quinta-feira, 11 de agosto de 2016

De Delfim Santos, para a NOVA ÁGUIA 18...


Esta reflexão autobiográfica de Delfim Santos, com incidência nos fatos mais marcantes da vida académica do autor, está inédita na sua quase totalidade, excetuando um trecho final incorporado na última edição das Obras completas.

Foi composta em dois capítulos, por ocasião de três marcos institucionais: o doutoramento, com um aditamento aposto na entrada como docente na Faculdade de Letras de Lisboa, e o concurso para professor catedrático.

Do primeiro capítulo existem dois datiloscritos, tendo um deles anotações marginais a lápis não retidas no seguinte, que é cópia daquele com algumas correções estilísticas menores. Foram incorporadas as anotações do original e aceites algumas correções da cópia.

O segundo capítulo existe em versão manuscrita, com a particularidade de Delfim Santos hesitar aqui entre a terceira e a primeira pessoas autorais. Apesar de referir que «uma autobiografia intelectual não é exigente de confissão», apresenta uma reflexão mais amadurecida, menos factual e mais poética sobre a sua existência passada. Notável é o símile entre o ourives, ofício a que seu pai o destinava, que com a sua arte logra transformar o metal precioso em algo ainda mais belo, e o pedagogo em que o seu destino se manifestou, que o mesmo faz às almas dos educandos.

Esta autobiografia foi completada por meditações anuais, escritas em diversas passagens de ano desde os inícios dos anos 40 até 1953 e a publicar posteriormente: de teor mais introspetivo, constituem páginas de um anuário íntimo, permeadas pela angústia e pelo desespero próprios deste registo. Neste mesmo tom existencial subsistem ainda as suas poucas páginas de poesia, por vezes de caráter religioso, em que a expressão do sentimento se sobrepõe ao estro.

No conjunto, os escritos autobiográficos de Delfim Santos, compostos pela presente autobiografia, pelo anuário íntimo, pelas poesias e por certas páginas da sua correspondência com os amigos mais íntimos ou com alguns familiares, documentam o impulso confessional e o desejo de autognose cultivados pela sua geração, que depurou a retórica do discurso tradicional do sujeito com as suas novas exigências de sinceridade e genuinidade, impostas à geração que viveu as duas Guerras pelo sentimento da preciosa fragilidade do Eu.

Filipe Delfim Santos