[fala do Diabo] "A verdade, porém, é que não existo - nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus diversos criadores e seus diversos Satãs - mais ou menos perfeitos e adestrados - são vácuos dentro do vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa nenhuma.
[...]
Sou eu. Sou aquele que sempre procuraste e nunca poderás achar. Talvez, no fundo imenso do abismo, Deus mesmo me busque, para que eu o complete, mas a maldição do Deus Mais Velho - o Saturno de Jeová - paira sobre ele e sobre mim, separa-nos, quando nos devera unir, para que a vida e o que desejamos dela fossem uma só coisa.
[...]
De tudo quanto não vale a pena ser faço eu meu domínio e meu império, senhor absoluto do interstício e do intermédio, do que na vida não é vida. Como a noite é o meu reino, o sonho é o meu domínio. O que não tem nem peso nem medida - isso é meu"
- Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, pp.29-30 e 31-32.
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