sábado, 5 de setembro de 2015

De Richard Zenith, para a NOVA ÁGUIA 16...


É mais do que curioso que o último poema escrito em nome de Álvaro de Campos tenha sido “Todas as cartas de amor são / Ridículas”, e não foi certamente por acaso que o poema saiu na sua voz, com o seu ritmo e a sua emoção. Supõe-se que as cartas de amor inspiradoras do poema foram aquelas que Fernando Pessoa escreveu a Ofélia Queiroz e sabe-se que Campos, sempre impetuoso e por vezes malicioso, intervinha nessa correspondência, inserindo comentários parentéticos nas cartas de Fernando e chegando a escrever uma carta inteira, em que ofereceu conselhos à namorada. Sugiro, no entanto, que todas aquelas cartas de amor ridículas partiam de Álvaro de Campos. Ou melhor: se não existisse o engenheiro-poeta, Fernando Pessoa não conseguiria ter escrito nenhuma carta a Ofélia Queiroz, nem ter namorado com ela. Proponho que, sem Álvaro de Campos, Pessoa também não poderia ter defendido o direito de António Botto e de Raul Leal à sua homossexualidade. Como talvez não conseguisse ter tido a coragem — a chutzpah — para se opor com veemência, na primeira página do Diário de Lisboa, a um projecto de lei predestinado a ser aprovado pela assembleia-fantoche de António de Oliveira Salazar. Refiro-me à lei contra as associações secretas, aprovada por unanimidade em Abril de 1935.

A minha proposta é simplesmente esta: a poesia, tal como se realizou em Álvaro de Campos, todo ele um grande poema, transformou Fernando Pessoa.
(excerto)