"Muitos Estados falhados de África são o resultado das políticas de dominação que lhes foram impostas pelo imperialismo colonial e o seu sucedâneo actual, o tráfico de droga e os outros tráficos nojentos em que assenta muito da economia especulativa mundial que, no seu amplexo de anaconda, constitui um dos esteios da actual configuração do mundo globalizado. E os conflitos étnicos são alimentados por essas políticas de dominação conduzidas por pessoas desenraizadas e corrompidas pelo poder do dinheiro e pelo dinheiro do poder.
Que a morte, a fome, a miséria, o sofrimento, o sem-futuro, das crianças de Angola, por exemplo, venha aos mercados lusófonos comprar acções de empresas-chave da economia globalizada é apenas um reflexo natural deste estado de coisas. Confundir a lusofonia com isto não é só um logro histórico, é participar de forma activa na sua manutenção e legitimação.
Vistas as coisas deste prisma, a CPLP acaba por ser uma estrutura de legitimação do terrorismo de Estado e da cleptocracia que o olhar hipócrita da diplomacia vê como emergência da democracia. Isto consuma a destruição da Cultura como elevação de todos os homens à condição de senhores do mundo e como comunhão universal do fluxo da Vida que a tudo engloba. E é nisto que em verdade consiste a Cultura: a exaltação de cada um, a elevação de todos, a resistência à opressão e à criação de desigualdades acéfalas"
- Paulo Feitais, "A lusofonia não é lusófona, mas universal", Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010).
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