«V Mas a Ideia quem é? quem foi que a viu, Jamais, a essa encoberta peregrina? Quem lhe beijou a sua mão divina?» Com seu olhar de amor quem se vestiu?
Pálida imagem, que a água de algum rio, Reflectindo, levou... incerta e fina Luz, que mal bruxuleia pequenina... Nuvem que trouxe o ar e o ar sumiu.
Estendi, estendei-lhe os vossos braços, Magros da febre dum sonhar profundo, Vós todos que a seguis nesses espaços!
E entanto, ó alma triste, alma chorosa! Tu não tens outra amante em todo o mundo Mais que essa fria virgem desdenhosa!
VI Outra amante não há! não há na vida Sombra a cobrir melhor nossa cabeça, Nem bálsamo mais doce, que adormeça Em nós a cantiga, a secular ferida!
Quer fuja esquiva, ou se ofereça erguida, Como quem sabe amar e amar confessa, Quer nas nuvens se esconda ou apareça, Será sempre ela a esposa prometida!
Nossos desejos para ti, ó fria, Se erguem, bem como os braços do proscrito Para as bandas da pátria, noite e dia.
Podes fugir... nossa alma, delirante, Seguir-te-á através do infinito, Até voltar contigo, triunfante!
VII Oh! o noivado bárbaro! o noivado Sublime! aonde os céus, os céus ingentes, Serão leito de amor, tendo pendentes Os astros por dossel e cortinado!
As bodas do Desejo, embriagado De ventura, afinal! visões ferventes De quem nos braços vai de ideais ardentes Por espaços sem termo arrebatado!
Lá, por onde se perde a fantasia No sonho da beleza; lá, aonde A noite tem mais luz que o nosso dia;
Lá, no seio da eterna claridade, Aonde Deus à humana voz responde; É que te havemos de abraçar, Verdade!
VIII Lá! Mas aonde é lá! aonde? - Espera, Coração indomado! o céu, que anseia A alma fiel, o céu, o céu da Ideia, Em vão o buscas nessa imensa esfera!
O espaço é mudo: a imensidade austera Debalde noite e dia se incendeia... Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia A rosa ideal da eterna primavera!
O Paraíso e o templo da Verdade, Ó mundos, astros, sóis, constelações! Nenhum de vós o tem na imensidade...
A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência Só se revela aos homens e às nações No céu incorruptível da Consciência!» Antero de Quental
A Saudade, tal como a Ideia do Homem é a Esposa/o. O Dois do Um de Si. O Outro que o faz Ser Hum-ano.
«a saudade amada»
ResponderEliminar«V
Mas a Ideia quem é? quem foi que a viu,
Jamais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?»
Com seu olhar de amor quem se vestiu?
Pálida imagem, que a água de algum rio,
Reflectindo, levou... incerta e fina
Luz, que mal bruxuleia pequenina...
Nuvem que trouxe o ar e o ar sumiu.
Estendi, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre dum sonhar profundo,
Vós todos que a seguis nesses espaços!
E entanto, ó alma triste, alma chorosa!
Tu não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!
VI
Outra amante não há! não há na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem bálsamo mais doce, que adormeça
Em nós a cantiga, a secular ferida!
Quer fuja esquiva, ou se ofereça erguida,
Como quem sabe amar e amar confessa,
Quer nas nuvens se esconda ou apareça,
Será sempre ela a esposa prometida!
Nossos desejos para ti, ó fria,
Se erguem, bem como os braços do proscrito
Para as bandas da pátria, noite e dia.
Podes fugir... nossa alma, delirante,
Seguir-te-á através do infinito,
Até voltar contigo, triunfante!
VII
Oh! o noivado bárbaro! o noivado
Sublime! aonde os céus, os céus ingentes,
Serão leito de amor, tendo pendentes
Os astros por dossel e cortinado!
As bodas do Desejo, embriagado
De ventura, afinal! visões ferventes
De quem nos braços vai de ideais ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!
Lá, por onde se perde a fantasia
No sonho da beleza; lá, aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia;
Lá, no seio da eterna claridade,
Aonde Deus à humana voz responde;
É que te havemos de abraçar, Verdade!
VIII
Lá! Mas aonde é lá! aonde? - Espera,
Coração indomado! o céu, que anseia
A alma fiel, o céu, o céu da Ideia,
Em vão o buscas nessa imensa esfera!
O espaço é mudo: a imensidade austera
Debalde noite e dia se incendeia...
Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia
A rosa ideal da eterna primavera!
O Paraíso e o templo da Verdade,
Ó mundos, astros, sóis, constelações!
Nenhum de vós o tem na imensidade...
A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência
Só se revela aos homens e às nações
No céu incorruptível da Consciência!»
Antero de Quental
A Saudade, tal como a Ideia do Homem é a Esposa/o. O Dois do Um de Si. O Outro que o faz Ser Hum-ano.
Por isso Bandarra o vaticinou, a par do simbolismo da 'Ilha dos Amores' de Camões:
ResponderEliminar«Todos terão um amor,
Gentios como pagãos,
Os Judeus serão cristãos,
Sem jamais haver error.»
Assim seja,
ResponderEliminarHeróis do Mar do Amor.