Isto é o que resta das iniciações erótico-sexuais e dos mistérios hierogâmicos da Antiguidade, ainda vivos no Oriente profundo. Será o Sol do mundo ou a sua sombra espectacular?
Não me preocupo com o que os meus olhos vêem porque disso trato eu. Questiono apenas a relação disto com a sua matriz profunda, no plano relativo da história e das nossas experiências psíquicas colectivas.
lembra lá nas profundezas do abismo temporal a velha atlantida e suas corridas de touros... A dança frenética kamásica, lembra a lua e o desejo cigano... Lembra o longe, o ritmo, boa técnica instrumental e a cor violeta...
«I Flor dos povos! ó tu que inda te embalas, E inda em botão, aos ventos do futuro! Que tens por vasos e jardins e salas Toda a vasta extensão do tempo escuro! E frontes gloriosas a adorná-las, A fronte da história, o grande auguro! Lírio que sais do seio à humanidade Como filha melhor - Fraternidade!
Deixa que escreva aqui teu nome todo, E já daqui aspire teu perfume! E, arredando coas mãos o frio lodo Do presente, me aqueça a esse teu lume!
Deixa beijar-te em sonho, e deste modo Trazer-te unida ao seio, que consume Esta ânsia ardente de destino novo, E este fogo roubado ao seio do povo!
Porque te vemos só quando sonhamos... E, irmã! só nos sorris em nosso sono... E, a dormir, doce amiga, te beijamos! Tu - só em nossas almas - tens teu trono Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos, E, como um cão fiel segue o seu dono, Trazemos ante o olhar tua lembrança, E caminhamos cheios de confiança!
Fraternidade! esta palavra é suave, Como antegosto de melhor destino! Como a onda de um Ganges que nos lave! E como a posse de um penhor divino! Como o voo sereno de uma ave Que, sendo apenas ponto pequenino, Entanto, faz, transpondo ao longe um monte, Sonhar, com melhor céu e outro horizonte!
O grande céu! o céu da humanidade! Onde os povos serão constelações, E, destilando a luz da liberdade, Serão astros e estrelas as nações! Onde há-de o grande laço da igualdade Reunir a vontade e os corações! Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céus, Terão todos também o mesmo Deus.
Não vejo outro Evangelho de oiro escrito Dentro no homem, - nem sei que outro areal, Outro cabo, outro monte de granito, Do grande navegar surja afinal! Guiados pelo instinto do infinito É para lá que os povos - nau real! - Hão-de a proa virar lá quando um dia Marearem pela bússola harmonia!
II Hão-de então, como irmãos, reconhecer-se Os amigos - há tanto tempo ausentes! Hão então (caso novo e estranho!) ver-se Face a face as nações, sem que dementes As entranhas se rasguem! e há-de ler-se Um protocolo, em letras de oiro, ingentes, Escrito, sem emenda e sem errata, Por mãos do amor - o grande diplomata,
III Ele é quem concilia as diferenças, Quem nos concílios há-de erguer a voz, Tirando nova ideia e novas crenças Das esfriadas cinzas dos avós! E, sem trabalhos, e sem dores imensas, E sem rios de sangue e pranto após, Rasgando o ventre à velha liberdade Sairá à luz a jovem igualdade!
É doce ver assim, à luz da esperança, Pelo futuro dentro, as coisas belas... Prever do céu humano essa mudança, Que em sóis converte as mínimas estrelas! Do passado infeliz eis a vingança! E dos mortos as faces amarelas, Corando de ventura e de alegria, Hão-de surgir, enfim, à luz do dia!
IV E nós também, também comungaremos Na grande comunhão das novas gentes: Também os nossos braços ergueremos - Braços livres de jovens impacientes - E o cinto deste Velho quebraremos, De aonde a espada e o ceptro estão pendentes, (Já tão gastos!) lançando-os à ribeira... Para o coroar de palmas e oliveira!
