sábado, 9 de maio de 2009

O Poeta do Amazonas

(Google - Rio Amazonas)

«Mas dito seja, de uma vez por todas,
que nada faço por literatura,
que nada tenho a ver com a história,
mesmo concisa, das letras brasileiras.
Meu compromisso é com a vida do homem,
a quem trato de servir
com a arte do poema. (...)
Não basta ser bom de ofício.
Sem amor não se faz arte.

Trabalho que nem um mouro,
estou sempre começando.
Tudo dou, de ombros e braços,
e muito de coração,
na sombra da antemanhã,
empurrando o batelão
para o destino das águas.


A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos.

Que importa falarmos tanto?
Apenas [nos] repetiremos.

Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto. (...)

Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)

Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transformaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.»
Thiago de Mello

5 comentários:

  1. É, "Faz escuro mas eu canto"
    anoitece mas eu sigo.

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  2. Pois somos a Noite que quer Amanhecer.

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  3. Somos o Sol ainda atrás da montanha, mas somos também a montanha onde ele se esconde e depois aos poucos Subindo no horizonte rela a nossa sombra que já não nos surpreende nem assusta.

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  4. E no curso deste rio surgiu este poema:

    «Amanhece.
    O poeta de penas já cantou.
    Já nos seus altos versos adormece
    O fantasma da noite que passou.

    Como um halo de sonho acontecido,
    A luz das coisas vai nascendo em nós;
    Desenha-se na sombra o pressentido,
    E a vida já tem gestos e tem voz.

    Já novamente o sol doira a frescura
    Da relva verde e do lençol de linho.
    Outra vez há ternura
    De gente a ver-se e de se ver caminho.»
    Miguel Torga, 'Diário II'

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