EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Apresentação da NOVA ÁGUIA 23

Apresentação da NOVA ÁGUIA 23
27 de Abril, na Associação Caboverdeana de Lisboa (para ver o vídeo, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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sábado, 22 de fevereiro de 2014

De António Braz Teixeira, para a NOVA ÁGUIA 13 | A Ética Dialéctica de António José de Brito



Cinco se afigura serem as linhas reflexivas que caracterizam o pensamento ético português contemporâneo: a de matriz neo-tomista, desenvolvida, na Faculdade de Filosofia de Braga, por Lúcio Craveiro da Silva (1914-2008) e Roque Cabral (1929), a neo-utilitarista, em que se destacam Edmundo Curvelo (1913-1955) e, sobretudo, Mário Sottomayor Cardia (1941-2006), a que parte da fenomenologia, cujo máximo expoente foi Eduardo Abranches de Soveral (1927-2003), a que se inspira no pensamento existencial, de que a recente Ética (2010) de Luís Araújo (1946) é o melhor exemplo e a de cariz dialéctico, que encontrou no pensamento filosófico de António José de Brito (1927-2013) a sua mais acabada expressão.

Figura destacada da geração pensante que começou a afirmar-se na década de 50 do século findo, ao lado de especulativos como Afonso Botelho (1919-1996), Orlando Vitorino (1922-2003), António Quadros (1923-1993), Eduardo Lourenço (1923), José Enes (1924-2013), Eduardo Abranches de Soveral ou António Telmo (1927-2010), o portuense António José de Brito, falecido em 21 de Setembro passado, legou-nos uma obra especulativa de invulgar vigor reflexivo, coerência interna e rigor conceitual, em que, a par da noção principial de insuperável, da conceituação da dialéctica, de um exigente conceito de razão e de uma aturada defesa do idealismo, em estreito diálogo crítico com o realismo gnosiológico de A. Miranda Barbosa (1916-1973), ocupa lugar fundamental a problemática ética, filosófico-jurídica e filosófico-política, que soube abordar, sempre, com corajosa independência intelectual e rara capacidade argumentativa.
No que à reflexão ética diz respeito, além de ter constituído o tema do relatório que apresentou, em 1986, para as provas de agregação em Filosofia e onde se acha a mais acabada sistematização que dela nos deixou, texto que, infelizmente, permanece inédito, foi objecto de diversos ensaios, estudos e artigos, reunidos em vários dos seus livros, desde os juvenis Estudos de Filosofia (1962) até ao Esboço de uma Filosofia Dialéctica (2005), amadurecida síntese do seu sistema de pensamento (...)

(excerto)

sábado, 21 de setembro de 2013

Filósofo António José de Brito morreu hoje no Porto

O filósofo António José de Brito, considerado um dos maiores pensadores portugueses do século XX, morreu hoje (21 de Setembro) aos 85 anos na sua casa no Porto, disse à Lusa fonte da família.
Professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi considerado "um dos maiores pensadores portugueses vivos" na década de 1990 por António Braz Teixeira, então presidente da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, instituição que publicou quatro livros do filósofo ((Razão e Dialéctica, 1994; Valor e Realidade, 1999; Esboço de uma filosofia dialéctica, 2005; Ensaios de Filosofia do Direito e outros estudos, 2006). A sua obra mereceu também elogios de outros pensadores portugueses, como Eduardo Lourenço.
Em 2008, numa edição da Zéfiro (Colecção NOVA ÁGUIA), apoiada pelo Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, António José de Brito foi alvo de um livro de homenagem sob a coordenação de António Braz Teixeira, Celeste Natário e Renato Epifânio (Harmonias e Dissonâncias: estudos sobre o pensamento filosófico de António José de Brito, 2008), resultante de um colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, de que era sócio. Foi também na Colecção NOVA ÁGUIA que publicou a sua última obra: Aporias do ponto de partida da Filosofia (2012). Na revista NOVA ÁGUIA publicou ainda alguns textos nestes últimos anos.
O corpo de António José de Brito estará em câmara ardente na Igreja das Antas, Porto, seguindo na segunda-feira às 15:00 para o cemitério do Prado do Repouso, na mesma cidade, onde vai a enterrar.


