sexta-feira, 19 de setembro de 2008

AUSÊNCIA (ÁGUA-FORTE)

Na ausência do sol crescem morrem
nas janelas nos batentes de portas emboscadas azuis
que despenham os náufragos olhares dessa água
percorrendo derrocadas fluviais
até ao início da estrela primeira a acender
na ruína de tudo a saudade
dos rios que preferem o assombro da nascente
ao acre apelo da foz

Na ausência rodopio
numa rotação de lama e de lava
danço nela igual a dionisíaco archote de vento
para outras águas afagar:
as que bebem nos muros
as que puem a cal a ressoar nas embarcações
abandonadas em que já nenhum quebrado barco
para atear.

Talvez já os mares sejam a cativa cinza
dos molhes lacerados
que nenhum sal empurra até às janelas até às portas
que só fazem sentido como artérias do coração
em que infrene algum náufrago
bailando com as vagas dentro das vagas renascido
vier bater-lhes com as falanges do leme.

Luís filipe pereira.

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