sábado, 18 de abril de 2009

Pela Nau da Palavra, a Terra da Alma

Falamos com o corpo, não com palavras. Não existem palavras, apenas sons do silêncio chamados palavras.
As letras são sons mortos - mudos; as palavras escritas estão paradas, tomando apenas movimento através de quem as lê.
A Palavra permite que o corpo se mova, mantendo-se parado, que viaje: que Voe, devolvendo, assim, a Alma a Si mesma, ao seu movimento perpétuo e infinito. O Homem é, com isso, a síntese mais completa da Alma Universal, da sua Mãe-Terra: o Sol. Pois também o Sol se move estando parado, sendo através da Terra.
A Palavra gira em torno da Alma, tal como a Terra em torno do Sol. Pelo Silêncio, a Palavra regressa ao interior da Alma, a Terra ao do Sol, é Noite. E é permanecendo em Silêncio que a Eternidade inteiramente se revela...
Ah como será ver raiar o Dia dentro da Alma?
Entre Movimento e Som existe uma relação íntima, que os faz ser um só: é pelo Movimento que o Som se produz, e vice-versa - o Verbo representa os Dois. Porém, o Primeiro Movimento é sempre a base do Som, ou seja, para que haja o Som-Palavra, tem de haver sempre o Primeiro, o Verbo que criou e cria esse Som, o que faz mover: o Coração.

«(...) D. Fernando está para Camilo [Castelo Branco], como D. Sebastião para Camões. Tudo acaba na Literatura. Onde existe o Império Romano? Na Eneida. E Portugal existe nos Lusíadas. A arte é a última flecha dum templo, a conclusão da Natureza.»
Teixeira de Pascoaes, Ensaios de Exegese Literária e Vária Escrita

Tudo acaba onde começa: o Verbo expresso em Movimento pelo Corpo-Terra na Palavra do Homem, a Palavra do Homem na Sua Alma-Sol.

«O som só se pode propagar através da matéria: gases, como o ar; líquidos e sólidos. A luz também se pode propagar no vácuo.»
Site
«Na química, o vácuo é a ausência de matéria»
Wikipédia
... é a morte. A luz move-se através da Morte - da matéria.

O Corpo é como Mãe: criando a Alma que será o seu Filho, que nascerá, não a partir da mera separação da Mãe-Matéria, porque esse não é o verdadeiro nascer, mas a partir da sua morte, ao nascer para a Ser, em forma de Sentimento e Voz Unidos: de Luz.

«O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo»
Fernando Pessoa, Mensagem



«A lei tenho de Aquele a cujo império
Obedece o visíbil e ínvisíbil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra, enfim, desceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.

Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia
.»
Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I, 65-66

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