Fonte: Lusa/SOL

domingo, 4 de novembro de 2012

PREFÁCIO D' AS APORIAS DO PONTO DE PARTIDA DA FILOSOFIA, DE ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO



No presente ensaio, António José de Brito regressa aos dois temas nucleares da sua reflexão, de que são marcos públicos mais significativos, se bem que ainda não devidamente atendidos na nossa mais exigente vida cultural, os volumes Estudos de Filosofia (1962), Le point de départ de la Philosophie et son développement dialéctique (1979), Para uma Filosofia (1986), Razão e Dialéctica (1979), Introdução à Filosofia do Direito (1995), Valor e Realidade (1999), Esboço de uma Filosofia Dialéctica (2005) e Ensaios de Filosofia do Direito e outros estudos (2006).
Destes temas ou problemas, o primeiro é aquele que dá o título a este breve e rigoroso estudo, problema a que o pensamento do filósofo portuense tem procurado responder através do aprofundamento da noção principial de insuperável que, formulada, pela primeira vez, na tese de doutoramento que, em 1979, apresentou à Universidade de Montpellier, encontrou, depois, mais aprofundado tratamento e desenvolvimento, agora na nossa língua, em algumas das obras atrás referidas, designadamente nas que deu à estampa em 1994 (reproduzindo um longo ensaio anteriormente publicado na Revista Portuguesa de Filosofia), 1995 e 2005, enquanto o segundo, com ele estritamente conexo, o do idealismo ou da opção especulativa por uma solução idealista do problema do conhecimento, tem definido e singularizado, desde o início, a sua atitude filosófica, encontrando-se na base do diálogo crítico que, de há muito, vem mantendo com o pensamento de A. Miranda Barbosa (1916-1973), bem como os reparos que não deixou de fazer às posições gnosiológicas de Leonardo Coimbra (1883-1936) e António Sérgio (1883-1969), em seu entender imperfeitamente idealistas, por admitirem ambas uma realidade fora do pensamento ou a ele contraposta.
Para o mestre portuense, qualquer demanda especulativa que pretenda alcançar algo que se apresente como firme e sólido carece de partir do que, de si, se configure como um começo absoluto que de nada dependa, revestindo-se, por isso, de um carácter principial ou primeiro. Deste modo, o ponto de partida do pensar terá, necessariamente, de ser uma noção básica de que todas as demais decorram, sendo, nesta medida, secundárias ou derivadas em relação a ela. Porque é, assim, sempre algo necessário e universal, o ponto de partida não pode deixar de ser um único, inconcebíveis sendo múltiplos ou diversos pontos de partida.
Daí que António José de Brito pense só poder constituir verdadeiro ponto de partida do pensar o que se apresente como insuperável, entendido este como o primeiro princípio, de que todos os outros dependem e não podem deixar de pressupor ou admitir.
Assim, para o antigo professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, esse ponto de partida ou fundamento radical ou primeiro de todo o pensar terá de ser algo que se apresente e possa ser afirmado como inegável, indubitável, insusceptível de ser “colocado entre parêntesis”, auto-demonstrado e unidade na diversidade, tanto como desenvolvimento lógico como dialéctica entre opostos, unidade que põe o seu oposto e o supera.
Este conjunto de atributos que o ponto de partida deverá reunir em si para revestir, verdadeiramente, o carácter de insuperável primeiro princípio que de nada depende e de que tudo o mais queda dependente, segundo o exigente pensamento do autor de Razão e dialéctica, não se encontra na maioria das noções que, amiúde, têm sido consideradas ou pensadas como ponto de partida, pois, segundo ele, não podem constituir verdadeiros pontos de partida do pensar filosófico ou da Filosofia nem a linguagem nem noções com a de ser ou de cogito, nem o pensamento impessoal, a experiência ou a evidência, dado todas constituírem, de algum modo, noções ou realidades segundas ou derivadas.
Por outro lado, se, como acima se notou, o ponto de partida terá de ser algo, simultaneamente, necessário e universal, cumpre ter em conta, que, para o especulativo portuense, o universal se configura, necessariamente, como a unidade que tudo abrange e que, por isso, não pode deixar de conter em si o múltiplo e o variado, o mesmo é dizer que a unidade e o universal contêm em si, de diversas e múltiplas maneiras, o múltiplo e o particular, já que, se o não contivessem, não seriam, de modo autêntico, universalidade do múltiplo.
Para António José de Brito, a unidade do universal não é uma unidade estática mas uma unidade dinâmica, porquanto a ela preside ou nela está ínsita a luta, em que, como escreve o nosso filósofo, “pelo menos idealmente, é vitoriosa a unidade e em que jamais conseguem triunfar as variadas espécies em composição, seja de que maneira for, embora a luta, em compensação, nunca cesse”. Para o mestre portuense, este combate incessante, esta imobilidade nunca alcançada, esta vitória jamais definitiva constituiriam a dialéctica do real, dialéctica eterna em que a não-verdade em momento algum logra triunfar, já que a verdade sempre se mantém, deontologicamente, vencedora.
