EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Apresentação da NOVA ÁGUIA 23

Apresentação da NOVA ÁGUIA 23
27 de Abril, na Associação Caboverdeana de Lisboa (para ver o vídeo, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Excerto da Comunicação para o Colóquio dos 60º Anos da Sociedade de Língua Portuguesa: 12 e 13 de Novembro, Sociedade Portuguesa de Autores (Lisboa)

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LÍNGUA, FILOSOFIA E IDENTIDADE
(...)
Ao referirmos isto, pretendemos aqui apenas afirmar a nossa “diferença”, a “diferença” que, a nosso ver, é intrínseca a todas as filosofias. Não cremos, aliás, que existam filosofias falsas – todas as filosofias são expressão da “verdade”, da relativa verdade, da sua “situação”. Nessa medida, defendemos pois aqui a relativa verdade de todas as filosofias . E isto sem defendermos, propriamente, a relativização da Verdade. A este respeito, fazemos questão de transcrever as seguintes palavras de António Quadros, que subscrevemos na íntegra: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.” .

E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Eis porque, com efeito, ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes, eis porque, efectivamente, ainda bem que múltiplas e diferentes são as culturas e as filosofias – ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.” . Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros – daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “Pede-se à criatura – humana ou artística – que não se restrinja a repetir, que não aliene a sua singularidade e, mais do que isso, que acrescente à ordem de que herdou a vida: que traga mais verdade, mais justiça, mais beleza – que invente, numa palavra.” . É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento” .
(...)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Extracto da Comunicação para o Colóquio sobre a Seara Nova (FLUL, 28-30 de Outubro)

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Entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: o caso de Agostinho da Silva.

Dentre as cisões que animaram a nossa história cultural, a cisão Renascença Portuguesa-Seara Nova é, decerto, uma das mais fracturantes, senão mesmo a mais fracturante.
Perante ela, parece fácil tomar posição. Tanto mais porque, historicamente, foi a Seara Nova que parece ter vencido, pelo menos nesse plano retórico onde muitas vezes, senão sempre, se joga o destino das histórias culturais.
Segundo essa mesma retórica, temos, de um lado – da Renascença Portuguesa –, um movimento saudosista, logo passadista, logo reaccionário, que, alegadamente, pretendia enclausurar Portugal em si próprio[2]; do outro lado – da Seara Nova –, temos um movimento progressista, modernizador, que, ao invés, pretendia abrir Portugal à Europa, a todo o mundo…
Como quase todas as visões caricaturais, também esta é tão substancialmente falsa quanto acidentalmente verdadeira. É verdade que a Renascença Portuguesa – na perspectiva de Pascoaes, em particular – sobrepunha, como veremos, os paradigmas endógenos aos exógenos. Isso não faz dele, contudo, a priori, menos progressista.
O que aqui há são diversas concepções de progresso, e mesmo de modernidade. Se, para Teixeira de Pascoaes, “o fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas”[3], para Raul Proença, por exemplo, o paradigma é de facto outro. Ouçamos, para o atestar estas suas palavras:
“O nosso espírito, a nossa maneira de encarar os problemas, o nosso modo de os resolver, as ideias fundamentais que formamos da vida e do mundo, tudo isso que é o que importa numa sociedade, porque é o que nela há de garantias para uma sociedade melhor, são coisas anacrónicas, sem relação nenhuma com o meio europeu em que nos integramos fisicamente. É como se fossemos uma pústula no meio da Europa, onde circula ininterruptamente sangue sempre novo e sempre vivificante. Como estremunhados pensamos ideias que não são para o nosso tempo, continuamos num sonho distante, estranhos à actividade, estranhos ao pensamento moderno”[4].

