terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Sobre Cruzeiro Seixas, na NOVA ÁGUIA nº 27...

 

CRUZEIRO SEIXAS: O ÚLTIMO SURREALISTA PORTUGUÊS

José Almeida

Foi a Fundação Cupertino de Miranda – instituição que alberga o Centro Português do Surrealismo, em Vila Nova de Famalicão –, que comunicou a morte de Cruzeiro Seixas, falecido a 8 de Novembro de 2020, no Hospital Santa Maria, onde se encontrava internado. Morreu sozinho, como tantos outros portugueses, hoje, vítimas da “ditadura sanitária”, sem que o “país real”, situado para lá dos salões, galerias, revistas, círculos culturais e museológicos o conhecessem em todo o seu génio e grandeza artística.

O homem que tantas vezes deixou transparecer o seu embaraço perante o Portugal actual e que, nos últimos tempos, confessou pensar muitas vezes se valeria ainda a pena viver, finalmente, partiu. Deixou-nos a apenas um mês de comemorar o centenário do seu aniversário, que seria celebrado a 3 de Dezembro. Para trás ficou um vasto legado artístico e poético, integrado no capítulo de ouro da arte portuguesa do século XX, podendo ser apenas igualado, no campo do surrealismo, por António Pedro que, tal como ele, foi simultaneamente pintor, ilustrador, escultor e poeta. Criador multímodo, poliédrico e pluridisciplinar, Cruzeiro Seixas perscrutou à sua maneira a alma portuguesa. Observador activo, personalidade subversiva, foi um agente crítico e mordaz que soube causar o espanto e fazer notícia, mais com o talento e uma distinta elegância do que com o recurso fácil do escândalo. A sua irreverente personalidade deixará, certamente, muitas saudades à cultura nacional.

(excerto)