Daqui decorreria, então, ser dialéctico o ponto de partida, o qual, do mesmo passo, não poderá deixar de ser universal, visto que não só põe os particulares como os absorve em si, só sendo verdadeiro universal quando é tudo, mas é tudo unicamente quando contém aquilo que não é directamente ele. Assim, para António José de Brito, o universal, como ponto de partida, é a síntese do mesmo universal com o que se lhe opõe e nele se integra.
Adverte, contudo, o autor de Valor e Realidade, que a existência do universal só é possível se houver não-contradição, a qual, se, por um lado, constitui condição necessária do universal, por outro, só no universal encontra aquilo que lhe confere realidade, vindo esta recíproca implicação a ser o que dá corpo ao ponto de partida, na sua universalidade.
Nota, ainda, o filósofo que cumpre atender a que o universal, sendo embora tudo, o não é da maneira mais repetitiva, porquanto “há o que se opõe directamente e directamente é superado até ao que se aproxima em extremo do universal e se integra nele de maneira quase imediata”. Deste modo, o autêntico universal é universal por envolver ou implicar também o particular, pois o universal só o é, verdadeiramente, quando põe frente a si o mesmo particular, visto que, de outro modo, viria a confundir-se com ele. O mesmo é dizer que o universal envolve em si os seus opostos e que estes se inserem nele, na sua luta e na sua superadora unificação.
Com efeito, não só a dialéctica implica ruptura, se bem que constantemente ultrapassada, como a unidade inclui, sem a destruir, a variedade que com ela luta, sem lograr nunca aniquilá-la. Assim, como recorda o nosso autor, a dialéctica envolve liberdade e não liberdade reunidas ou unificadas numa síntese, “numa vitória eterna que, de várias maneiras, é ultrapassagem do inimigo, sem jamais ser a sua radical supressão”.
Neste processo intérmino, a unidade constitui o valor que, através de diversas e inesperadas formas, vai pondo o que é diverso e fazendo-o de modo também diverso, “desde a auto-superação do oposto até ao esforço do mesmo para se afirmar sem possível êxito exclusivamente numa oposição fora da unidade”.
Mas porque o valor é, por si, dever-ser, a unidade do múltiplo vem a ser valor que é dever-ser, que, no entanto, não logra alcançar completamente a sua plenitude e nem sempre se mantém de modo imutável.
Se, como vimos, para António José de Brito, o ponto de partida só pode ser o universal e se este contém tudo, o universal não pode deixar de ser o pensamento, visto que situar algo fora do pensamento é, necessariamente, ainda pensá-lo e, logo, colocá-lo no mesmo pensamento, o qual, sendo unidade, possui uma dialéctica, que é a sua própria realidade e na qual a ontologia não pode deixar de implicar uma axiologia e esta uma ontologia.
Daqui decorreriam, então, duas decisivas conclusões: a de que teoria e prática vêm a constituir uma unidade dialéctica e a de que, sendo tudo pensamento, este terá de conter, necessariamente, tudo o que se apresenta como não-pensamento, dado que, se não contivesse o seu oposto, carecia de verdadeira universalidade, a qual se configura aqui como uma dialéctica da universalidade com a pluralidade.
A ser assim, imperioso será concluir, então, que o realismo filosófico é, necessariamente, obra do pensamento, ficando, do mesmo passo, resolvida a favor do idealismo a velha querela que opões este àquele.
Deste modo, para o especulativo portuense, o idealismo apresenta-se como a doutrina da universalidade do pensamento, segundo a qual não há nada que seja de natureza diversa do pensamento, pois todas as coisas são pensamento.
Reconhece, no entanto, o nosso autor que o idealismo, enquanto doutrina da universalidade do pensamento, só será confirmada como válida se o mesmo pensamento abranger ou incluir o que se põe como oposto à primazia do pensamento, uma vez que pôr o oposto constitui o modo de superá-lo, pois, nesse caso, a universalidade estará a assumir-se como universalidade, ao não deixar nada fora de si, tudo dominando.
Ora, o pensamento é a realidade em si porque consegue abranger qualquer pretensão dele se colocar como não-pensamento, apresentando-se o idealismo como o pensamento de si próprio consciente e, nessa medida, “vencendo as oposições que ele próprio suscita em si, como melhor meio de provar que acima dele nada há”, pois, ao suscitá-las, prova a sua infinitude, realizando-a.
Deste modo, para o filósofo do Porto, tudo o que se opõe ao idealismo mais não será do que um idealismo que se ignora, um idealismo imperfeito, um pensamento que não logrou ainda alcançar a sua plenitude.
Diversamente, a concepção idealista, tal como António José de Brito a pensa, não é uma adequação ou uma correspondência do pensamento com algo diverso dele que seja o real, mas, pelo contrário, uma concepção segundo a qual o pensamento é a própria realidade, nada existindo fora dele, concepção que, por isso, se põe, imediatamente, como a verdade, como a insuperabilidade.

