segunda-feira, 19 de outubro de 2009

CARTA ABERTA A MAITÊ PROENÇA

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(recebi por e-mail; publico porque me parece pertinente, ainda que alguma informação necessitasse de comprovação com fontes credíveis)

Exma. Senhora:

Foi com indignação que vi a 'peça cómica' que fez em Portugal e passou no programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que o tenha feito - está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo que me tem sido dado ver pelos seus desempenhos - mas sim pelo facto da TV Globo ter permitido que tal ignorância fosse para o ar.

Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais esclarecida:

A 'vilazinha' de Sintra é património da Humanidade, classificada pela UNESCO e unanimemente reconhecida como uma das mais belas e bem preservadas cidades históricas do mundo.

Em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu computador como se de uma capivara se tratasse,

foi onde foi inventado o serviço pré-pago de telefones móveis (os celulares) - não existia nenhum no mundo que sequer se aproximasse;

foi também o que inventou o sistema de passagem nas portagens (pedagios, se preferir), sem ter que parar - quando passar por alguma, sem ter que ficar na fila, lembre-se que deve isso aos portugueses;

é dos países do Mundo com maior taxa de penetração de computadores e serviços de internet em ambiente doméstico;

é o único país do mundo onde TODAS as crianças que frequentam a escola têm acesso directo a um computador (no próprio estabelecimento de ensino) - e em Portugal TODAS as crianças vão à escola. Muitas delas até têm um computador próprio, para seu uso exclusivo, oferecido ou parcialmente financiado pelo Ministério da Educação - já ouviu falar do Magalhães? É natural que não... mas saiba que é uma criação nossa, que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o vivamente - é muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de informática;

somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia informática e web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por especialista americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é só o Presidente dos Estados Unidos - ao Sr. Lula da Silva tal não seria oportuno, porque ele considera que a Escola não é determinante no sucesso das pessoas (e, no Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda a razão);

a internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é considerada obsoleta - eu percebo que não entenda porquê, porque no Brasil é hoje anunciada como o grande factor diferenciador, a transmissão por cabo já não nos interessa. Já estamos noutra - estamos entre os países do mundo com a rede de fibra óptica mais desenvolvida. E nesse contexto 1 Mega é mesmo uma brincadeira.

O ditador a que se refere - o Salazar - governou, infelizmente, 'mais de 20 anos', mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que foram 48 (INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20). Ainda assim, e apesar do muito dano que nos causou a sua governação, nós, portugueses, conseguimos em 35 anos

reduzir praticamente a ZERO a taxa de analfabetos;

baixar para cifras irrisórias o nível de mortalidade infantil e de mulheres no parto - estamos entre os melhores do mundo;

criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo - em Portugal, sem exceder os limites de velocidade e sem correr risco de vida, fazemos 300 Kms em duas horas e meia (daria tanto jeito que no Brasil também fosse assim);

melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários e condições de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta matéria, mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função é apenas carregar no botão do andar pretendido - cada um de nós sabe como fazê-lo e aproveitamos as pessoas para trabalhos mais estimulantes e úteis; também já não temos trabalhadores agrícolas em regime de escravatura - cada pessoa aqui tem um salário, não trabalha a troco de um prato de comida;

colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos poluentes, mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a escavar petróleo, nós estamos a instalar o maior parque de energia eólica do mundo (é a energia produzida a partir do vento).

Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa, etc., cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem muito mais.

Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou muito de acordo consigo: temos muito pouco sentido de humor. É verdade. Não acharíamos graça nenhuma se tivéssemos deputados a receber mesada para votarem num certo sentido, não nos divertiria muito se encontrassem dirigentes políticos com dinheiro na cueca, não nos faria rir ter senadores a construir palácios megalómanos à conta de sobre-facturação do Estado, não encontramos piada quando os políticos favorecem familiares e usam o seu poder em benefício próprio.

Ficaríamos, pelo contrário, tão furiosos, que os colocaríamos na cadeia. Veja só - quanta falta de humor! Mas, pelo contrário, fazem-me rir as sessões plenárias do senado brasileiro. Aqui em Portugal, e estou certa que em toda a Europa, tal daria um excelente programa de humor. Que estranho não é?!

Para terminar só uma sugestão: deixe o humor para quem no Brasil o sabe fazer com competência (e há humoristas muito bons no Brasil).

Como alternativa, não sei o que lhe sugerir, porque ainda não a vi fazer nada que verdadeiramente me indicasse talento... Peço desculpa por não poder contribuir.

Mafalda Carvalho

2 comentários:

  1. Polêmicas fora, achei o texto muito interessante, justíssimo nalgumas críticas ao Brasil mas tem que ser enquadrado na psicologia do português, que logo se ergue quando atacam seu país e logo a seguir arrasa tudo dizendo o pior.
    Alguns dos dados sei que são verdadeiros, e de qualquer modo tudo o resto não me parece fabricação mas quantos portugueses os conhecem? Conheço bem o norte de Portugal e sempre me espanta o quanto os portugueses desconhecem de si mesmos.

    Fica a nota que o Brasil não está parado, com o fim da ditadura também muito vem evoluindo, embora a justiça social, distribuição da riqueza, educação, crime, o desvio de verbas públicas e as "quadrilhas da política" sejam um problema sem fundo, enraizado na sociedade brasileira de tal modo que só uma grande mudança no regime poderia trazer alguma solução.

    E bandidos da política também abundam em Portugal, e nisso eu conheço bem as fontes.

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