Para o Casimiro Ceivães

Cabeça, Guilherme de Santa-Rita, 1910
De O MEDO DE SATAN PELA NOITE
II
Desce a Noite pelos montes.
Escuto. Sinto-lhe os passos.
Vai beber Saudade às fontes
E anda co’a Morte nos braços.
As minhas mãos arrefecem,
E se as ponho sobre os lírios,
Meus dedos tornam-se círios
Como se os lírios morressem.
E quando num jardim passo,
Brinco co’as rosas e corro
Atrás das sombras que faço.
Sou no Silêncio um recorte.
E por saber que não morro
Eu tenho medo da Morte.
Pedro de Menezes
De VIA SACRA
III
TERCEIRA ESTAÇÃO
Sonham comigo tuas mãos esguias,
As tuas mãos esguias no regaço…
Minhas saudades são as pedrarias
Estrelas dos teus dedos no espaço.
Sonham comigo tuas mãos esguias
Num gesto de abandono e de cansaço,
E o mesmo gesto unge as horas frias
Que a Distância vem pôr no teu regaço.
Teus dedos longos são as naus partidas
Por noites sem luar e sem estrelas
A paragens remotas, esquecidas.
E tua alma fica sempre em vão
Olhando dos teus olhos nas janelas
O mar sem naus e apenas solidão.
Côrtes-Rodrigues
In revista Exílio, nº 1 (e único), Abril de 1916.