António Braz Teixeira
Setembro de 2012

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Para um dos próximos volumes da Colecção NOVA ÁGUIA

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NOTA SOBRE O APARECIMENTO DA FENOMENOLOGIA EM PORTUGUAL


António José de Brito


Como diria, com irresistível lógica M. de la Palisse, para classificarmos um filósofo como fenomenólogo, precisamos de ter uma noção adequada de fenomenologia.
Talvez nos objectem que isso é impossível, porque todas as noções são convencionais, ou até, mais simplesmente, porque tudo é convencional. Ponhamos de lado, porém, tal ponto de vista, que se destrói a si próprio, porque, se tudo é convencional, então podemos convencionar que o convencional é anti-convencional, acontecendo, assim, que “tudo é convencional” se transforma no seu oposto, aniquilando-se a si mesmo.
Se, portanto, não é impossível estabelecermos a noção de fenomenologia, não podemos deixar de reconhecer que a tarefa é difícil. Basta recordar, por exemplo, que Spiegelberg, na sua conhecida obra “The Phenomenological Movement”, abrange autores tão variados que vão de Franz Brentano e Merleau-Ponty.
Então que critério vamos utilizar para estabelecer o verdadeiro conceito de fenomenologia? Usaremos um critério meramente nominal, isto é, consideraremos fenomenologia aquilo que como tal for denominado ou auto-denominado? Nessa altura, bastará que um autor se proclame, ou seja chamado fenomenólogo, para ser genuinamente adepto da fenomenologia. Esta será considerada como englobando as concepções de todos os autores que se classifiquem ou sejam classificados de fenomenólogos. Simplesmente, acontecerá, então, que a fenomenologia abarcará as coisas mais díspares ou mais afastadas entre si, não passando de um flatus vocis.
Recorrendo a um exemplo, diremos que, no § 7 de “Sein und Zeit, Heidegger afirma que vai recorrer, na sua investigação ontológica, ao método fenomenológico de Husserl, a quem se refere muito elogiosamente em notas.
Acontece, todavia, que se examinarmos as concepções de Husserl e de Heidegger, verificaremos que estão bem longe de se mostrarem próximas ou patentearem afinidades em pontos fundamentais.
Julgo que a filosofia de Husserl (e de Scheler) tem dois momentos capitais: 1) a redução, isto é, o afastamento de todo o pre-conceito ou pre-juízo, o banimento daquilo que seja aceite previamente ao estabelecer-se uma tese considerada básica; 2) depois de feita a redução, só aceitar então o que aparece de forma directa, mediata, intuitiva, ou seja, o fenómeno puro numa experiência que podemos considerar a priori porque não assenta no que é dado a um sujeito corpóreo que o apreende através de sensações. Ora, não vemos em Heidegger nem a redução nem o dado intuitivo e directo, numa palavra, o que se assemelha essencial em Husserl.
Talvez se me objecte que Heidegger invoca a tese husserliana de dirigir-se às coisas mesmas (zu den Sachen selbst), isso bastando para merecer o título de fenomenólogo. Em todo o caso, o dirigir-se às coisas mesmas não é o equivalente à redução e ao intuicionismo, juntando-se a isto que o próprio Heidegger indica que dirigir-se às coisas mesmas pode significar a atitude própria de toda a espécie de investigação e não caracterizar, unicamente, a atitude fenomenológica. E parece-nos que é de adoptar semelhante observação, pois o materialismo pretende atingir as coisas mesmas, ou o idealismo igualmente, ou o espinosismo, e assim por diante.
Quer isto dizer que, apesar das suas declarações, a perspectiva do autor de “Sein und Zeit” está bastante afastada de Husserl (e de Scheler). E se estes são representantes típicos da fenomenologia, não supomos que os pensadores que perfilhem concepções divergentes mereçam ser qualificados de adeptos da fenomenologia.
Chamamos a atenção para o seguinte ponto: não pretendemos lançar um veto absoluto para o emprego do termo fenomenologia em sentido diferente daquele que é usado por Husserl e Scheler. A linguagem possui um mínimo de convencionalidade. Desde que se forneçam os devidos esclarecimentos, não há dúvida que é lícito dizer que filosofemas bem afastados dos pensadores que referimos – e que, unanimemente, ou quase unanimemente, são proclamados fenomenólogos – podem ser classificados como tal, embora, seja dito entre parêntesis, só se contribua para espalhar confusões, tal como só serve para estabelecer confusões baptizar a monarquia de democracia, ainda que acentuando que não se pretende que aquela seja o governo do povo pelo povo.
Tendo procedido a esta breve e, como tal, imperfeita anotação acerca do que representa a fenomenologia, passemos então a indicar de que modo foi surgindo a fenomenologia no nosso país.
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Entendemos que o primeiro fenomenólogo português foi Luís Cabral de Moncada em “Do Valor e Sentido da Democracia”, obra que se apresenta como “conclusão de uma série de reflexões sobre o mesmo tema ocorridas numa troca de impressões no ano de 1929 com o ilustre escritor António Sérgio” .
