segunda-feira, 1 de junho de 2020

De Miguel Real, para a NOVA ÁGUIA 26...



O coronavírus, e o medo dele, que hoje esvazia as ruas, criando o terror à nossa volta, não é superior à esperança que sempre acalentou o homem e se cada um em sua casa, hoje, cria uma nova rotina forçada, os artistas, os escritores, os pintores, os músicos, homens como os outros, animados por emoções insólitas ligadas ao mal e ao medo, encontrar-se-ão já imbuídos desse húmus caótico do qual nascerão doravante grandes obras de arte. Como dizia Hegel, “a ave de Minerva levanta-se ao entardecer”, isto é, é possível que após a passagem desta pandemia se vejam os resultados culturais e, quem sabe, uma nova visão do homem que há muito está a ser preparada, um homem mais amigo da natureza e do Outro.
Eduardo Lourenço, quando jovem, na sua estada em Paris, escreveu um texto (que não consigo identificar agora) em que falava da personagem de um romance (salvo erro de Somerset Maugham) que, nos últimos dias de vida, se levanta da cama, vai ao quintal e planta uma bolota de carvalho. É a realização concreta do princípio da esperança: ele nunca verá o carvalho elevar-se sobre a paisagem, mas foi o seu contributo para que a vida continuasse. Que cada um de nós, hoje, neste tempo suspenso, perante um futuro vazio, plante a sua bolota – uns escrevendo, outros pintando, outros compondo música, outros fazendo teatro, cinema, animação, jornalismo, outros trabalhando nas suas profissões. Aqui à minha frente, vejo da janela a senhora da câmara, solitária, fardada de verde, a recolher o pouco lixo das ruas de Colares e na casa ao lado, do Exército de Salvação, um rapaz ou uma rapariga ensaia tocando tuba (pelo som que ouço à distância parece uma tuba). É a bolota deles.

(excerto)