terça-feira, 9 de junho de 2020

De Paulo Ferreira da Cunha, para a NOVA ÁGUIA 26...


Em tempos de pandemia, mudam palavras e coisas[1]. Como é sabido, a ligação entre a Palavra, a reta e adequada palavra, e o bom governo foi, desde logo, estabelecida por Confúcio. Perguntado qual a primeira coisa que faria se lhe fosse confiado o Governo, declarou que primeiro curaria de “retificar a linguagem”[2]. Grande sabedoria há nessas palavras e nesse projeto, hoje ingentíssimo, porquanto a linguagem se abastarda, e mesmo os meios de comunicação social, que a poderia tentar endireitar, promovendo na sociedade uma sã imitação[3], resvalam frequentemente para o esquecimento das regras e a adoção de modismos de mau gosto e um laxismo despreocupado com a sacralidade da Palavra. Os malefícios de palavras inadequadas, mal pensadas, impróprias, vão corroendo as mentes...


(excerto)




[1] Alusão, evidentemente ao clássico de FOUCAULT, Michel — Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1966.
[2] CONFÚCIO — Lun-yu, ou Analectos, XIII, 3. Cf., v.g., CONFUCIUS — Entretiens de..., trad. do chinês de Anne Cheng, Seuil, 1981, p. 102 Comentários, v.g. in LEYS, Simon (dossier coordenado por Minh Tran Huy) — De -551 à Aujourd'hui. Confucius les voies de la sagesse, in "Le Magazine Littéraire", novembro de 2009, n.° 491, p. 66. CHENG, Anne — Histoire de la Pensée Chinoise, Paris, Seuil, 1997, pp. 82 ss..
[3] DE TARDE, Gabriel   Les Lois de l'imitation, Paris, 1895, trad. port., As Leis da Imitação, Porto, Rés, s/d..