Esta troca de impressões girou, fundamentalmente, sobre a possibilidade do dever-ser poder ser extraído da experiência sensível da ciência positiva. Sérgio considerava impossível derivar normas dos factos, negando, em princípio, a existência duma autêntica ciência política ou, se quisermos, ético-política. Moncada, ao invés, abertamente invocava ensinamentos normativos da ciência social com base na experiência sensível factual. Ora, semelhante ponto de vista é rectificado em “Do Valor e Sentido da Democracia”. Leia-se antes de mais nada, a seguinte nota : “…se tomarmos a experiência no sentido lato da experiência imanente, de experiência no sentido fenomenológico da palavra, abrangendo a própria intuição das essências, então não será difícil achar também um fundamento “empírico” latu sensu para a nossa preferência dada aos valores da personalidade como os mais elevados. Não podendo entrar aqui em desenvolvimentos, limitamo-nos a dizer que reputamos os valores da personalidade os mais altos de todos… É numa experiência, desse modo entendida, que se funda a nossa preferência pelo personalismo como atitude inicial, a mesma sobre que os fenomenologistas fundam a ciência moral, como por exemplo Max Scheler, ao dizer que “jede Art von Erkenntnis wurzel in Erfahrung und auch dis Ethik muss sich auf Erfahrung gründen (todo o conhecimento se funda na experiência e a moral deve também fundar-se na experiência)”.
Aludindo à experiência imanente como própria da fenomenologia, Moncada usa a expressão de Scheler quando esclarece que “a experiência fenomenológica é experiência puramente imanente” .
Experiência puramente imanente é, parece-me óbvio, a que não assenta em pressupostos, logo firma-se numa redução que permite a apreensão directa e imediata do que é.
Porventura, observar-nos-ão que Moncada fala em empírico lato sensu, o que é muito pouco fenomenológico. Replicaremos que o contrário é que possui verdade. Com efeito, Husserl não deixa de afirmar que “o naturalismo empirista procede – devemos reconhecê-lo – de motivos estimáveis” , ao passo que Scheler sublinha que há um sentido em que é possível considerar “a filosofia fenomenológica um empirismo e um positivismo de tipo radicalíssimo” , usando precisamente a expressão que Moncada utiliza: “experiência imanente”.
Acentuemos que a influência de Scheler sobre Moncada foi assaz patente, pois se aquele caracteriza o seu personalismo como expressão duma “ordre du coeur” diferente da razão, Moncada igualmente entende que a concepção correcta de pessoa não é a racionalista, ambos entendendo que o Estado não deve sobrepor-se à personalidade ou tentar que esta se identifique com ele. Explicitando o seu pensamento, Scheler traça as seguintes linhas: “não consigo ver mais do que uma imensa banalidade e uma simplificação infantil dos problemas na confrontação, que ainda se encontra em muitos investigadores de importância, entre o individualismo – falso, na sua opinião – da interpretação liberal, mecânica do Estado, com a interpretação universalista orgânica. Nesta última, o Estado é uma coisa – bem supra-individual, a que o indivíduo deve fazer toda a espécie de sacrifícios. Digo o mesmo da nossa interpretação alemã do Estado como herança dos antigos. Toda a interpretação ‘antiga’ do Estado foi eliminada de uma vez para sempre por Jesus” . Por sua vez, Moncada assevera: “A personalidade não é também fim de si mesma. Está, por sua vez, subordinada, nos seus valores, à vontade de Deus para glória do qual foi criada. Logo, trans-personalismo, não trans-personalismo político ao serviço dos valores da comunidade à moda do Estado pagão, que Cristo destruiu para sempre, ou do moderno Estado totalitário” .
Como se vê, há até emprego de expressões idênticas ou quase, prova de uma influência vincada e indiscutível.
E agora uma observação indispensável. Se recorremos, até aqui, unicamente a passagens de “Do Valor e Sentido da Democracia”, isso não permite concluir que o contacto com a fenomenologia foi apenas um entusiasmo passageiro de Cabral de Moncada. Com efeito, ele, daí por diante, continuou a seguir as orientações fenomenológicas, como o demonstram v.g. os notabilíssimos trabalhos “Sobre Epistemologia Jurídica” (1943) “Do conceito e essência do político” (1961).
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Em 1939, foi defendida, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelo assistente Garcia Domingues, uma tese de doutoramento (de cujo infeliz destino não falaremos) que se apresentava nestes termos: “este trabalho… insere-se, no entanto, de certo modo, na produção da fenomenologia que, de origem ciência alemã, começou a encontrar em Portugal, como em todo o mundo, cultivadores entusiastas” . E cita, entre nós, e muito bem, Cabral de Moncada.
A tese em causa mostra um forte esforço reflexivo e uma ampla cultura. É pena que esteja maculada por extravagâncias que a desvalorizam. Assim, à pergunta o que é a filosofia, responde que está reduzida “a um conjunto de disciplinas mais ou menos experimentais” que são “a psicologia, a lógica, a teoria do conhecimento, a ética, a teoria da concepção da vida e do mundo, a estética, a filosofia da religião, a filosofia da sociedade, a filosofia da economia, a filosofia da história, a metafísica” .
Ora, por um lado , distingue e separa ciência e filosofia e, por outro lado, na caracterização da filosofia, inclui espécies de filosofia, o que é um círculo vicioso manifesto. Mas deixemos esta índole de considerações, e procuremos antes ver o que há realmente de fenomenológico na obra de Garcia Domingues.