De facto, estamos aqui perante dois paradigmas: de um lado, pugnava-se por um progresso a partir de dentro, que fosse fiel à nossa alegada singularidade histórico-cultural; do outro, pugnava-se por uma adequação de Portugal ao que aparentava ser o exemplo máximo de modernidade: a Europa.
Esta divergência – de ordem cultural, filosófica e até ideológica – foi, de resto, assumida, de uma forma tanto mais nobre porquanto não envolveu qualquer desqualificação ético-moral da “outra parte”.
Foi esse, por exemplo, o caso de Raul Proença, que se referiu aos seus “oponentes” do movimento da Renascença Portuguesa como “criaturas de alto valor, de nobre senso moral, credoras da nossa admiração e do nosso respeito”[5]. O que é de enaltecer, pois que, entre nós, o mais habitual é as divergências de ordem cultural, filosófica e até ideológica redundarem em desqualificações ético-morais…
Neste caso, isso não aconteceu, até porque a divergência era de facto clara: entre, por exemplo, alguém como António Sérgio, que “não se pensava sob a categoria do nacional”[6], e alguém como Teixeira de Pascoaes, que pensou a Pátria como “um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova Individualidade”[7], era claramente difícil, senão impossível, haver um caminho comum…
*
Não obstante, houve casos que ultrapassaram essa fronteira aparentemente intransponível: prova de que os percursos pessoais são sempre irredutíveis a todos os rótulos, a todas as etiquetas…
Exemplo máximo disso foi, a nosso ver, o caso de Agostinho da Silva. Não tendo sido propriamente um “renascente” – até por questões de ordem etária: Agostinho da Silva nasceu em 1906, apenas 6 anos antes da criação do movimento da Renascença Portuguesa – alguns textos de juventude aproximam-se, bastante, do ideário da Renascença.
Atentemos, por exemplo, no seguinte texto:
AS RESPONSABILIDADES DE EÇA DE QUEIROZ[8]
(...)
Comparemo-lo agora com o seguinte texto, escrito apenas cinco anos após, quando Agostinho da Silva militava já nas fileiras da Seara Nova[9]:
DA IMITAÇÃO DA FRANÇA[10]
(...)
A diferença, de facto, dificilmente poderia ser maior. No primeiro texto, acusa Eça de Queiroz de ter criado “um ambiente de desprezo pela pátria” – eis, de resto, a acusação que Agostinho da Silva imputou a toda a “Geração de 70”, à excepção de Francisco Manuel de Melo Breyner, conde de Ficalho, que, ao contrário dos outros, “não teve pessimismos, não considerou a nação falida, não troçou de ninguém”[11]. No segundo, conclui com seguinte exortação: “Imitemos a França, imitemo-la inteiramente…”.
Cerca de uma década e meia depois, já no Brasil – para onde parte em 1944 –, vai, contudo, Agostinho da Silva reencontrar a nossa singularidade histórico-cultural – para ele, de resto, como ele próprio escreverá, foi a criação do Brasil que terá “definitivamente livrado Portugal das daninhas influências europeias que não o deixaram ter nem regime cultural nem acção nem política verdadeiramente adequadas à sua mentalidade”[12], antes procuraram “fazer de Portugal uma Dinamarca latina”[13].
Esse reencontro não se constituiu todavia como um regresso. Ainda que tenha retornado a este país, em 1969, aqui permanecendo os últimos vinte e cinco anos da sua vida – Agostinho da Silva faleceu no dia 3 de Abril de 1994 –, o autor da Reflexão à margem da literatura portuguesa jamais verdadeiramente regressou. Desde os anos cinquenta o seu horizonte foi sempre já outro: não já a Lusitanidade, não já Portugal, mas a Lusofonia, a Comunidade Lusófona, da qual Portugal era apenas uma extensão, a extensão europeia. No princípio de um novo século, eis o novo horizonte que se depara aos nossos olhos[14].

[2] Partindo desta perspectiva, mais ou menos expressamente enunciada, inevitável é depois falar-se do “esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia” (como, por exemplo, in Seara Nova: Razão, Democracia, Europa, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 7). Como visão contrapolar a esta, refira-se, nomeadamente, a de José Marinho, para quem “com a ‘Renascença Portuguesa’, e com tudo quanto se lhe segue em afinidade espiritual ou crítico contraste, surge a mais funda transmutação na vida espiritual portuguesa desde o Renascimento.” [cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello, 1976, pp. 224-225].
[3] Cf. “Manifesto da Renascença Portuguesa”, in A Vida Portuguesa, ano l, nº 22, 10/2/1914, pp. 10-11.
[4] In A Vida Portuguesa, Ano I, nº 22, 10/ 02/ 1914, p. 12
[5] Idem, ibidem.
[6] Cf. “Prefácio” a O Mundo que o Português criou, de Gilberto Freyre, Lisboa, Livros do Brasil, 1940, p. 10.
[7] In A Arte de Ser Português, Lisboa, Delraux, 1978, p. 33.
[8] In Acção Académica, Porto, 15 de Outubro de 1925, ano I, nº 3, p. 3.
[9] Agostinho da Silva aproximou-se em particular de António Sérgio, a quem inclusivamente chegou a reconhecer como seu “mestre” – isto apesar destas suas considerações: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, introd. de Fernando Cristóvão, apres. e org. de Paulo A. E. Borges, Lisboa, ICALP, 1988/ 1989 (2ª, revista e aumentada)., p. 55]. Como, contudo, o próprio Agostinho reconhece, o seu discipulato relativamente a Sérgio cumpriu-se, sobretudo, por oposição: “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], São Paulo, Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]. Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo, de resto, como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147].
[10] In Seara Nova, Lisboa, nº 197, 23 de Janeiro de 1930.
[11] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[12] Cf. Reflexão à margem da literatura portuguesa, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 66.
[13] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[14] A esse respeito, uma breve referência à NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia.blogspot.com) e ao MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org). Ambos, de diversos modos, procuram, no princípio deste novo século, cumprir esse horizonte.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Gótico Flamejante



Mas mais que uma junção de elementos, o estilo gótico é afirmação de uma nova filosofia. A estrutura apresenta algo novo, uma harmonia e proporção inovadoras resultado de relações matemáticas, de ordens claras impregnadas de simbolismo. Suger, que é fortemente influenciado pela teologia de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, aspira uma representação material da Jerusalém Celeste. A luz é a comunicação do divino, o sobrenatural, é o veículo real para a comunhão com o sagrado, através dela o homem comum pode admirar a glória de Deus e melhor aperceber-se da sua mortalidade e inferioridade. Fisicamente a luz vai ter um papel de importância crucial no interior da catedral, vai-se difundir através dos grandes vitrais numa áurea de misticismo e a sua carga simbólica vai ser reforçada pela acentuação do verticalismo. As paredes, agora libertas da sua função de apoio, expandem em altura e permitem a metamorfose do interior num espaço gracioso e etéreo.

