"Comemorar os 20 anos da partida de Agostinho da Silva desta vida é, sem dúvida, homenagear Agostinho da Silva. É lembrá-lo, no melhor sentido do termo. O nosso País tem tido alguns privilégios particularmente notáveis: Agostinho da Silva é, decerto, um dos maiores. Uma Pátria a quem é dado, como seu filho, um ser humano como Agostinho, é uma Pátria protegida por Deus, da qual há muito a esperar, no concerto dos acontecimentos humanos e cósmicos, no concerto daquela realidade pela qual tanto ele se bateu, e a que deu o nome, seguindo António Vieira e Fernando Pessoa, de Quinto Império, ainda que não lhe agradasse o termo Império, penso eu que com razão. Tive muita dificuldade em me sentar à secretária para escrever o meu modesto texto de participação neste número da Nova Águia. As temáticas propostas são, como sabemos, duas: o 25 de Abril; Agostinho da Silva. Toda a vida desejei a libertação da ditadura, dentro da qual nasci; toda a vida desejei a instauração de um Portugal novo - livre, criador e dominado pela cultura e pelo espírito -, como sempre vi figurado na vida e na obra de Agostinho da Silva, desde que me foi dado conhecê-lo. Não sinto hoje nas profundidades
do meu ser autorização para falar positivamente do 25 de Abril, tanto a realidade em que ele se visibilizou defraudou as minhas maiores esperanças e sonhos; desde logo, o compromisso sagrado com a liberdade, a justiça social, a dignidade humana e a fidelidade à família que portugueses política e culturalmente somos na família maior que é a humanidade. Com esse olhar que sempre orientou a minha abjecção da ditadura - que incluía com implacável coerência a abjecção de toda e qualquer ditadura -, persiste em mim a vontade de contribuir com os meus modestos préstimos para a redenção plena do nosso País, da nossa Pátria, permitam que lhe dê o nome de Pátria Lusófona."
(excerto)
