sábado, 30 de maio de 2009

Cioran: Música, êxtase e saudade

"S.J.: Em resumo, a música confronta-nos com este paradoxo: a eternidade entrevista no tempo.
C.: É com efeito o absoluto captado no tempo, mas incapaz de aí permanecer, um contacto simultaneamente supremo e fugitivo. Para que permanecesse, seria necessária uma emoção musical ininterrupta. A fragilidade do êxtase místico é idêntica. Nos dois casos o mesmo sentimento de incompletude, acompanhado por uma mágoa dilacerante, por uma nostalgia sem limites.

S.J.: Esta nostalgia é precisamente o fundamento da vossa visão do mundo. Como a definiríeis?
C.: Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”

- Cioran, Entretien avec Sylvie Jaudeau, Entretiens, Paris, Gallimard, 1999, p.230.

5 comentários:

  1. COM DEUS PELA HARMONIA

    (Poema de espírito sufi)

    Quando ouço os violinos ouço Deus
    falando-me aos sentidos, pelos quais
    a mente elevo aos aposentos seus
    no centro dos espaços siderais.

    Nos seus acordes plenos de harmonia,
    sentimentais, românticos, vibrantes,
    subo até Deus, em cuja companhia
    eu passo a residir por uns instantes.

    Falam por mim com Ele os violinos
    na sua linguagem musical,
    apátrida, sem raça, universal.

    Ainda que pareçam desatinos,
    ouvindo os instrumentos a tocar
    com Deus no céu me encontro, par a par!


    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  2. STRADIVÁRIUS

    Sem termos empregar extraordinários,
    em linguagem simples e banal,
    eu tenho em mente o som dos stradivárius
    de inconfundível toque musical.

    Quando componho as minhas poesias
    de tom, de forma e conteúdo exactas,
    é como se escrevesse sinfonias
    ou textos destinados a sonatas.

    Conforme o tema, assim também varia
    o respectivo ritmo, reservando
    para o amor a máxima harmonia.

    De todos os poemas que escrevi
    foi nesses que, compostos para ti,
    me fui de verso em verso superando!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  3. Entre nós também Fidelino de Figueiredo sustentou que só pela música se toca o absoluto...

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  4. A par da "dor" romena e da "Sehnsucht" alemã, a palavra semanticamente mais próxima da portuguesa "saudade" é a latina "desiderium", usada por Marco Túlio Cícero na sua correspondência epistolar.
    JCN

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  5. AQUELE VIOLINO

    Na solidão da noite quando chega
    com pés de seda vagarosamente
    e todo o meu espírito se entrega
    ao seu macio e mórbido ambiente,

    ponho-me a ouvir o som dos violinos
    das grandes sinfonias siderais,
    autênticos, de marca, genuínos,
    regidos por mestros virtuais.

    Entre eles tenho a estranha sensação
    de existir um, à guisa de excepção,
    que toca expressamente para mim.

    Acabo sempre por reconhecer
    qual é a estrela que tocando assim
    me quer na sua música envolver!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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