quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Em destaque, na NOVA ÁGUIA 26: O SÉCULO DOS PRODÍGIOS...


O SÉCULO DOS PRODÍGIOS: A CIÊNCIA NO PORTUGAL DA EXPANSÃO
De Onésimo Teotónio Almeida

José Luís Brandão da Luz

Um título mais consentâneo com as matérias versadas no livro, que o teria tornado certamente menos atrativo, haveria de resultar da mistura de palavras, como viagens marítimas, séculos XV e XVI, emergência do espírito científico, modernidade, experiência ou, até mesmo, escárnio da autoridade e da cultura livresca. A veia ficcionista de Onésimo sobrepôs-se, com sucesso, ao peso de uma certa ortodoxia académica que não deixou de marcar presença no subtítulo da obra. Esta concessão, porém, não tolheu a ampla difusão do livro, que, pese embora o seu carácter especializado, rapidamente conheceu nova reimpressão. As ondas de propagação de O Século dos Prodígios fixaram o olhar de várias academias e sociedades portuguesas, que, por meio de merecidas e relevantes distinções, reconheceram a sua centralidade nos estudos da cultura portuguesa. No decorrer do ano de 2019, a obra foi distinguida com os seguintes galardões: Prémio Gulbenkian "Portugal no Mundo", da Academia Portuguesa de História, a primeira a tomar a iniciativa, Prémio Mariano Gago, da Sociedade Portuguesa de Autores; Prémio D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus; Prémio John Dos Passos, da Secretaria da Educação e Cultura do Governo da Madeira.
O tema geral que, no conjunto, confere unidade à obra centra-se no que Francisco Bacon designou, no início do século XVII, como sendo o arrojo e pioneirismo das navegações portuguesas na «posterior proficiência e desenvolvimento das ciências» (p. 234). Mas, ao contrário de Bacon, que não se deteve a conferir sustentação ao que afirmou, Onésimo Teotónio Almeida adota a tese como também sua e investe, em força, no seu esquadrinhamento. A sua abordagem mobiliza vasta bibliografia, que é alinhada como frentes de um combate, travado em campo aberto, em várias etapas. Num lado, perfilam-se as hostes guarnecidas pelas obras dos autores do Renascimento português, como Duarte Pacheco Pereira, Pedro Nunes, D. João de Castro, Garcia de Orta, Fernando Oliveira e ainda outros, como Camões e Francisco Sanches que refletiram nas suas obras o novo espírito difundido pelos primeiros escritores. Em todas se respira a atmosfera do conflito desencadeado pelo desfasamento entre a mundividência medieval e os conhecimentos que a exploração dos mares, a observação dos céus e o encontro de culturas provocavam. Ainda na linha avançada deste flanco, o autor conta com o apoio de destacadas referências da historiografia portuguesa, que se ocuparam do tema e a quem voltaremos mais à frente. No outro lado da guarnição, perfila-se uma bibliografia de história da ciência, maioritariamente de expressão anglo-americana, a qual, salvo muito raras exceções, mostra total alheamento do contributo que os portugueses trouxeram para modelar uma nova mentalidade científica.
(excerto)