Espanha - irmã! que boda alegre a nossa! Como hão-de então teus seios palpitar! Que ribeira de lágrimas tão grossa Teu branco véu de noiva há-de estancar! Como há-de parecer pequena poça Para os banhos, então, o grande mar! E entornar-nos volúpia nos desejos O misto de ódio antigo e novos beijos!
Mas tu 'stás presa!... e nós.. 'stamos dementes! Separa-nos o abismo! e os teus algozes... A cruz de Inácio... e as garras inclementes Dos leões orgulhosos e ferozes... E a estupidez do povo dos valentes, Destes pardais de atroadoras vozes... Entre nós nos cavaram oceanos... Sejam-lhe ponte os corpos dos tiranos!
Porque beijas teus ferros, pobre louca, E cuidas 'star beijando coisa santa? E, tendo em tuas mãos coisa tão pouca, Tão ténue como a capa de uma santa, Pensas avassalar a terra amouca, E te ergues com vaidade e glória tanta? Oh! tu, cuidando os orbes abraçar, Só ruínas abraças - Trono e Altar!
Lembre-te a voz do Cid! a atroadora Voz que se ouvia ao longe nos combatentes! Porque tu estás feita salmeadora No coro das igrejas - porque bates No peito, em vez de erguer dominadora A tua mão em meio de combates. E livre e bela, ó Espanha, olhar os céus, Procurando por lá teu novo Deus!
V Como nos amaremos, doce amiga! Como então amaremos! que noivado O nosso não será!... Não tem a espiga No campo cor melhor, nem mais doirado Esplendor, do que tu, bela inimiga. Hás-de ver a ventura... quando o estrado Do leito nupcial for Liberdade, E for dossel o céu - Fraternidade.» Antero de Quental, 'Raios de Extinta Luz'
Isto é o que resta das iniciações erótico-sexuais e dos mistérios hierogâmicos da Antiguidade, ainda vivos no Oriente profundo. Será o Sol do mundo ou a sua sombra espectacular?
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarSerá sempre o que os seus olhos virem ser.
ResponderEliminarNão me preocupo com o que os meus olhos vêem porque disso trato eu. Questiono apenas a relação disto com a sua matriz profunda, no plano relativo da história e das nossas experiências psíquicas colectivas.
ResponderEliminarlembra lá nas profundezas do abismo temporal a velha atlantida e suas corridas de touros...
ResponderEliminarA dança frenética kamásica, lembra a lua e o desejo cigano...
Lembra o longe, o ritmo, boa técnica instrumental e a cor violeta...
Um possível exemplo da nossa Matriz profunda:
ResponderEliminar«I
Flor dos povos! ó tu que inda te embalas,
E inda em botão, aos ventos do futuro!
Que tens por vasos e jardins e salas
Toda a vasta extensão do tempo escuro!
E frontes gloriosas a adorná-las,
A fronte da história, o grande auguro!
Lírio que sais do seio à humanidade
Como filha melhor - Fraternidade!
Deixa que escreva aqui teu nome todo,
E já daqui aspire teu perfume!
E, arredando coas mãos o frio lodo
Do presente, me aqueça a esse teu lume!
Deixa beijar-te em sonho, e deste modo
Trazer-te unida ao seio, que consume
Esta ânsia ardente de destino novo,
E este fogo roubado ao seio do povo!
Porque te vemos só quando sonhamos...
E, irmã! só nos sorris em nosso sono...
E, a dormir, doce amiga, te beijamos!
Tu - só em nossas almas - tens teu trono
Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos,
E, como um cão fiel segue o seu dono,
Trazemos ante o olhar tua lembrança,
E caminhamos cheios de confiança!
Fraternidade! esta palavra é suave,
Como antegosto de melhor destino!
Como a onda de um Ganges que nos lave!
E como a posse de um penhor divino!
Como o voo sereno de uma ave
Que, sendo apenas ponto pequenino,
Entanto, faz, transpondo ao longe um monte,
Sonhar, com melhor céu e outro horizonte!
O grande céu! o céu da humanidade!