O espaço é acessível ao homem comum, atrai-o de uma maneira palpável, que ele é capaz de assimilar e compreender, o templo torna-se o ponto de contacto com o divino, um livro de pedra iconográfico que ilustra e ensina os valores religiosos e que vai, a partir deste momento, continuar o aperfeiçoamento da mesma.

Fonte






Nas primeiras páginas de Horóscopo de Portugal, António Telmo define o Mosteiro dos Jerónimos como uma "Oração de Pedra". Interrogado sobre o sentido dessa oração nos dias de hoje, afirmou que ela continua com o mesmo sentido e com a mesma voz. «A oração está tão viva como então; a forma como ela é escutada depende sempre é das pessoas...Vejo o estilo gótico como uma oração; e o próprio manuelino possui o espírito gótico. Por exemplo, as janelas ogivais são como mãos postas em oração.» Obviamente que António Telmo considera existir uma linguagem inerente à arquitectura: «A arquitectura permite a ligação entre a Terra e o Céu - a boa arquitectura é claro. Depois há a arquitectura titanesca, como a americana, que assalta o Céu com violência; não tem um princípio metafísico ou divino a animá-la; ela tem o princípio da Torre de Babel.»
Em 1977 publica História Secreta de Portugal. Desde então: «Começou-se a publicar muitos estudos sobre arquitectura, que seguiram espírito análogo ao livro. Houve a valorização do manuelino, que até então era considerado um estilo ornamental, como me ensinaram na Faculdade de Letras. Diziam que era o gótico final. O meu livro vem dizer que o estilo manuelino é um estilo arquitectónico português.»

(...)

«Não podemos esquecer Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, e muitos outros. Mas, se é a Filosofia Portuguesa que tem o segredo dessa espiritualidade, os mais novos é que têm o segredo da transmutação. Se os jovens forem na corrente actual, então está tudo perdido. Nota-se, de facto, muitos jovens interessados no pensamento português. Se daqui resulta algo, só Deus é que sabe. Nós temos é de fazer as coisas.»

Entrevista de Sérgio S. Rodrigues & Miguel Campos-Reis

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pinharanda Gomes: do "espírito henriquino"

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“O espírito henriquino definir-se-á então como o modo de pensar, ou de estar, que recusa a pura expectação, que visa sair da paixão, ou da passividade face ao revelado, e que põe mãos à obra.”; “O espírito henriquino é o que anseia sair para fora de si mesmo, porque explode em riqueza anterior, úbere de dádiva, para se comunicar e não estiolar em vão.” [in Meditações Lusíadas].

domingo, 12 de julho de 2009

Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.

sábado, 2 de maio de 2009

Arte de Filosofar

"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.
Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"

- Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Finalizando...

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Sem meias palavras: a favor do Acordo Ortográfico (III, IV e V)

III
Muito gostam os detractores do Acordo de citar, entre outros, Teixeira de Pascoaes, a respeito da Reforma Ortográfica de 1911, com o qual se acabou, por exemplo, o “ph”, com o argumento de que era preciso simplificar a grafia, em prol de uma mais ampla alfabetização do povo. Mas – este é o ponto – os detractores do actual Acordo não defendem o regresso a 1910. Mesmo os monárquicos…
Ou seja, quem está contra o Acordo em nome da integridade da língua portuguesa – ou, mais exactamente, da sua grafia – passa, consciente ou inconscientemente, por cima do facto de que esta foi sendo alterada por diversas vezes. Por dever de ofício, tenho tido experiência directa disso – tendo digitalizado os “Cadernos” de Agostinho da Silva dos anos 30 e 40, dei-me rapidamente conta de que a ortografia que ele segue nos primeiros já não a mesma que segue nos últimos. Nos primeiros “Cadernos”, por exemplo, a palavra “mãe” aparece com um “i”: “mãi”. Há alguém hoje que escreva ou queira de novo escrever “mãe” assim? Nem, decerto, os velhos republicanos…

