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Na tenda, todos estavam deitados nos sacos e Scott escrevia; deixava uma carta à mulher de Wilson dizendo-lhe como o marido morria calmo, depois de se ter portado como o mais valente dos camaradas e o mais fiel dos amigos; outra à mãi de Bowers, com o elogio da coragem, da energia e da nobreza de alma do filho; depois despedia-se dos amigos, com uma palavra de gratidão e de saüdade a cada um; por fim, redigiu uma mensagem ao público, apontando as causas que tinham levado ao desastre — o estado do tempo e o estado do gelo; e terminava: «Se escapássemos com vida, teria para vos contar uma história da intrepidez, da resistência e da coragem dos meus com¬panheiros que faria vibrar a alma de todos os in¬gleses; estas minhas notas e os nossos cadáveres ficarão a contá-la...»
Por último, a 29, fizeram com o resto do alcool duas chávenas de chá para cada um; fora, a tem¬pestade continuava sem mostras de abrandar; era impossível sair: «agüentar-nos-emos até o fim, mas o fim não está longe». Já não podia escrever mais; a mão trémula apenas conseguiu traçar mais uma frase: «Pelo amor de Deus, olhem pelos nossos.»
Oito meses depois uma expedição de socorro encontrou a tenda enterrada sob Im,20 de neve; só o bambu da vela do trenó indicava onde tinham feito o último acampamento; escavaram a neve e viram os três homens: Bowers e Wilson estavam nos sacos, de cada lado de Scott cuja mão pou¬sava sôbre o corpo de Wilson; recolhido o material e os livros, tiraram os bambus e a tenda cobriu os três corpos; depois, recitaram o ofício dos mortos e levantaram uma cruz sôbre um monte de neve; tôda a Barreira estava coberta de sombra; mas no céu uma aurora polar desdobrava os seus véus magníficos de oiro vivo e de vermelho.
In A última viagem de Scott, Lisboa, Seara Nova, 1939, pp. 28-29 (sem actualização ortográfica).
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