Onde os povos serão constelações,
E, destilando a luz da liberdade,
Serão astros e estrelas as nações!
Onde há-de o grande laço da igualdade
Reunir a vontade e os corações!
Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céus,
Terão todos também o mesmo Deus.
Não vejo outro Evangelho de oiro escrito
Dentro no homem, - nem sei que outro areal,
Outro cabo, outro monte de granito,
Do grande navegar surja afinal!
Guiados pelo instinto do infinito
É para lá que os povos - nau real! -
Hão-de a proa virar lá quando um dia
Marearem pela bússola harmonia!
II
Hão-de então, como irmãos, reconhecer-se
Os amigos - há tanto tempo ausentes!
Hão então (caso novo e estranho!) ver-se
Face a face as nações, sem que dementes
As entranhas se rasguem! e há-de ler-se
Um protocolo, em letras de oiro, ingentes,
Escrito, sem emenda e sem errata,
Por mãos do amor - o grande diplomata,
III
Ele é quem concilia as diferenças,
Quem nos concílios há-de erguer a voz,
Tirando nova ideia e novas crenças
Das esfriadas cinzas dos avós!
E, sem trabalhos, e sem dores imensas,
E sem rios de sangue e pranto após,
Rasgando o ventre à velha liberdade
Sairá à luz a jovem igualdade!
É doce ver assim, à luz da esperança,
Pelo futuro dentro, as coisas belas...
Prever do céu humano essa mudança,
Que em sóis converte as mínimas estrelas!
Do passado infeliz eis a vingança!
E dos mortos as faces amarelas,
Corando de ventura e de alegria,
Hão-de surgir, enfim, à luz do dia!
IV
E nós também, também comungaremos
Na grande comunhão das novas gentes:
Também os nossos braços ergueremos
- Braços livres de jovens impacientes -
E o cinto deste Velho quebraremos,
De aonde a espada e o ceptro estão pendentes,
(Já tão gastos!) lançando-os à ribeira...
Para o coroar de palmas e oliveira!
Espanha - irmã! que boda alegre a nossa!
Como hão-de então teus seios palpitar!
Que ribeira de lágrimas tão grossa
Teu branco véu de noiva há-de estancar!
Como há-de parecer pequena poça
Para os banhos, então, o grande mar!
E entornar-nos volúpia nos desejos
O misto de ódio antigo e novos beijos!
Mas tu 'stás presa!... e nós.. 'stamos dementes!
Separa-nos o abismo! e os teus algozes...
A cruz de Inácio... e as garras inclementes
Dos leões orgulhosos e ferozes...
E a estupidez do povo dos valentes,
Destes pardais de atroadoras vozes...
Entre nós nos cavaram oceanos...
Sejam-lhe ponte os corpos dos tiranos!
Porque beijas teus ferros, pobre louca,
E cuidas 'star beijando coisa santa?
E, tendo em tuas mãos coisa tão pouca,
Tão ténue como a capa de uma santa,
Pensas avassalar a terra amouca,
E te ergues com vaidade e glória tanta?
Oh! tu, cuidando os orbes abraçar,
Só ruínas abraças - Trono e Altar!
Lembre-te a voz do Cid! a atroadora
Voz que se ouvia ao longe nos combatentes!
Porque tu estás feita salmeadora
No coro das igrejas - porque bates
No peito, em vez de erguer dominadora
A tua mão em meio de combates.
E livre e bela, ó Espanha, olhar os céus,
Procurando por lá teu novo Deus!
V
Como nos amaremos, doce amiga!
Como então amaremos! que noivado
O nosso não será!... Não tem a espiga
No campo cor melhor, nem mais doirado
Esplendor, do que tu, bela inimiga.
Hás-de ver a ventura... quando o estrado
Do leito nupcial for Liberdade,
E for dossel o céu - Fraternidade.»
Antero de Quental, 'Raios de Extinta Luz'
Bem, o que eu comentei foi um espectáculo da Britney Spears... Foi isso que apareceu no meu ecrã. Cada um tem o que merece...
ResponderEliminar