domingo, 10 de março de 2013

De Manuel Gandra, sobre a Quinta da Regaleira (conclusão): para a NOVA ÁGUIA 11

A QUINTA DA REGALEIRA
LEGADO SEBÁSTICO-TEMPLARISTA
de ANTÓNIO AUGUSTO CARVALHO MONTEIRO

Foi o carisma de D. Sebastião, acrescido do desejo de sonegar a nação ao usurpador espanhol, que suscitou o advento dos falsos D. Sebastião.
Se, todavia, nos casos protagonizados pelo rei de Penamacor (1584), por Mateus Álvares, rei da Ericeira (1585), e Gabriel de Espinosa, pasteleiro de Madrigal (1594), impostores instigados por terceiros, tudo culminou na execução sumária e inequívoca dos implicados, já não se poderá rotular com idêntico labéu aquele, surgido espontaneamente e encarnado pelo denominado Cavaleiro da Cruz (1598), cujo processo, apesar das numerosas e apressadas opiniões em contrário, nunca teve um desfecho satisfatoriamente dilucidado.
Às suas andanças e tribulações entre Veneza e Sanlucar de Barrameda (Cádis), passando por Florença e Nápoles, à sua substituição por um sósia, o (esse sim) calabrês Marco Túlio Catizone, ao seu exílio em França, no convento agostinho de Limoges, cujo saque, na sequência da Revolução francesa, deu a conhecer uma arca tumular contendo as suas ossadas, identificadas por uma medalha em ouro. A tudo isso prestei a atenção devida em anteriores ocasiões [1].
A detalhada exploração que já empreendi e tenciono prosseguir no que concerne à biblioteca sebástica (manuscrita e impressa) que pertenceu a António Augusto Carvalho Monteiro permite-me garantir, sem hesitações, que, à excepção do epílogo de Limoges (sobre o qual nada consta no acervo), o colecionador possuía as peças-chave susceptíveis de traçar o percurso encoberto do Desejado.
De resto, estou convicto que não só as tinha, como as integrou no seu imaginário, legando-nas no registo plástico da Regaleira, a qual constitui, concomitantemente, um tributo à tradição templarista portuguesa e o testamento-legado espiritual, sebástico e quinto-imperial do seu proprietário.
Onde então se vislumbram na Quinta da Regaleira os sinais a que me reporto?
Ao invés das demais hipóteses hermenêuticas já ensaiadas, as quais são compelidas a ajustar a realidade material às respectivas paralaxes ideológicas [2], a assunção do destino profético de Portugal é inequívoco na obra-prima de Carvalho Monteiro, emergindo do argumento subjacente ao plano-director da Quinta, cuja explanação global reservo para próxima oportunidade.
De momento, apenas me proponho revisitar três dos mais paradigmáticos dos aludidos sinais.

(excerto)


[1] Cf. Manuel J. Gandra, Joaquim de Fiore, Joaquimismo e Esperança Sebástica, Lisboa, 1999 e Hubert Texier, Pesquisas Históricas sobre Sebastião I. de Portugal (Paris, 1903), ou de como o Desejado morreu no exílio, em Limoges, Mafra, 2010.
[2] Cf. Manuel J. Gandra, Colecção Portuguesa I e II da Biblioteca do Congresso – Livros Maçónicos, Mafra, 2012.