domingo, 7 de agosto de 2016

Evocação de João Paulo Monteiro, para a NOVA ÁGUIA 18...


Nos seus estudos sobre David Hume, ocupou-se principalmente dos problemas da indução e da causação, entendendo a indução do ponto de vista das inferências causais, do raciocínio lógico causal, e não tanto das relações observáveis entre os objetos e suas qualidades; aliás, prova disso mesmo é, segundo Hume, a nossa capacidade de antecipar relações causais antes mesmo da observação dos fenómenos. Na mesma esteira, concebe o hábito como uma construção teórica que não se manifesta sempre que um fenómeno é observado, isto é, a observação dos fenómenos não é confrontada sempre com outros fenómenos já observados, pois que o hábito é, como princípio, inato, e possibilita uma construção teórica sobre possíveis causas ainda não observadas, não sendo por isso um princípio puramente empírico. Para João Paulo Monteiro, o conhecimento em David Hume refere-se aos fenómenos observáveis; no entanto, as causas e os efeitos observados só o são assim considerados porque há um mecanismo ou princípio da natureza humana que identifica uma regularidade nos fenómenos que os próprios fenómenos não dão à observação. É a clássica questão dos “poderes ocultos” que agem no mundo dos fenómenos entre aquilo que consideramos ser a causa e o efeito – veja-se a questão da gravidade em Newton e David Hume. Tal pressuposto coloca o nosso autor ao lado daqueles que consideram David Hume um realista em termos ontológicos, embora cético moderado em termos gnosiológicos, não obstante e ao contrário de outras leituras, a tarefa a que o filósofo escocês se determinou empreender, isto é, compreender a natureza humana numa tentativa de introdução do método experimental em assuntos morais, conduziu-o claramente à identificação dos princípios que dirigem as operações da mente com aqueles princípios que podemos observar na relação dos fenómenos no mundo exterior à mente.
João Paulo Monteiro faleceu no dia dezassete de abril deste ano de dois mil e dezasseis. A sua obra e o seu legado certamente perdurarão nos estudos humianos de língua portuguesa (excerto).
Luís Lóia