisco; mas cumpre ter o sentido na nau e estar alerta, olhando não te chame o Mestre a reco­lher e seja necessário deixar tudo, porque não te metam na nau atado como ovelha; assim se, enquanto viveres, em lugar de conchas e mariscos te derem mu­lher e filho, não será isto impedimento, mas, se o que governa a nau te chamar, corre presto à nau e deixa tudo, sem tornar a olhá-lo; e se és velho não te apartes muito do navio porque não canses muito quando te chamarem.

Não queiras que as coisas que sucedem sejam sempre à tua vontade, mas, se queres acertar, quere-as como elas vierem. A doença, impedimento é ao corpo, mas não à tua formação, se tu mesmo o não quiseres; o ser manco, impedimento é dos pés, do teu intento não. E assim, se em tudo o que suceder isto fizeres, esta conta acharás, que as coisas serão impedimento a outras, mas não a ti.

Em qualquer coisa que se oferecer, torna sobre ti e considera as forças que tens para te valer contra aquilo que se te oferece. Se vires um gentil homem, ou uma gentil mulher, para isto acharás a virtude da continência; se algum trabalho te vier, acharás o su­portá-lo; se alguma injúria, a paciência; e acostu­mando-te desta maneira não te levarão as coisas que vires após si.

domingo, 17 de agosto de 2008

Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)


ARRIANO, MANUAL DE EPICTETO

Epicteto nasceu em Hierópolis, na Ásia Menor, por volta do ano 50, e foi para Roma como escravo; pertenceu, segundo parece, a Epafrodito, liberto de Nero, e supõe-se que não terão grande fundamento as anedotas que nos mostram Epicteto sofrendo as brutalidades do dono; foi ainda du­rante os seus tempos de servidão que Epicteto ouviu as lições de Musónio Rufo, filósofo estóico, que o impressionaram fortemente; a liberdade que as leis e os costumes lhe negavam, encontrava-a ele na doutrina do seu mestre; quando Epafrodito o libertou, resolveu dedicar toda a sua vida à filosofia, o que significava a adopção de uma norma de existência bastante severa ; a filo­sofia era, no tempo de Epicteto, o que a vida dos monges foi para os séculos que se lhe seguiram: quem ia ser filósofo abandonava os prazeres e as preo­cupações do mundo, aceitava a pobreza como uma boa companheira, compra­zia-se na austeridade e no domínio de si próprio; tinha, pelo menos, de se possuir um carácter corajoso e forte, porque havia à volta dos filósofos um certo ambiente de hostilidade e zombaria; ao mau acolhimento da maior parte da população vinha juntar-se a desconfiança dos governantes: o regime impe­rial considerava como inimigos os homens que defendiam a liberdade de pen­sar e de exprimir o pensamento, que tinham reduzida veneração pelos pode­rosos do dia e criavam ou firmavam nos melhores uma corrente de oposição moral ao procedimento dos imperadores; o conflito teve o seu desfecho no tempo de Domiciano: os filósofos foram expulsos de Roma (94) e Epicteto estabeleceu-se em Nicópolis, pequena cidade do Epiro; ai viveu ainda mais pobremente do que em Roma, mas sempre cercado de numerosos discípulos que a sua sinceridade, a sua força de convicção, a sua eloquência directa, rude e simples, prendiam com laços duradouros; morreu já no principado de Adriano, por volta de 125.
O filósofo nada escreveu; foi um dos seus discípulos, o futuro histo­riador Arriano, quem reuniu todas as notas que tomara das lições de Epi­cteto e compôs com elas os Discursos ou Conversações que compreendiam oito livros, de que só nos chegaram quatro; desprezando toda a glória de autor, Arriano procurou reproduzir com a máxima fidelidade as palavras do mestre; para as divulgar ainda mais e fornecer aos simpatizantes com a dou­trina a série de normas essenciais para que construíssem a sua vida, compilou no Manual, extraindo-os dos discursos, alguns preceitos de carácter prático. O Manual não é um livro para filósofos já formados, mas para aqueles que vão ainda em caminho de progresso; resolverá a cada um os casos difíceis que o mundo lhe apresentar e mantê-lo-á na sua decisão de levar uma vida racional; de acordo com os grandes mestres do estoicismo, ensina-nos que só o acordo com a razão, essência do mundo, é digno do homem; que tudo quanto segue esta lei racional da natureza é bom, tudo quanto a contraria vicioso; que o filósofo que vive de harmonia com esta afirmação está isento de mal, visto que nem o pratica, nem o pode receber; efectivamente, para que o prejudicassem, seria preciso que o tornassem vicioso, o que é impossí­vel; por outro lado, para quem adoptou o estoicismo, tudo se vai tornando indiferente: as coisas exteriores a nós não são boas nem más em si mesmas; o juízo que delas fazemos, a atitude com que as recebemos as tornam boas ou más; é a si próprio, portanto, que o homem tem de modificar, dominando tudo o que não deixa seguir a razão universal; mais fortemente do que os seus antecessores, insiste Epicteto sobre a ideia da suprema liberdade que o sábio atinge pela sua meditação dos grandes princípios; é também mais duro e, por vezes, bastante mais incompreensivo, na apreciação de tudo o que faz, para o geral dos homens, o encanto de existir; a força de Epicteto não salva, talvez, a estreiteza da sua humanidade; exerceu, no entanto, uma grande in­fluência, não só entre os pagãos, como, por exemplo, em Marco Aurélio, mas também entre os cristãos: era um dos autores que Pascal meditava mais pro­fundamente; o estilo, que nada sacrifica ao adorno e que reflecte a personali­dade bem definida, tenaz e convicta de Epicteto, contribui para gravar os seus preceitos no espírito do leitor.

No presente caderno publica-se quase todo o Manual; a tradução é, com breves modificações, a que fez, no século XVI, o bispo de Viseu, D. Fr. António de Sousa.