segunda-feira, 25 de maio de 2009

Nos cárceres da ditadura militar brasileira

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Frei Betto *

Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público:trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos(1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentescadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algoinusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado aconviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.

Assim como o "Diário de Anne Frank" nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obraspublicadas sobre o período.
Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bico paca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diáriominuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.

O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniuneste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.

Nos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagensque são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Caio Prado Jr., Apolônio de Carvalho, PauloVannuchi, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.

Para quem se interessa em conhecer a verdadeira face do regime militar e o Brasil dos "anos de chumbo", Diário de Fernando é um testemunho vivo, comovente, de uma de suas vítimas. Não se trata de investigaçãojornalística, nem resulta da pesquisa de historiador, mas sim de um sincero,emocionante e visceral relato de quem teve a ousadia de registrar, dia adia, as entranhas de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil.

Está tudo ali: as torturas, os desaparecimentos, o sequestro de diplomatas,as guerrilhas urbana e rural, a greve de fome de quase 40 dias, e também aconvivência dos prisioneiros marcada por momentos de inusitada beleza: asfestas de Natal, as noites de cantoria, a solidariedade inquebrantável entre eles.

Diário de Fernando traduz a saga de uma geração que não se dobrou à ditadura e a qual o Brasil deve, hoje, a sua redemocratização. Eis uma obra que enaltece a dignidade humana, a capacidade de resistência frente à opressão e a vivencia da fé cristã como nas antigas catacumbas do Império Romano.

Lançamentos:

Em Belo Horizonte: 17 de junho, quarta, no auditório da CEMIG - Av.Barbacena 1.200. A partir de 19h30.

Em São Paulo: 18 de junho, quinta, no SESC Vila Mariana - Rua Pelotas, 141.A partir de 19h30.

O autor:
Frei Betto é considerado uma das vozes mais ativas na luta pela justiçasocial na América Latina. Escritor consagrado, vencedor de dois prêmiosJabuti, tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior, querefletem sua trajetória como militante político e talentoso ficcionista.Este é o quinto livro do autor publicado pela Rocco, que também editouBatismo de sangue, A mosca azul, Calendário do poder e A arte de semearestrelas.

* Escritor e assessor de movimentos sociais

4 comentários:

  1. A Memória é um dos fundamentos da Ética. É preciso não esquecer que o nosso presente tem marcas e tendências que vêem das feridas do passado (não tão distante assim). E a repetição é uma das piores dinâmicas da História: se brincamos com fantasmas, arriscamo-nos a despertar monstros que ainda estão latentes no inconsciente colectivo.
    A Memória permite semear um futuro de esperança.
    :)

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  2. Ainda que seja um só lado da história, mas onde os cadávres se equivalem nos dois lados.

    Frei Beto? HUUUUMMMMMMMM

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  3. Caro Júlio, a barbárie não tem 'lados', apenas vítimas.

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  4. e algozes... é preciso não esquecê-lo, seja qual for o 'lado'.

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