As páginas 52 e 53 são consagradas ao método fenomenológico, apontado-se a “necessidade da descrição pura”, que se baseia “numa exigência importantíssima: a redução de todos os pressupostos”.
Simplesmente, o aspecto fenomenológico aparece integrado numa analítica transcendental do pensamento com três partes: A) Fenomenologia da consciência; B) Analítica fenomenológica; C) Analítica fenoménica.
Ora, com uma estranha falta de rigor, a analítica fenomenológica passa a dividir-se em duas partes: a analítica fenoménica e a analítica transcendental.
Na analítica fenoménica, ocupa-se Garcia Domingues v.g de Taine, Binet, Paulhan, Janet, Rigano, Piéron, Dewey, Hoffding, a que associa, não se sabe porquê, Gentile. Também inclui nessa analítica a escola de Wurzburg, com os nomes eminentes de Ach, Marb, Messe e Bühler. Com excepção de Gentile, trata-se de vultos marcados pelo positivismo naturalista, contra o qual se ergueu a fenomenologia. Com tais autores gasta Garcia Domingues numerosas páginas. E quando se dedica à analítica transcendental e se julga que ia abordar algo, ao menos, próximo da fenomenologia, deparamos, além do estudo de pensadores do anterior estilo, uma longa e penosa análise das leis de Fechner e de Weber. O que tem tudo isto a ver com a descrição pura e a redução de pressupostos?
Debrucemo-nos em outros aspectos das considerações de Garcia Domingues. Assevera ele: “há pois, uma conexão essencial entre valor e ser. E é essa conexão que mantém o dinamismo da existência. Estas considerações parecem ir ao encontro do problema na fenomenologia de Scheler” .
A fenomenologia, para Scheler, é uma certa forma de filosofar, sem oferecer como tal uma solução para os problemas. Daí que Scheler, considerando-se sempre fenomenólogo, assumisse posições metafísicas diversas.
A relação entre valor e ser não é nada de específico da fenomenologia no entender de Scheler, ao contrário do que Garcia Domingues pretende. Adiante, porém.
Ocupemo-nos, agora, de dois autores que, sem serem adeptos da fenomenologia, lhe deram um relevo destacado na sua reflexão. Referimo-nos a Delfim Santos e, de modo mais relevante, a Miranda Barbosa.
Delfim Santos foi um realista deliberado e franco, tendo escrito, de modo decisivo numa das suas obras fundamentais – “Conhecimento e Realidade”, de 1940 –, sem hesitação: “A existência dum mundo fora do sujeito, independente na sua existência do sujeito que o conhece e mesmo radicalmente indiferente às possibilidades de descoberta que este possua, é condição mínima necessária de todo o conhecimento”
Como realista, procura Delfim patentear que “a redução fenomenológica” de um grande pensador como Husserl, embora não fosse um dos seus inspiradores , nas Ideen mereceu o nome de idealismo e pensou-se mesmo haver uma contradição íntima na fenomenologia que, como é sabido, tivera um ponto de partida realista” . Mas, contra tal ponto de partida, logo recorda que Husserl esclarecera que a exclusão (Einklammerung) do tal mundo independente era apenas uma atitude metodológica: excluindo o mundo exterior, “não praticava idealismo, como os críticos apressados concluíram” .
Julgamos que a posição husserliana não teve um sentido tão claro e que o filósofo jamais declarou inequivocamente que a epoche respeitasse a independência do mundo “exterior”.
Seja como for, o problema requer uma exegese mais rigorosa e exigente do que a interpretação algo dogmática de Delfim Santos, interpretação ainda mais estranha visto que, um anos antes de “Conhecimento e Realidade”, em 1039, o mesmo Delfim Santos aludia à “tendência final idealista de Husserl” . É claro que estava no seu pleno direito de mudar de opinião…
E passemos a Miranda Barbosa. Perante a fenomenologia, Miranda Barbosa tomava uma dupla posição. Por um lado, reconhecia “os pontos em que a minha linha (…) toca tangencialmente” na fenomenologia e acentuava que “muitas conclusões, métodos e processos são comuns” . Isto sem falar no apoio dado a assistentes no sentido de que estudassem a fenomenologia e a obtenção para o efeito de bolsas de estudo na Alemanha. Por outro lado, declarava inequivocamente: “se a análise seguinte é inspirada na atitude fenomenológica, de alguma forma se emancipa do método fenomenológico de Husserl, ou (…) ainda do método fenomenológico em geral, no que diz respeito às suas consequências, geradora duma nova sistemática filosófica” . E em várias ocasiões por escrito , ou oralmente, insistia que a fenomenologia era insuficiente. Insuficiente em quê? Na perspectiva de Miranda Barbosa, porque o “método fenomenológico não permitiu (…) chegar a uma solução para o problema essencial do conhecimento oposta ao idealismo solipsista” .
Com efeito, segundo Miranda Barbosa, no pensamento surge como fenómeno “uma relação entre sujeito o objecto, na qual o sujeito supõe intencionalmente apreender as notas características do objecto e julga saber o que o objecto é” , impondo-se, pois, em investigar “se o conhecimento é ou não aquilo que no fenómeno do conhecimento parece intencionalmente ser” .
