quinta-feira, 7 de março de 2013

Na NOVA ÁGUIA 11: para o Manuel António Pina, de João Rasteiro

Não me denuncies este inverno
a chuva está viva do lado de fora do fogo,
se for a morte diz-lhe que fui nutrir uma flor
pequenos acréscimos de paixão,
hoje já possuímos uma estrada, um rio.
A cidade ainda não desabrochou este ano,
os teus olhos-d'água são o que me sobra
depois de nutrir uma flor de sal,
agora sob a língua um sabor a mar,
o incólume instante do magnífico afago.
Esta será a nossa oferenda às entranhas
o idioma onde a água coagula,
o que subsiste do murmúrio do sangue
amará o câncer em paisagens desabitadas.
Não me denuncies ainda
para lá da sombria medula que agonia,
pois apesar de tarde
hoje volta a ser o sublime início das chuvas,
ainda não é o fim nem o princípio do mundo,
calma é apenas um pouco tarde.