segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Esta noite


Alguém me compreenderá se eu disser que esta noite a minha pátria é New Orleans. O lugar onde uma vez morreu o Sargento Roma. Uma rua no Porto onde numa cave de granito ouvi pela primeira vez o Joaquim Castro Caldas (hoje, ele morreu) e os seus poemas de rasgar. O senhor dom João Afonso de Albuquerque, "o do ataúde", que viveu há seiscentos anos e que tem uma história de que hoje de manhã me lembrei. Santa Maria de Belém do Pará, que hoje encontrei na montra de uma livraria e onde morreu a minha trisavó Emília. A casa onde nasceu Camilo Castelo Branco, a cuja porta hoje me encostei para fumar um cigarro. Um texto de Antoine de Saint-Exupery sobre a morte dos inimigos e o amor aos inimigos ("hoje morreu aquele que reinava a Leste do meu império..."). A gruta de Elefanta perto de Bombaim. Os olhos quase verdes da minha filha. Uma coisa que ficou por dizer na última conversa aqui. Uma recordação de 1979. Um rosto de pedra que encontrei junto a um texto chamado "Diário de Moema". Um lama tibetano que falou em 1948 com um explorador italiano que escreveu o livro que ando a ler. Cerveja. Uma lua que hoje não vi. O corvo que me saudou quando em Julho atravessei o rio Minho e entrei em terras galegas. A forma portuguesa como estas coisas me fazem.

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