quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: nos 100 anos de Agustina Bessa-Luís

 

AGUSTINA E O AFORISMO

António Braz Teixeira

 

Cuido não haver sido ainda suficientemente tida em conta a circunstância de a cultura portuguesa do século XX se singularizar pelo peso e significado que, no plano da expressão de ideias, nela representou o recurso à forma aforística, por parte de autores como Pascoaes, José Marinho, Sant’Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Augusto Saraiva, José Bacelar, José Rodrigues Miguéis ou Agustina Bessa-Luís, a maior parte dos quais hauriram a sua mais visível e directa inspiração no que há de oracular na prosa de Junqueiro, Raul Brandão e Leonardo Coimbra ou no Pascoaes de Verbo escuro e de O Bailado.

Do grupo de autores acima referidos, apenas os de Revisão, Reflexões sobre o homem e Aforismos & desaforismos de Aparício acharam diversa inspiração. Enquanto as Anotações à margem da vida quotidiana, se, de algum modo, retomam a esquecida lição setecentista das Reflexões de Matias Aires, a obra do segundo apresenta carácter mais discursivo que, verdadeiramente, aforístico e, a do terceiro, uma dimensão irónica, circunstancial e política própria do jornalismo (em que teve origem) do que da reflexão mais séria e responsável.

Na obra de Agustina, a presença e a natureza do aforismo, ora crítica e paradoxal, ora sentenciosa e sibilina, ora interrogativamente metafísica, tem a sua mais directa afinidade com a do seu visionário vizinho amarantino, de que fez enigmática personagem de O susto.

Com efeito, também em Pascoaes a súbita iluminação que se exprime aforisticamente de forma súbita ou incontida, irrompe ao longo da obra poética, das biografias, dos livros de memórias ou das finais tentativas romanescas, O Empecido e Dois jornalistas.

Procurando explicar a frequente presença da expressão aforística na sua obra romanesca, Agustina escreveu: “o meu pensamento estende-se de uma maneira caótica e para o deter recorro ao aforismo”, a que diz sempre haver dado grande importância, aditando que eles são uma “fuga ao pensamento”, dotada de toda a seriedade, pois constituem “uma lição e não o pretexto para uma pirueta”.

Nesta sua última afirmação, a escritora marca, com inequívoca clareza, o que afasta o verdadeiro aforismo, mesmo quando se exprime sob a forma de paradoxo, do mero exercício literário frívolo e gratuito, como foi aquele que a primeira geração modernista por vezes praticou e de que são brilhante e mundano exemplo obras como a Teoria da indiferença, de António Ferro.

Ao afirmá-lo, Agustina aproxima-se de idênticas posições de Sant’Anna Dionísio e José Marinho quanto à mais séria natureza do aforismo.

O primeiro, cujo pensamento, de feição marcadamente existencial e trágica, é constitutivamente intuitivo, enigmático, interrogativo, fragmentário, “invertebrado”, encontrou no aforismo, na reflexão e no solilóquio o modo mais adequado para se exprimir, notava que aquele tinha sobre o pensamento discursivo a vantagem de formular perguntas em vez de propor soluções, de ser um pensamento que não prossegue nem acaba mas constantemente principia, “corrigindo-se e desmentindo-se sem pudor”.

Por seu tuno, o autor de Teoria do Ser e da Verdade pensava que o aforismo representava, “na exposição das ideias, o máximo de descontinuidade”, o que, no entanto, não significava “ausência de interior discursividade”, implicando, pelo contrário, “uma discursividade realizada em planos diversos de intelecção, uma discursividade da qual o pensamento tem a inequívoca presença mas se realiza com uma face voltada para a luz e outra para a sombra”, para concluir que, com a sua intrínseca discursividade, o aforismo se apresentava mais de acordo com a condição do homem e a sua real realidade do que o pensamento discursivo.

Note-se que, tal como acontece com os autores de Rio de Heraclito e de Aforismos sobre o que mais importa, também em Agustina a obra aforística, não só a reunida no volume intitulado Aforismos, como nos seus múltiplos livros, não deixa de apresentar uma íntima coerência e uma funda e essencial unidade, que lhe conferem um lugar único na produção literária em língua portuguesa da nossa perplexa e contraditória contemporaneidade.