IV
Dito isto, tenho a dizer que, se na altura fosse vivo, teria sido contra a Reforma de 1911. Pela mesma primacial razão, de resto, pela qual defendo o actual Acordo Ortográfico.
A Reforma de 1911 foi unilateral – ou seja, realizou-se sem o prévio Acordo com o Brasil. Do que se trata agora, no essencial, passados quase cem anos, é de reunificar a Grafia em todo o espaço lusófono (incluindo a nossa “noiva-irmã” Galiza).
Nessa medida, este é um Acordo sobretudo político – e é também, sobretudo, nesse plano que eu o defendo. É importante, na minha perspectiva, para Portugal e para todos os demais países lusófonos que se chegue, cada vez mais, a um Acordo – desde logo ortográfico. E que depois esse Acordo se estenda aos mais diversos planos…
Replicar-me-ão que, com este Acordo, se perde, nalguns casos, a sustentação etimológica – é verdade, mas essa sustentação já hoje, em muitos casos, não existe.
Replicar-me-ão ainda que este Acordo não unifica realmente a ortografia, dado que, nalguns casos, permite uma grafia dupla – é verdade, mas este foi o Acordo possível. Se este Acordo, que demorou tantos anos a construir, fosse agora derrubado, nunca mais – atrevo-me a dizê-lo – se voltaria a falar do assunto…
Daqui a vinte anos, entrando em vigor este Acordo, o mesmo, de resto, sucederá. Será a nova geração, aquela que crescer a escrever já segundo o Acordo, aquela que enterrará de vez o assunto. Eu próprio, que tanto defendo o Acordo, já sou demasiado velho para isso. E por isso escrevo este texto (e todos os outros) “à antiga”. Sendo ainda jovem, sou já demasiado velho para me “atualizar”.

V
Ainda assim, há casos bem piores. Há quem tenha chegado “demasiado tarde para os deuses e demasiado cedo para o ser”. Essa parece-me ser uma situação bem mais dramática. Talvez, quem sabe, se por aqui me perdoarem esta provocação, vos fale sobre isso numa próxima oportunidade…

Continuando...

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Sem meias palavras: a favor do Acordo Ortográfico (II)

Sempre a Filosofia visou o óptimo, o máximo. Daí o seu Horizonte: o máximo saber. Daí a sua tríade: a Verdade, o Bem e o Belo. É essa a sua marca genética e assim para sempre será enquanto houver Filosofia digna desse nome.
Desde logo por isso, é natural que a um Filósofo como António Telmo repugne, instintivamente, um Acordo. Um Acordo é sempre uma negação, por mais que relativa, desse “máximo”. Mesmo num “óptimo acordo”, há sempre um compromisso, uma cedência.
Para mais, tratando-se, como aqui se trata, de um Acordo Ortográfico. Se há algo que a Filosofia digna desse nome – e, em particular, a Filosofia Portuguesa – sempre igualmente prezou foi o respeito pela Filologia. Esta sempre foi a sua irmã, senão mesmo a sua mãe: “não há filosofia sem filologia”.
Daí, em suma, toda a necessária atenção à etimologia e, nessa medida, à grafia de cada Palavra. É precisamente aqui, contudo, que começam os problemas…

Texto para o segundo número dos "Cadernos de Filosofia Extravagante" (intróito)

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Sem meias palavras: a favor do Acordo Ortográfico.

Quando o António Telmo, na esteira do Pedro Martins, me convidou para colaborar nos CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE, para este número dedicado à “Língua Portuguesa”, logo me pôs completamente à vontade: “Pode defender as suas ideias” – disse-me. E à minha réplica – “eu defendo sempre, em todos os lugares e circunstâncias, as minhas ideias” –, logo concretizou: “Pode defender o Acordo Ortográfico”.

Sorri, lembrando-me do desafio que eu próprio havia feito ao António Telmo para ter colaborado no segundo número da NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI – dedicado não apenas a António Vieira mas também ao “futuro da lusofonia” –, precisamente com um texto contra o Acordo. Isto porque o António Telmo é (muito legitimamente, já lá iremos) contra o Acordo Ortográfico. O António Telmo e, presumo, a grande maioria, senão a totalidade, das pessoas que nesta revista mais regularmente colaboram. O António Telmo, de resto, já foi publicamente interpelado sobre a sua participação no movimento criado em torno da NOVA ÁGUIA, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, dado que este movimento cultural e cívico lançou mesmo uma petição on-line a favor do Acordo Ortográfico. Não apenas em defesa de António Telmo, respondi ao interpelante esclarecendo que o MIL era um movimento plural, com diversas tendências e sensibilidades, e que essa petição lançada relativamente ao Acordo havia sido, de resto, a mais controversa no universo das quase mil pessoas que a esse movimento já aderiram (como se comprovou num Inquérito entretanto realizado).

