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Como todos os admiradores da obra de Pessoa, tenho acompanhado com perplexidade as desventuras do seu espólio...
Como é sabido, os seus "herdeiros" queriam vender parte deste. Face ao escândalo, o Ministério da Cultura lá resolveu actuar...
O meu ponto é apenas este: os Autores (assim mesmo, com A maiúsculo) apenas deixam como herdeiros (sem aspas) os de espírito. Não os de sangue...
É escandaloso que os ditos "herdeiros" (os de sangue) queiram privar dos verdadeiros herdeiros (os de espírito) uma Obra. Seja de Pessoa, seja de qualquer outro Autor...
Aqui sim, devia-se aplicar o princípio da "nacionalização". Mal um "Autor" morra, a sua Obra deveria ser de imediato nacionalizada. E sem direito a recurso. Nem sequer a direitos de autor...
Renato: sem distinguir entre o rascunho da carta à namorada, a obra-prima absoluta do soneto e a receita de bacalhau à braz?!
ResponderEliminarSó que: quem separa umas de outras?
(ai ai, por estas e outras é que não há uma musa para os juristas...)
Registo de interesses: eu sou genealogista. O que não dava para pôr a mão em milhares de espólios de pessoas falecidas que eu cá sei(génios ou não...), e que provavelmente os herdeiros deitaram ao lixo!
A verdade é que também não me agrada a ideia dos espólios "em vida", geralmente através de fundações...
Não sei que diga.
Ah, outra coisa: segundo registo de interesses, vou de vez em quando à feira da Ladra. Onde já encontrei, a preço de abóbora, coisas várias que lá não edviam estar, às vezes à chuva e ao pisar de quem passa: desenhos, manuscritos, autógrafos, de pessoas que provavelmente já ouvimos falar. Até de uma rainha, até do Maurício da "Mónica", a banda desenhada brasileira. É uma pena. Às vezes resgato-as, mas depois não sei que lhes faça. Outras não levo dinheiro comigo, ou não o tenho mesmo, e nada posso fazer.
Toda a morte é um drama.
Abraço
Obviamente, distinguido...
ResponderEliminarAcreditando eu em "génios" (ou "homens superiores"), sei perfeitamente que nem tudo o que estes fazem os honra...
Dito isto, sei que é tudo muito complicado (começando por quem distingue/ separa...). Nós na AAS temos esse problema. O Agostinho deixou uma montanha de papéis. Como está em papel...
Hoje há mais possibilidades. Eu, por exemplo, escrevo muitas coisas no blogue que jamais escreveria numa "Obra".
Dito isto, e já que hoje estou virado para a iconoclastia, não acho que todos os livros sejam "sagrados". Quanto entro em livrarias, cada vez mais, só quase vejo lixo. Por mim, podiam ir para a fogueira...
É que o lixo esconde muitas vezes as pérolas...
Mas quem separa?...
O "mercado" não é certamente...
Só dar cumprimento ao previsto na lei: o Estado, caso o invoque, é sempre comprador preferencial - parece é que os herdeiros já meteram um advogado, a escudar-se em não sei que lei europeia que protege a concorrência e a «livre circulação destes bens»...
ResponderEliminarPrimeiro há que avaliar estes manuscritos, a que, segundo os herdeiros, Pessoa não encontrou valor literário. Como nem os herdeiros, nem Pessoa, são especialistas da obra do poeta... não os devemos ouvir.
Avalie-se e, caso sejam manuscritos de inequívoco interesse cultural e patrimonial, aplique-se a lei.
Aproveite-se a deixa... e cumpram os intelectuais portugueses a sua função: a de recordar aos mercantilistas europeus que a cultura e o património das nações não são refrigerantes.
Bem, começando pela iconoclastia eu não entro em livrarias a não ser por livros técnicos, e cada vez mais raramente... Nem sei se são lixo os livros; lixo é o aspecto de supermercado que esses sítios cada vez mais têm.
ResponderEliminarMas tenho a sorte de ter vivido a vida toda em cidades com alfarrabistas... Aliás, eu propunha, para a Europa, estes dois indicadores de civilização, e não seriam precisos mais: número de alfarrabistas por milhão de habitantes e percentagem de livros publicados em edições de bolso...
O resto - espólios e direitos de preferência - são um sarilho sem solução. Neste caso do Pessoa, claro que a parte que mais me interessa é a do Crowley: ah se eu fosse rico :)