É esse Torga que lembro na hora crepuscular do adeus. Um Torga que o
leitor talvez tenha dificuldade em reconhecer no Diário. O diário nem
sempre é o espelho mais fiel do autor, que, em geral, não regista os momentos
felizes porque esses não têm história. De sorte que só abre o caderno para lhe
confiar o que é negativo — as horas e os dias de abandono, solidão e incompreensão. Que é a literatura
— e mais do que todas a literatura intimista — senão a tentativa de preencher o
vazio da vida e
de sublimar carências afectivas, morais, intelectuais?
Cartas sem Resposta (excerto)