Lembro isto apenas para justificar a minha aceitação do convite do António Telmo. Ainda que essa aceitação tivesse – tenha – uma outra e maior razão: ao aceitar escrever um texto a favor do Acordo Ortográfico, faço-o em homenagem ao espírito de liberdade que sempre animou a filosofia portuguesa. E que, por isso, habita também, sem qualquer surpresa para mim, nestes “Cadernos”.

domingo, 1 de março de 2009

Para o Colóquio de amanhã: excerto de "Eduardo Abranches de Soveral e a 'filosofia portuguesa'"

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“Vamos directos para a questão filosófica de fundo que estas questões levantam. Trata-se do velho problema de saber se às entidades colectivas e genéricas pode ser atribuída a existência e, consequentemente, os predicados que lhe são próprios.
Se levarmos na devida conta o princípio dos indiscerníveis de Leibniz, haveremos de concluir que só atingem a necessária densidade ontológica para existirem os seres que possuem predicados exclusivos e intransferíveis. E assim só existem verdadeiramente seres espirituais dotados de consciência e liberdade.
Dizer, pois que a Raça [que – salienta ainda Eduardo Abranches de Soveral – não tem para Pascoaes um sentido estritamente biológico e se aproxima muito do conceito de Povo] e a Pátria, possuidoras de alma própria, existem, é certamente uma afirmação excessiva, mas não destituída de sentido. Os colectivos conaturais à condição terrena do homem, e mesmo aqueles que a cultura vai forjando, não são simples nomes ou quimeras mas possuem uma certa consistência ôntica que lhe advém do facto de possibilitarem relações inter-subjectivas que ampliam e enriquecem os homens.”
[1]

Eis a tese que queremos aqui, enfim, salientar: a Pátria amplia e enriquece o universo ontológico dos homens, ela é fonte de mais ser. Poderemos, decerto, renegá-la – a nossa liberdade permite-o, irredutivelmente. Mas isso torna-nos mais pobres, mais vácuos, quase uma pura abstração.
Ora, o homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. A esse respeito, permitimo-nos citar um outro insigne Professor e Filósofo, Francisco da Gama Caeiro: “se admitirmos que o homem é, de algum modo, a sua circunstância – a circunstância orgânica (a par de outras, a família, a sociedade, etc.) é a Pátria”[2].
Em grande medida, essa é igualmente a nossa perspectiva. Julgamos, com efeito, que o homem não é, ou não é apenas, essa “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz organicamente parte, como referiu Gama Caeiro, a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”[3]. Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu ainda Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”[4].
Neste Colóquio de Homenagem a Eduardo Abranches de Soveral, que nos seja permitido este repto final, tanto mais porque este repto é, a nosso ver, fiel ao seu pensamento.

[1] In “Sobre o pensamento político de Teixeira de Pascoaes”, Revista da Faculdade de Letras, Porto, 2004, p. 213.
[2] AA.VV., Ao Encontro da Palavra: homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, FLUL, 1986, p. 40.
[3] Cf., a título de exemplo, Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 19: “Os povos, como nascentes e manifestações terrestres do espírito, têm iniludível fisionomia espiritual, embora esta se configure de modo menos apreensível que o expressivo rosto dos homens singulares.”.
[4] Cf. O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 502.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Da Saudade

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A orientação filosófica de um povo reflecte e faz parte essencial da sua identidade, ainda que obviamente a reflexão filosófica apenas a alguns homens possa despertar, seja ela mais ou menos marcante, mais ou menos considerada, por aqueles que elaboram as Histórias da Filosofia. Se os grandes modelos e os grandes exemplos de orientações filosóficas vêm sobretudo da Alemanha, da França e da Inglaterra, o mesmo não invalida que a reflexão filosófica não aconteça noutros países, mesmo que a possamos ignorar pelas mais diversas razões. Como cultores da filosofia, é do interesse vital o estudo e conhecimento da Filosofia em Portugal, e, quiçá, de uma “filosofia portuguesa” como uma filosofia da saudade ontológica, simultaneamente religiosa e metafísica, pela especificidade que advém da cultura de um povo situado no mundo “onde a terra acaba e o mar começa”, por mais anti-filosófico que esse mesmo povo se possa apresentar.
As características próprias e intrínsecas de uma cultura em si considerada configuram depois o pensamento que se gera no seio dessa mesma cultura, não porque a actividade pensante tenha que acontecer ou se desencadeie por causa da cultura, mas porque esta é o solo no qual ela se pode enraizar e encontrar o seu alimento. Desde logo, uma língua, sem a qual nenhum pensamento se pode erguer.
É o pensamento, a reflexão filosófica que em Portugal ao longo dos tempos se foi desenvolvendo, além da iniludível dimensão filosofante do humano, uma consequência de um determinado modo de ser e estar, em que, entre outras, as características de natureza geográfica e de natureza religiosa assumem decisivo relevo.
Junto ao Atlântico e próximo da entrada do Mediterrâneo, entre a Europa e a África, entre a Europa e as Américas, na zona temperada do Norte, vizinhos da zona tórrida, a cultura portuguesa vai emergindo entre a errância, a itinerância de um povo que para lá da terra, tem o e o céu. Terra, Mar e Céu são, pois, os elementos a partir dos quais podemos em certa medida reflectir no sentido de encontrar algumas explicações fundamentais, tanto na ordem cultural como filosoficamente. Uma certa indefinição e consequente desassossego repartido entre o infinito e o finito, o que somos e não somos, traduzem em grande parte o nosso mais íntimo ser, as nossas inquietações e aspirações mais profundas, com as inevitáveis repercussões, nomeadamente de natureza especulativa, que a nossa filosofia apresenta.
Algumas “teorias da esperança”, onde podemos encontrar significativo contributo para a compreensão do perfil espiritual dos portugueses surgem assim mais compreensíveis no contexto geral. Pode dizer-se que não só para o Messianismo, Sebastianismo e Saudosismo, como até para a questão do Quinto Império, que, sobretudo a partir de Padre António Vieira, ganha maior importância, com o messianismo formulado nas Sagradas Escrituras relativo ao Messias Salvador, assim como com a ideia de pecado original, mal e, obviamente, com a ideia de Deus e de morte, pontos matriciais de forte influência não só para estas “teorias da esperança”, como também ideias-noções nucleares das problemáticas fundamentais de grande parte dos filósofos portugueses, intitulem-se eles deístas, agnósticos ou ateus.
Esperança em algo ou nalgum redentor de uma humanidade considerada degradada, quedada ou perdida, seja porque caiu da sua condição original, porque cometeu pecado, porque perdeu a sua natureza sagrada, a sua felicidade, bondade, verdade, sabedoria e até identidade (política ou outra), a cultura portuguesa e a seu modo a filosofia em Portugal está fortemente ligada a estas dimensões da esperança, podendo também traduzir-se a seu modo como dimensões da Saudade.
Será também de referir a tendência de alguns pensadores portugueses que se voltaram para o estrangeiro – daí o nome de “estrangeirados”, como vieram a ser designados a partir do séc. XVIII (como é o caso de Verney) –, procurando adaptar alguns paradigmas apreendidos lá fora à realidade portuguesa (“reino cadaveroso”), ou, noutros casos, pretendendo mesmo moldá-la.Não pretendendo identificar Filosofia e Cultura, ou reduzir a “Filosofia em Portugal” à “Filosofia da Cultura Portuguesa”, no caso português, como noutros, é importante que, para uma melhor compreensão do nosso pensamento filosófico, tenhamos em consideração aquelas que poderão ser as marcas mais relevantes da nossa Cultura. Daí a matriz da nossa filosofia: uma filosofia muito radicada no sentimento, em particular na Saudade.

