quarta-feira, 29 de abril de 2009

GUINÉ


Elephant Drinking (Amboseli), Nick Brandt, 2007


Terra, que és minha, dentro do teu ventre fui

Como uma nau a crescer no ouro-espelho da praia,

Inconcluso, abandonado, escombro, ruína antes

De o ser, feto de búzios no azul de gruta funda,

Uma estranha tapeçaria branca que as Balantas

Estenderam no feitiço. Eu era, eu sou, leopardo

De neve, impossível na raridade e na solidão

Dos monstros sem lar, africano sem me deixarem

Os exílios altos dos imbondeiros, com os Fulas

De bicicleta a perguntar: Nasce, nasce o menino?

Nasce, nasce sim, para além do mar que é tabu,

Numa Irlanda que não é a Irlanda, os silvos e

As chaminés das fábricas e os portos, os portos,

Os navios a partir e a chegar. Saudade, sempre,

Da minha terra que não vem, Mãe Negra, carícia

No poente vermelho de todos os elefantes tristes,

Mestres, que sabem que há um só lugar para morrer.

Jesus Carlos

5 comentários:

  1. É curioso como alguns textos, pelo seu peso, interrompem o fluxo. E não estou a falar do elefante...

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  2. Espelho meu, espelho meu ...
    Se o mundo cegou porque não cego eu?

    O rei vai nu entre súbditos de esquizofrenia e verborreia de infâmia.

    Espera-os um banquete de ausência de ideias e os comensais são palavras ocas com sabor ao vazio que os enche.

    Não se escondem maus espíritos nas palavras, porque há sempre um dia que o sol não nasce para todos.

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  3. ainda não cheguei a perceber se vocês gostaram do texto ou não... eu gostei muito!

    um grande abraço
    jorge vicente

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