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BREVE TESTEMUNHO SOBRE AGOSTINHO DA SILVA
Manuel Ferreira Patrício
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Há uma passagem na obra dispersa de Fernando Pessoa em que ele regista a decisão de, considerando ter já lido imenso do que outros escreveram, de ora em diante deixaria de ler tanto e passaria a escrever para que outros o lessem a ele. É mais ou menos assim.
Já vivi muito mais anos do que o poeta viveu e li, decerto, muito menos do que ele já tinha lido aos trinta anos, apesar de ser um leitor inveterado, compulsivo. Mas estou certo de que li menos e li pior. Vou-me sentindo, contudo, também eu um pouco cansado de ler. Sobretudo, não vejo grande proveito no que leio. Vai-se-me impondo a evidência de que a tarefa principal a que devo de ora em diante entregar-me já não é a de ler, mas a de escrever. E não para outro fim que não seja o de compreender. Não, decerto, muito; mas o pouco que ainda está ao meu alcance.
De qualquer modo, não foi a propósito de mim que me ocorreu esta passagem de Fernando Pessoa. Foi a propósito de Agostinho da Silva. Não há dúvida de que também este leu imenso. E desde muito cedo. Parece-me evidente que nunca leu senão para compreender. Desde o princípio. E leu e compreendeu para criar. Agostinho nasceu realmente para criar. Ele diz do ser humano o que sempre foi a sua acção como ser humano: não nasceu para trabalhar, nasceu para criar.
De facto, cumpriu esse destino. A sua vida, como a biografia e a obra põem fulgurantemente à vista, foi um processo ininterrupto de criação. Muitas lições nos deixou, sem que tivesse pretendido dar-nos qualquer lição. A maior, a mãe de todas as lições, é essa: devemos viver criando, criando sempre; viver verdadeiramente, autenticamente, é criar.
Assim, o que verdadeiramente importa no legado que nos deixou não é qualquer conteúdo particular, como herança a resgatar após a sua morte, mas o princípio de que no princípio era, é, a acção. A acção criadora. Esse é o legado deixado a Portugal, e ao Brasil, e ao Mundo Lusófono, e no fim de contas à Humanidade: Ajam, criem. Portanto, mãos à obra: vamos agir, vamos criar. Já.
Disse-nos Agostinho o quê?!... Disse. Ouçamo-lo.
2
Em Maio de 1989 teve lugar, no anfiteatro da Biblioteca Nacional, o Congresso do Espírito Santo. Numa das sessões do dia 20, perguntou ao Professor Agostinho da Silva um dos participantes "se o português é um povo eleito" (Diário de Notícias de 21 de Maio de 1989,página de "Informação Geral"). A resposta foi fulminante: "Não me importa se o povo português é ou não eleito. Eleja-se a si próprio, se faz favor!". Fica tudo dito, ficam todos os equívocos desfeitos, para sempre. Não seremos, evidentemente, o único povo a poder eleger-se para a obra de construção de um mundo humanizado, fraterno e universalmente feliz. A resposta de Agostinho passa por cima, devastadoramente, de qualquer visão estreita e nacionalista, para desde logo abraçar a única perspectiva humanamente aceitável, que é a universalista. Agostinho quer, passou a vida a querer, que todo o homem, que todo o povo, seja feliz. Para alcançar, para atingir, um tão fantástico desiderato, nenhum povo é de mais, que nenhum povo deve excluir-se dele ou dele ser excluido. A construção da fraternidade universal não pode deixar de começar pela abertura universal aos construtores - indivíduos, ou povos, ou Estados. É este o pensamento que vejo plasmado na resposta de Agostinho da Silva ao interpelante do Congresso do Espírito Santo. Toda a obra do Mestre é congruente com esta posição, e só com esta. Também só esta posição considero compatível com a ideia e o sentimento de Deus que animou como um fogo espiritual inextinguível a intimidade espiritual de Agostinho. Não sabemos o que Deus é, mas atrevo-me a afirmar que algo saberemos d'o que não é, d'o que não pode ser. E aqui direi que não pode ser injusto, que não pode ser parcial. Todo o ser humano pode auto-eleger-se, toda a nação pode auto-eleger-se. Como poderíamos pensar que pudesse Deus excluir alguém?
Não temos, pois, que agarrar-nos à ideia-crença preguiçosa, e perigosa, de que Deus escolhe uns povos, e exclui outros, para o acesso à felicidade e à plena realização humana, pois outra é a ideia-crença para que nos aponta a sabedoria de Agostinho da Silva: a da auto-eleição.Como bem sintetizou o Diário de Notícias no título da informação que deu sobre a presença de Agostinho da Silva no Congresso do Espírito Santo, esta a mensagem que o Mestre nos deixou: "O povo português deve eleger-se a si próprio".
Nesta hora de crise profunda que vive Portugal, mais valiosa mensagem não nos poderia ter deixado o Mestre de portugalidade universal, de lusofonia universal, que foi - que é, e será pelo futuro a haver - Agostinho da Silva.
3
Liguemos os dois passos já dados deste breve testemunho. Viver deve ser, só deve poder ser, agir e criar. Parece-me a mim que o pensamento, e o exemplo, que Agostinho da Silva nos deixou como legado é que a acção será de pouca - ou nula, ou negativa- valia se não for criadora. Acção criadora é, pois, o caminho que a vida deve ser para nós. Acção que instaure no mundo o que nele não havia, o que nele não há, e passa a haver. O Portugal que profundamente amou, o Mundo Lusófono pelo qual viveu apaixonadamente a sua vida, em atitude e prática de doação, o Mundo Humano que para ele representou a linha última e infinita do horizonte visionável - a Idade do Espírito Santo, este é o seu verídico nome!... - , eis o fruto, que é pomar, da acção criadora que a todos cumpre, que a nós cidadãos da Pátria que é a Língua Portuguesa auto-electivamente deve cumprir. Por mais temível que seja a tempestade oceânica, haveremos de chegar à Ilha dos Amores. Este o canto épico de marinheiro português das Descobertas que ouço na sinfonia laboriosamente composta por Agostinho da Silva: a Ilha dos Amores há-de ser, há-de haver.
Chamou Fernando Pessoa a Dom Diniz o plantador de naus a haver. Chamemos nós a Agostinho da Silva, com voz certeira e segura, o plantador da Ilha a haver.
"Os Teólogos", Jorge Luís Borges
ResponderEliminarDeus não elege mesmo ninguém.
ResponderEliminarDeus, creio eu seja uma ideia no homem que vai se formando, criando, desenvolvendo e geneticamente mantendo, caso dos sentidos, por exemplo, que não creio tenha o homem nascido com eles, assim como os temos hoje.
E as nações refletem esse ser no coletivo.
Mas pessoalmente eu não abro mão da presença do APTA (lugar onde nasce o sol- Sânscrito) como foco irradiador da tônica a ser desenvolvida em cada época.
E naturalmente os homens mais "elevados", caso de Agostinho,(mas não só) no presente ensaio, leem a "mensagem"
e se dedicam a transmiti-la ao povo.