Maria Celeste Natário

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eduardo Abranches de Soveral e a ‘filosofia portuguesa’

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(resumo da comunição a apresentar no Colóquio de Homenagem a Eduardo Abranches de Soveral, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2 e 3 Março)

Num seu ensaio, intitulado “Pensamento luso-brasileiro”, escreveu Eduardo Abranches de Soveral o seguinte:
“(…) a história da filosofia portuguesa é, em meu entender, a história dos pensadores que equacionaram, desenvolveram e (ou) sistematicamente pretenderam solucionar filosofemas nascidos da tradição nacional, ou nela inscritos pelas suas consequências. E assim, em termos práticos de metodologia da história das ideias, convirá: a) partir do estudo dos autores e das obras sem preconceitos críticos ou interpretativos; b) integrá-los no respectivo contexto histórico e sociológico, marcando a sua originalidade e fecundidade; c) analisar-lhes, respectivamente, a exigência e a estrutura gnosiológica para aquilatar da sua qualidade filosófica; d) elaborar, por último, largos quadros sintéticos onde os vários autores e as suas obras mutuamente se situem, e seja possível conhecer a fisionomia peculiar do pensamento filosófico nacional.
Só isso permitirá que a inteligência portuguesa tome nítida consciência da sua identidade, e possa participar, na plenitude das suas potencialidades, na génese da nova teologia, do novo humanismo, da nova cosmovisão, da nova cultura, enfim, que a era tecnológica urgentemente exige.”

Eis uma excelente síntese da tarefa que cabe a todos nós – cultores da “filosofia portuguesa” – cumprir. E da tarefa que, ao longo da sua fecunda vida, o próprio Eduardo Abranches de Soveral exemplarmente cumpriu.
Ao lermos os seus múltiplos ensaios, emerge, desde logo, o seu perfil genuinamente filosófico. Ao invés de todos aqueles que, na esteira de Marx, procuram, precipitadamente, transformar o Mundo e o Homem, antes de o procurar compreender, Eduardo Abranches de Soveral procura sobretudo antes compreender – e daí, com efeito, o seu perfil genuinamente filosófico.
Não que essa compreensão o leve depois, enfim, a uma paralisia. Se, ao compreendermos o Mundo e o Homem, percebemos que o Homem e o Mundo não serão substancialmente transformáveis, nem por isso o Mundo e o Homem deixam de ter uma margem de progressão. Uma larga margem.
Daí que essa compreensão filosófica leve, coerente e consequentemente, a uma praxis. Não a uma praxis ingenuamente revolucionária, que vise transformar o que não é transformável, mas uma praxis lucidamente reformista – que reforme, que melhore, o que pode e deve ser melhorável.
Não por acaso, um dos filósofos que Eduardo Abranches de Soveral mais valorizou foi Agostinho da Silva. Não por acaso porque Agostinho da Silva foi, precisamente, um dos filósofos portugueses que mais correspondeu ao seu repto: “[que] a inteligência portuguesa tome nítida consciência da sua identidade, e possa participar, na plenitude das suas potencialidades, na génese da nova teologia, do novo humanismo, da nova cosmovisão, da nova cultura, enfim, que a era tecnológica urgentemente exige”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A ler, a ter...

