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Para Miguel Torga
Nau perfumada de pinheiros bravos,
tripulada por marinheiros de rostos
esculpidos e olhar grave, velas brancas
içadas nos mastros apontados ao céu.
Nau baloiçando nas águas do Tejo,
na hora da partida para a Índia, acenando
a Alfama, as mulheres descalças cantando
um fado, na lembrança de vozes que gemem,
sobre as cordas das violas chorando saudades.
Nau carregada de barris de vinho tinto, carrascão,
daquele que enfrenta o medo e dobra cabos dando
gargalhadas que ecoam no Adamastor e retornam
em rajadas de vento com hálito a uva do ribatejo.
Nau com um punhado de homens valentes,
que cheios de febre ardem em visões do Oriente.
Partem para a Índia que é já ali ao sair a barra.
Os meses passam e os sonhos inundados de tanta água.
Nau da Saudade do infinito.
Nau de solidão rangendo entre as vigas de um grito.
Nau germinada nas terras visionárias de Leiria.
Nau do canto do amor beijando o mar de lábios de espuma.
Nau á bolina do sonho, navegando, navegando…
João Carlos Raposo Nunes
Bons livros é na Uni Verso, em Setúbal.
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