A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Passam hoje 126 anos...



13 de Setembro de 1885, nasce, em Carregal da Tabosa, Sernancelhe, o escritor português Aquilino Ribeiro. Entre a sua vasta produção textual, destacamos: Terras do Demo (1919), O Romance da Raposa (1959) e A Casa Grande de Ramarigães (1957).

Fonte: O Leme

domingo, 31 de agosto de 2008

Sobre Aquilino Ribeiro


Opiniões Críticas



“Aquilino Ribeiro é um beirão da alta Beira Alta, das comarcas do Paiva – Terras do Demo (como diz um dos seus títulos de livro) – tributárias de uma região mais vasta e historicamente mais profunda – a terra lamecense, fronteira de Trás-os-Montes e das Beiras, do Portugal ameno e fácil dos vales atlânticos e do Portugal Montesinho e duro dos contrafortes continentais.

A obra de Aquilino exprime vigorosamente a condição humana nessas zonas alpestres em que nada é fácil. As aldeias endurecem-se nos seus alicerces seculares, acumulando a experiência do Inverno da neve e do lobo, e do Verão da trovoada e da canícula. O instinto, raiz da vida, dita uma conduta empírica, primária, em que os sentimentos afloram com violência e frescura. (…)

É uma concepção épica da terra e do homem que leva Aquilino à dimensão épica do livro e ao surto épico do estilo. A sua arte de narrar situa-se entre o Decameron e a novela picaresca. Do conto e do romance realistas aproveitará apenas lineamentos, virtuosidades de composição e de estilo. A peripécia envolvente e atmosférica do romance psicológico não é a peripécia de Aquilino, muito mais próximo parente do Flaubert de Salambô, de Eça de Queirós da Relíquia ou do Anatole France de Thaís do que dos romances ingleses.

A sua galeria de tipos, o retomado e sempre novo painel que nos dá da Serra da Estrela e dos vales beirões, a força e fecundidade da sua prosa castiça, que fala portuguesmente de tudo o que é português, impõem-no como um dos nossos maiores escritores e dos mais bem situados nas nossas estantes clássicas, de Gil Vicente e Fernão Lopes a Vieira e Camilo. (1)

“O autor de “Jardim das Tormentas”, de “Terras do Demo”, de “O Derradeiro Fauno”, de “O Malhadinhas”, de “Aventura Maravilhosa”, de “A Via Sinuosa”, de “Quando ao Gavião cai a Pena”, de “Cinco Réis de Gente”, de “S. Banaboião”, do prefácio e da tradução audaciosa de “A Retirada dos Dez Mil”, o animador admirável da “Raposa Salta-Pocinhas” (essa grande personagem da breve galeria da ficção portuguesa que animou de malícia e de incorrigível liberdade a infância de gerações inteiras) não necessita em verdade de homenagens: nunca foi um autor menor que convém engrandecer, nem é um autor que se sobreviva e convenha, pois, dar por vivo ao público desprevenido. O público conhece-o bem, e estima-lhe com justiça as limitações e as qualidades, porque das suas páginas irrompe uma lição de amor pela vida – aquela lição impede “O Malhadinhas” de ser lido sem os olhos rasos da comovida água da aceitação humana. A irreverência salutar do seu estilo e da sua maneira de narrar, o esplendor da presença cósmica do mundo físico nas suas páginas, a articulação encantatória das suas frases e de certas descrições que revelam da pura poesia, tudo isso faz de Aquilino Ribeiro uma simbólica figura de encruzilhada cultural, onde se encontram o primitivismo ruralista, o amor gratuito da erudição livresca, uma certa fascinação cosmopolita, o jogo mais da fantasia que da imaginação, uma liberdade de composição que desconcerta os críticos formalistas, uma subtileza psicológica mais confiada à alusão estilística que à introspecção discursiva, um cepticismo sonhador, um sentimentalismo recatado de homem das serranias, enfim, aquelas características que, de uma maneira ou de outra, e com as mais diversas limitações, propiciaram as obras que há primas da literatura portuguesa.” (2)

.

“Era uma vez um beirão que veio para as Letras com uns sentidos limpos, de pilha-ninhos e caçador das brenhas. Veio na altura em que todas as tábuas de valores ideológicos e sociais se desfaziam mais do que se refaziam, de modo que o seu estilo admirável contraiu o jeito de esfumar-se e enfadar-se quando se trata de fazer pensar o próximo. A tese da sua obra é sempre a mesma, e simples: a exaltação do belo animal humano, uno e duplo, homem e mulher, como uma concha bivalve. O estilo dir-se-ia assentar na miúda reticulação das fibras que conjuga um mundo recôndito de coisas vindas das retinas, dos tímpanos, das papilas sensitivas à flor da pele e das mucosas, coisas que não costumam subir, do nível bulbar ou cerebeloso, ao nível da consciência cerebral falante. (…)

Levantam-se muitas objecções ao estilo de Aquilino Ribeiro. Primeiro, que só se pode ler compreensivelmente com o dicionário ao lado. Há, é verdade, nele, a fuga ao termo e ao giro frásico já muito impressos; mas a sinédoque, a perífrase, as estranhezas escusadas só ressaltam como tais dos livros e páginas em que o assunto não prende muito o autor. Com Aquilino at his best a fraseologia e o vocabulário são correntios, falados e quase sempre populares, e, mesmo quando ainda não ouvidos, medimos-lhe bem o alcance se não estivermos divorciados do povo rural.” (3)



(1) NEMÉSIO, Vitorino, Portugal, a Terra e o Homem., Fundação Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 1978, pp. 211 a 213

(2) SENA, Jorge de, Estudos de Literatura Portuguesa – «Em louvor de um Grande Escritor» Edições 70, 1982, p. 198

(3) LOPES, Óscar, Modo de Ler – Crítica e Interpretação Literária, Editorial Inova, Porto, 1972, pp. 317 e 320/21

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

REVISITAR AQUILINO


«Uma vez, um homem traçou do bordão e partiu a correr as sete partidas do mundo; andou, andou até que foi dar a comarca cujos naturais comiam calhaus e ladravam como cães». É assim que Aquilino Ribeiro apresenta a região onde nasceu, a seu dilecto amigo Malheiro Dias, no prefácio do livro a que deu o nome de «Terras do Demo».