Joaquim Domingues
TEOREMAS DE FILOSOFIA

Com a indicação programática inscrita em cada fascículo de se tratar de um ‘Caderno semestral de filosofia portuguesa’, vieram a lume (da Primavera de 2000 ao Outono de 2005) doze números dos Teoremas de Filosofia. Já pela cronologia se vê que a intenção foi a de lançar uma ponte que ajudasse a vencer a usura do tempo, que então se abria para novo ciclo centenar e milenar. O que se fiava da oportunidade para ligar as gerações em presença e favorecer as que se esperava viessem a tomar a seu cuidado a prossecução da via aberta.
Com efeito, desde o número inicial, que abriu com os textos de António Telmo, Dalila Pereira da Costa, Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira e Orlando Vitorino, os mais novos assumiram a sua responsabilidade, que mantiveram até ao derradeiro fascículo. O índice geral, publicado no n.º 12, mostra como foi amplo (em função das dimensões da publicação) o leque dos colaboradores e diversificados os temas. Sendo certo que, por não depender de instituição alguma (salvo o apoio da Fundação Lusíada que, a partir de certa altura, adquiriu com regularidade um bom número de exemplares), nunca se guiou por outra norma se não a do livre pensamento.
Cumpre acrescentar que a missão de ligar as pessoas e reanimar o movimento da tradição resultou tão sem esforço como o título, tomado dum exemplar, que me oferecera Afonso Botelho, da revista aparecida em 1969 (já lá vão quarenta anos) e que não passara do primeiro número. Continha apenas um texto seu ― «Apologia do mestre» ― e outro de Orlando Vitorino ― «Notas contra a degradação do espírito» ―; sendo por isso deste último (desaparecido o primeiro Amigo) que recebi autorização expressa para usar o título, que se filiava no de outras publicações, assaz valiosas, saídas com a chancela dos Teoremas de Teatro. Faz agora dez anos que a nova série dos Teoremas de Filosofia começou a ser preparada; e se teve melhor sorte na duração (doze números em seis anos) pouco se terá avantajado no acolhimento suscitado, pois, mantendo a mesma tiragem da primeira série, 500 exemplares, muitas dezenas deles continuam à espera de leitor interessado[1].
Então os promotores alegavam querer evitar «a sonoridade da propaganda habitual às publicações», por entenderem que ela «se não coaduna com a tranquila e discreta reflexão, espelho da verdade que ‘não tem pressa’». Se tem ou não é questão que mal saberíamos dirimir, pois nos falta a ousadia para falar em nome da verdade. Que a quem a busca e ama todo o tempo parece demasiado para a ver brilhar, eis o que afoitamente se pode asseverar.


[1] Caso esteja interessado em adquirir exemplares desta revista, poderá enviar-nos um e-mail: novaaguia@gmail.com

Em Março...

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No dia 21 de Março, sábado, pelas 15:00, é lançado na Biblioteca Municipal de Sesimbra o primeiro número dos “Cadernos de Filosofia Extravagante”.

Os “Cadernos de Filosofia Extravagante” são uma publicação não-periódica da Serra d'Ossa Edições, que conta com a colaboração de diversos autores.

Além da edição da revista, este projecto contempla ainda um blogue, a que pode aceder em

www.filosofia-extravagante.blogspot.com

Para o primeiro número da revista está já confirmada a participação de

Alexandre Teixeira Mendes,
António Carlos Carvalho,
António Telmo,
Cynthia Guimarães Taveira,
Elísio Gala,
Isabel Xavier,
Luís Paixão,
Maria do Resgate Almadanim,
Paulo Guerreiro dos Santos,
Pedro Martins,
Pedro Paquim Ribeiro,
Pedro Sinde,
Rodrigo Sobral Cunha e
Tiago Sobral Cunha.


O desenho da capa é da autoria de Carlos Aurélio.

O interior da revista tem ilustrações de Cynthia Guimarães Taveira e fotografia de Tiago Sobral Cunha.


SERRA D'OSSA EDIÇÕES

Visite a nossa página em

www.serra-dossa.blogspot.com

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre a filosofia portuguesa...