Importa, assim, para Miranda Barbosa, averiguar se o objecto constitui ou não apenas uma representação, uma “criação” do sujeito ou algo em si, independente deste. Por outras palavras, impõe-se decidir entre o idealismo ou o realismo. Claro que então o realismo é uma solução possível, com o que é, desde logo, afastado o idealismo implicitamente, uma vez que entende que não pode haver nada para além do pensamento.
Deixada de lado semelhante objecção, e seguindo os pontos de vista de Miranda Barbosa, a tese idealista acerca da natureza do objecto traz consigo uma série de aporias que apenas o realismo transforma em euporias, ou seja, em soluções sustentáveis. Não vou aqui decidir se Miranda Barbosa tem ou não tem razão, uma vez que já o fiz noutro lugar e não desejo repetir-me. Limito-me a acrescentar que, uma vez estabelecida a realidade incontestável – para Miranda Barbosa, não para mim – do objecto em si, torna-se válida uma ontologia, da qual, por seu turno, deriva uma antropologia que dá fundamento a uma ética.
Temos, assim, concluída a estruturação da filosofia como sistema, sistema que se inicia com a lógica e termina na ética, passando, como vimos, pela gnoseologia, ontologia e antropologia.
Tratemos, por último, de Joaquim de Carvalho. A tradução portuguesa, da responsabilidade de Albin Beau, do célebre estudo de Husserl “Philosophie als strenge Wissenshaft” foi, por assim dizer, o sinal precursor da aparição de bom número de obras de vulto acerca da fenomenologia. A tradução referida era precedida dum largo prefácio de Joaquim de Carvalho, professor catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra e vulto de forte prestígio no âmbito do pensamento português.
Tal prefácio data de 1962. E logo em 1965 o Professor Júlio Fragata, da Faculdade de Filosofia de Braga, lançou à estampa “A fenomenologia de Husserl como fundamento da filosofia”, seguido, pouco tempo depois, pelas teses de licenciatura e de doutoramento do Professor Alexandre Fradique Morujão e de Gustavo de Fraga como o que se podia asseverar que as concepções fenomenológicas tinham lançado definitivamente raízes entre nós.
Voltemos, porém, ao ensaio com que Joaquim de Carvalho antecedeu a pequena obra de Husserl já mencionada: “A filosofia como ciência de rigor”. Este é dividido “em quatro secções, destinadas, respectivamente, ao ideal da filosofia se constituir como ciência de rigor, à crítica da pretensão da filosofia natural a ser a filosofia fundamental, à crítica da concepção da filosofia como mundividência e ideologia e à indicação da Fenomenologia como ciência filosófica fundamental e rigorosa” .
Pondo de lado aspectos ligeiramente tautológicos de semelhante divisão, sublinhemos que, para Joaquim de Carvalho, seguindo Husserl: “As ciências matemáticas e naturais são, como todas as ciências, imperfeitas (…). Apresentam não obstante um conjunto de conhecimentos certos que não só aumenta como se ramifica de tal sorte que ninguém duvida da ‘verdade objectiva’ de tais conhecimentos” ; “Ao contrário destes conhecimentos, os conhecimentos filosóficos oferecem o espectáculo de tudo neles ser discutível e dos juízos que exprimem dependerem da ‘convicção individual, da escola, de posição’ (…), o contraste só poderá superar-se mediante a orientação que coloque a Filosofia e a Ciência sob o mesmo ideal de rigor” .
Escreveu Joaquim de Carvalho que “ao invés das Ciências, a Filosofia não se constitui de maneira ‘ingénua’” . Não nos parece que ingenuidade seja compatível com a verdade objectiva e o rigor que são atribuídos à ciência, mas deixemos de lado este ponto.
Também diz Joaquim de Carvalho que Husserl abandona “a concepção da filosofia como sistema” . Agora é que nos parece que estamos perante algo que é destruído pela seguinte frase da obra que prefacia: “É claro ainda que a crítica, desde que realmente pretenda ser de valor, é filosófica, implicando no seu sentido a possibilidade ideal de uma filosofia sistemática, qual ciência de rigor”
O ilustre professor coimbrão assevera ainda que “Hegel enfraqueceu a condição do impulso filosófico científico com a sua doutrina da legitimidade relativa de toda e qualquer filosofia para a respectiva época” . Não será mau recordar, em contrário, que nos textos hegelianos publicados por Hoffmeister sobre história da filosofia e inseridos, também, na conhecida edição em vinte volumes da Suhrkamp, se encontra dito: “eu observo apenas que está esclarecido pelo que já foi exposto que o estudo da história da filosofia é o próprio estudo da filosofia, como não pode ser outra coisa. Quem estuda a história da física, da matemática, já conhece a física e a matemática mesmas. Para conhecer a filosofia historicamente surgida na sua forma fenoménica, o seu progresso como desenvolvimento da ideia, deve-se já conhecer a ideia, tal como para julgar as acções humanas tem de se possuir com certeza já a noção do que é justo e conveniente”
Claro que se poderia entrar aqui numa esgrima de passagens do filósofo, mas, pelo menos agora, não é esse o nosso intento. Queremos, apenas, salientar, com todo o respeito por Joaquim de Carvalho, que a relatividade histórica das filosofias em Hegel não pode ser tão dogmaticamente asseverada.
E posto isto, termino por aqui. Unicamente procurei apresentar uma nota introdutória.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vidas Portuguesas: António José de Brito.

