Lembro-me dos primeiros versos que pude ler no caderno de Dora, falando em voz alta, a seu pedido. Ficou-me na memória o primeiro poema, os primeiros versos (o livro ainda não estava pronto, eram as primícias que me oferecia, privilégio de encontro com a vida criadora transbordante que neles repercutia): “Poema pássaro predileto” (...).
Contraponto do espantoso Appassionata, o vôo do pássaro, sua aproximação, metaforizavam o exercício da disponibilidade ao que nos ultrapassava, a atenção ao chamado do absoluto, que possibilita fazer coincidir eternidade e tempo. É esse o caminho que Dora nos ensinou, com aguda sensibilidade e delicadeza: viver no tempo a fulguração do eterno. Só desse modo vale a pena o viver. Todas as outras inquietações são menores. Só desse modo podemos nos salvar, só desse modo a existência adquire significação. Só desse modo os deuses estão presentes e vida e morte se tornam “um mesmo canto”, como ela disse.
(excerto)