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(…) a história da filosofia portuguesa é, em meu entender, a história dos pensadores que equacionaram, desenvolveram e (ou) sistematicamente pretenderam solucionar filosofemas nascidos da tradição nacional, ou nela inscritos pelas suas consequências. E assim, em termos práticos de metodologia da história das ideias, convirá: a) partir do estudo dos autores e das obras sem preconceitos críticos ou interpretativos; b) integrá-los no respectivo contexto histórico e sociológico, marcando a sua originalidade e fecundidade; c) analisar-lhes, respectivamente, a exigência e a estrutura gnosiológica para aquilatar da sua qualidade filosófica; d) elaborar, por último, largos quadros sintéticos onde os vários autores e as suas obras mutuamente se situem, e seja possível conhecer a fisionomia peculiar do pensamento filosófico nacional.
Só isso permitirá que a inteligência portuguesa tome nítida consciência da sua identidade, e possa participar, na plenitude das suas potencialidades, na génese da nova teologia, do novo humanismo, da nova cosmovisão, da nova cultura, enfim, que a era tecnológica urgentemente exige.”
[1]

Eduardo Abranches de Soveral

[1] In “Pensamento Luso-Brasileiro”, Pensamento Luso-Brasileiro: estudos e ensaios, Lisboa, Instituto Superior de Novas Profissões, Lisboa, 1996, p. 17.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Pedra, a Estátua e a Montanha ou da actualidade do V Império

"[...] o título deste livro consagra os três símbolos fundamentais do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, decerto o texto central do imaginário quinto-imperial, vieirino e não só : a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze e pernas de ferro, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha”, que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Esta narrativa visionária é susceptível, como tudo o que é simbólico, de uma multiplicidade inesgotável de leituras, consoante as inclinações e níveis de compreensão dos intérpretes. Dela se pode em geral dizer que, abatendo e dissipando o gigantesco ídolo de pés de barro - símbolo de uma realidade aparentemente total e invencível, mas na verdade parcial e extremamente frágil no seu fundamento e composição, interpretada tradicionalmente e por Vieira como os quatro impérios e poderes civilizacionais histórico-mundanos, e interpretável como figura de todas as falsas e frágeis construções humanas, mentais e materiais - , a pedra, figura do Messias, do Cristo ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da plenitude e da verdadeira totalidade e universalidade ou do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência. A moral da história da pedra que pulveriza a estátua e se converte em omni-abrangente montanha, é que a imprevisível e espontânea irrupção do que parece mínimo e insignificante faz na verdade evanescer o que parece máximo, sólido e perene, convertendo-se por sua vez na verdadeira integralidade e totalidade, ao contrário da estátua, que por mais monumental era apenas um ente parcial, composto e localizado.
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo?"

- excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado 4ª feira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa)

domingo, 2 de novembro de 2008

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - X

Império

Império é toda a vacante e gloriosa irradiação do sem quê, porquê ou para quê de ser possível haver alguma coisa e o nada que nem sequer o é. Império é a esplendorosa nudez de tudo e da consciência de a haver. Império é a sempiterna pujança da desmesura das coisas. Da nossa desmesura. Da desmesura de estarmos aqui, na infinita fragilidade de não sermos mais que Infinito.
No Império radica todo o poder, o poder do infinito poder ser, como na impotência radica todo o desejo de poder ou aquele poder aparente que não é mais do que submissão ao desejo de dominar. O poder, ou seja, a escravidão, pelo qual se luta. Pelo qual se mata e morre.
Mas o Império não é deste nem doutro mundo. É o próprio mundo antes de o haver, antes de o imaginarmos algo e a nós alguém, pura e ilimitada virtualidade sem sujeitação-objectação possível. Por isso não tem Imperador e está repleto deles. Cada um dos fenómenos e instantes de percepção o é. Porque tudo, a cada instante, é original, perfeito e puro. Sagrado.
Mesmo a inconsciência de o ser.

É por isso que, Agora e Sempre, e por sermos nevoeiro:

É a Hora !

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - IX

Amor

O Amor descobre-se na metamorfose do desejo que, querendo tudo, pode sentir que afinal nada lhe falta, nem o nada. E assim morre, saciado antes de comer. Como moribundo que no derradeiro momento vê que nunca realmente existiu. E o não carecer torna possível tudo e todo se dar. Como a Origem, que esplende imparcialmente, ou seja, íntegra e total, em todas as coisas. Que nem sequer ama, pois é Amor. Abertura primeira e natural, nudez esplendorosa que em si tudo irmana e coliga.
Só por amor se a descobre e só por amor tem sentido o regresso. O regresso sem retorno a todas as pátrias abandonadas. Enquanto nelas houver quem não tenha feito a viagem. Enquanto nelas houver quem não haja ressuscitado no antes de haver nascimento e morte. Enquanto houver saudade sem força para que se mate. Enquanto in-ex-istir alguma coisa. Enquanto houver pátrias, ou seja, apego a acampamentos na vastidão do Infinito que a cada momento se não levantem para ir mais além.
Só por amor, que é levar todos a fruírem o Tudo-Nada que se descobre, faz sentido falar de razões, sentidos e fins. Estratégias e ardis para levar os sedentários a fazerem-se ao mar-oceano de si mesmos. Jangadas, frágeis barcas que o mar se encarregará de devorar, sorvendo a todos a pique para o sem fundo e sem princípio nem fim de tudo.
Só por amor, e só por Amor, há Império.