Brito (António José de) — Pensador e professor português (n. Porto, 22.11.1927). Aluno de Cabral de Moncada, concluiu licen­ciatura em Direito e o Curso Complementar de Ciências Jurídicas em Coimbra (1954), tendo sido, ainda estudante, chefe de redacção do quinzenário Mensagem (1946-1950) e colabo­rador do jornal A Nação. Nomeado secretário-geral da Universidade do Porto, continuou a desen­volver frequente actividade na crítica filosófica e na filosofia política, orientando cursos de Filosofia de Direito no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Porto e colaborando em diversas publicações (Tempo Presente, Gil Vicente, Studium Generale, Nomos, Revista Portuguesa de Filosofia, etc.). Fundou e dirigiu o semanário portuense Praça Nova (1961), colaborou em obras colectivas, como a Enci­clopédia Logos, tendo integrado (1962 e 1963) a delegação portuguesa aos I e II Encontros Romanos de Cultura. Doutorou-se em Filosofia (1979) na Universidade de Montpellier com uma tese sobre o ponto de partida do conhecimento filosófico. Professor catedrático da Universidade Portu­calense e professor associado com agregação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, depois de ter prestado provas públicas e ser aprovado por unanimidade (1987). Em 1993 ficou em 1.° lugar no concurso para professor associado da mesma Faculdade, tomando posse em 30 de Junho do mesmo ano. Exegeta do nacionalismo e do nacionalismo português em especial (deu nova interpretação ao «Integralismo Lusitano», suscitando polémica com os integralistas históri­cos), a axiologia política do pensador, baseada numa ética fundamental objectiva, envolve um totalitarismo comunitário, condicionante da rea­lidade da pessoa, que não existe fora da comu­nidade. Este pensamento é corolário para as exigências dialécticas da sua filosofia, que, in­fluenciada pelo hegelianismo idealista ao modo de G. Gentile, toma como ponto de partida a ideia de insuperável: a síntese apriorística de onde todo o conhecimento se desenvolve, em sucessivas distinções, que incluem os contrários e os contraditórios, logicamente necessários uns aos outros. O insuperável é a primeira ideia, garante do discurso lógico e dialéctico.

PINHARANDA GOMES, in Enciclopédia Verbo.

Nota: No início de 2009, publicar-se-á, na colecção NOVA ÁGUIA, um volume de estudos sobre o pensamento filosófico de António José de Brito ("Harmonias e Dissonâncias").