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Nada se sabe de seguro acerca de data de nascimento e da naturalidade de Azurara; é possível que tivesse nascido por 1410 e hesita-se entre a Azurara do Minho e a que fica junto de Mangualde; supõe-se que era filho de um cónego e que a primeira educação não foi muito apurada; foi talvez soldado quando novo, mas parece não se ter notabilizado na guerra; em 1454 foi nomeado sucessor de Fernão Lopes, como guarda das escrituras da Torre do Tombo e decerto como cronista-mor; ao contrário do que sucedeu com Fernão Lopes, Gomes Eanes foi, segundo parece, sôfrego de honrarias e dinheiro; recebeu várias pensões, foi cavaleiro de Cristo e, adoptado como filho per uma peliceira rica, veio a herdar-lhe a fortuna. É provável que Azurara tenha começado os seus trabalhos de escritor traduzindo um romance de cavalaria, mas a obra perdeu-se; o que nos resta dele é constituído pela Crónica de D. João I, terceira parte, visto que as outras duas já tinham sido compostas por Fernão Lopes, pela Crónica dos feitos da Guiné e pelas Crónicas de D. Pedro e D. Duarte de Meneses; a Crónica de D. João I quase só narra a tomada de Ceuta e parece que levaram a isto as mesmas razões que fizeram Fernão Lopes suspender a redacção do trabalho: a muitos dos que tinham triunfado com D. João I não convinha que se narrassem as proezas cometidas posteriormente à guerra e que nem sempre eram abonatórias de honestidade e patriotismo. A Crónica dos feitos da Guiné, composta sobre apontamentos de Afonso de Cerveira, é uma apologia do infante D. Henrique, com falseamento de factos históricos, ocultamento da acção de outras pessoas, por exemplo, do Infante D. Pedro, e passagem demasiado rápida sobre episódios que não convinham à lenda da sua personagem: é o que sucede com o desastre de Tânger e o recontro de Alfarrobeira; a Crónica é, no entanto, valiosa pelas informações que nos dá sobre as navegações dos portugueses no tempo do Infante e sobre a colonização das ilhas atlânticas, mas principalmente porque, mesmo através dos elogios e dos artifícios, se descobre um D. Henrique bastante diferente das imagens vulgares: é menos um navegador do que um guerreiro, menos um iluminado, um sonhador, do que um negociante, menos um homem de ciência do que um prático, atento ao menor risco e aos ganhos seguros de sete por um. As Crónicas dos Meneses, de que o primeiro foi governador de Ceuta e o segundo morreu em Alcácer Ceguer em defesa de D. Afonso V que se arriscara numa incursão, são úteis para o conhecimento do carácter da acção dos portugueses no norte de África e põem bem a claro o móbil económico de quase todos os empreendimentos. Gomes Eanes, que escreve geralmente mal, que narra sem a vivacidade, o interesse artístico de Pernão Lopes, que a cada passo se deixa arrastar pelo seu gosto da filosofia escolástica, mal compreendida, e da astrologia, tem sido julgado muito diversamente como historiador; pode, no entanto, dizer‑se que é exacto onde o não contraria qualquer interesse da personagem que estuda e onde não há motivo para receios quanto à sua posição; sabe-se mesmo que trabalhou por se documentar bem; nos outros pontos é bastante falível, tendo que se proceder sempre com todo o cuidado quando o temos como único narrador de determinado acontecimento. Gomes Eanes de Azurara morreu em 1474.
Empresas do Infante (Azurara), Lisboa, Edição do Autor, 1942, pp. 3-4.
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