Aquilino Ribeiro nasceu em 1885, em Carregal da Tabosa, concelho de Sernancelhe, indo viver com seus pais, ainda menino, para Soutosa, Moimenta da Beira. Aí faz o seu exame de instrução primária, seguindo depois para Lamego e mais tarde para Viseu, de onde transita para o Seminário de Beja a frequentar o curso teológico. Mas em breve regressa a Soutosa, expulso por ter reagido mal aos critérios disciplinares vigentes nesse estabelecimento. Decide então ir para Lisboa, onde viveu uma longa fase agitada, com todo o ambiente revolucionário do estertor da Monarquia e a instabilidade que se lhe seguiu durante a I República. Foi um opositor incondicional da ditadura iniciada em 1926 e, antes e depois desta, conheceu por mais de uma vez a prisão e o exílio.

Em Paris conviveu com grandes mestres da Filosofia e Sociologia quando frequentava a Sorbonne, onde conheceu aquela que viria a ser a sua primeira mulher. Sendo esta alemã de nacionalidade, reside na Alemanha algum tempo, casa e vai morar em Paris, donde regressa a Portugal com a eclosão da primeira Grande Guerra. Trabalha como professor no Liceu Camões e mais tarde, a convite de Raul Proença, como bibliotecário na Biblioteca Municipal de Lisboa. Aqui se forma o grupo de intelectuais que está na origem da “Seara Nova”.

Da sua obra constam cerca de sessenta títulos, desde romances, novelas e contos, a numerosos volumes de crónicas, estudos, traduções e histórias para crianças que foi escrevendo ao longo dos anos, mais afincadamente nas últimas décadas da sua vida. Faleceu em 1963, cinquenta anos após a publicação do seu primeiro trabalho, o livro de contos “O Jardim das Tormentas”.

Aquilino Ribeiro foi um observador das realidades da natureza humana, dos contrastes da sociedade, o narrador irreverente do viver das gentes mais rudes com quem conviveu e de quem fez um retrato preciso, opondo a rudeza do gesto à pureza de sentimentos, aplicando imagens, comparações, provérbios, numa inexcedível riqueza de palavras que o colocaram para sempre entre os mais talentosos obreiros a nossa língua.

Revisitar páginas de Aquilino «é picar na nascente, renovar o veio da língua viciado por outras línguas, corrompido pela gíria das cidades»:

«...Escurentava agora o luar a pontos de a neve parecer ao largo cinza e mais cinza que caía. Mas, diante dos olhos, os flocos faiscavam e batiam-nos nas ventas rijos como areia.
O lobo, quando chegámos ao cabeço distante uma centena de passos do sítio em que nos aparecera, calou a serenata. E rompemos adiante, como se não déssemos conta de sentinela tão mal intencionada. Ele mudo e quedo como um penedo.
- Hum – maluquei com os meus botões – estás à espera dos colegas...
E, se bem o pensei, melhor assucedeu. Obra de cinco minutos adiante, saem-nos quatro lobos pela ilharga, mas que velhacos! Muito mansarrões, passo descosido, focinho por terra, como pessoas não-te-rales que vão ao seu destino. Quatro feras de vulto para espotejar um vitelo meio touro e ficar com fome.
(...) Quando anoiteceu de todo, os maganos, sempre leva-que-leva à nossa mão, chegaram-se mais para perto. Todo o meu zelo era não os perder de vista que já se me afigurava tolherem-se não sei por que resto de cobardia de nos saltar. O frade vinha atrás de mim a bater os queixais de medo e, acreditem Vossorias se quiserem, tão forte batiam que os engenhos que se armam nos milhos contra os gaios não fariam maior estreloiçada.
- Passe para a minha banda – disse-lhe eu, que já me parecera ver um dos moinantes, o mais alentado, esticar os jarretes, com mentes de pular à garupa do burrico.
O frade lá se ajeitou à esquerda, tão cosido contra mim que cheguei a supor que animal e frade queriam montar no machito. Ouvi-lhe gemer:
- É hoje o nosso último dia!
- Vossa Paternidade não traz nada... navalha, ferro, pau que seja?
- Nada.
- Mas que é isso que há um bocado vinha a tilintar nos alforges?
- É um turíbulo; é o turíbulo da igreja das Arnas, que trago para consertar.
- Dê-mo cá...
- Hem?
- Dê-mo cá... Depressa, homem!
O frade passou-me o turíbulo para as mãos, atravessei a faca nos dentes, e aí me pus a tocar ferrinhos, a bimbalhar, a fazer uma matinada que nem cambalheiras arrastadas por um cavalo! E, querem Vossorias saber, os lobos meteram o rabo entre as pernas e desarvoraram. Certo, assim Deus me salve!
Ouvimo-los ainda uivar para a cernelha do morro, mas não lhes tornámos a pôr a vista em cima, nem as bestas deram sinal de que nos fossem a acompanhar. O frade erguia graças a Deus e berrava:
- Milagre! Milagre!
»


RIBEIRO, Aquilino. O Malhadinhas. Livraria Bertrand, 1ª edição, Lisboa, 1958, p. 140 a 143