quinta-feira, 23 de outubro de 2008

"Só então (...), por já não ser, será"

"Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado 'Nau Catrineta'. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia em silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário de almoço dos turistas - coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria palavra, desligada de mim.

Tempos depois escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas

(Foto da Campanha Nacional da Voz - Brasil)

8 comentários:

  1. "Escreve numa sala grande e quase
    Vazia
    Não precisa de livro nem de arquivos
    A sua arte é filha da memória
    Diz o que viu
    E o sol do que olhou para sempre o aclara"
    Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas

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  2. É significativo que, para isto fazer sentido - e como faz! - , se tenha de ter tirado a palavra "Portugal" da expressão de Agostinho da Silva usada como título deste post... Assim se desnacionaliza uma experiência fundamental que é património de toda a humanidade e que só indivíduos, não nações, podem ter e fruir.

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  3. Sim, acho que o entendo... Portugal aqui, ou aquilo a que nos habituámos a nomear como Portugal, terá de ser como um/a Mãe/Pai... mesmo que neles esteja a raiz do filho, que é a humanidade, com a sua história, cultura (...), terá de se recolocar no seu lugar, que é estar -Ser- para lá disso tudo... e assim dar lugar e tempo ao que lhe é intrínseco, ao infinito inonimável que é.

    Será? :)

    23 de Outubro de 2008 11:49
    Anita Silva disse...
    Fez-me lembrar agora isto - principalmente o verso assinalado:

    "Inconscientemente me divido
    Entre mim e a missão que o meu ser tem,
    E a glória do meu Rei dá-me o desdém
    Por este humano povo entre quem lido...

    Não sei se existe o Rei que me mandou.
    MINHA MISSÃO SERÁ EU A ESQUECER,
    Meu orgulho o deserto em que em mim estou..."
    F. Pessoa

    23 de Outubro de 2008 11:58
    Anita Silva disse...
    Em realidade "só" há pessoas.
    Portugal é... o mito.

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  4. E no entanto, as pessoas têm passado e é Portugal que continua... Se é mais importante um que outro? O que é um sem o outro?

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  5. É como se fora: as pessoas são as folhas da Árvore, o Sol é Portugal...

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  6. (Através, inevitavelmente, da Língua Portuguesa)

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  7. A minha resposta está no blogue Serpente Emplumada.

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  8. E concerteza a minha visão não pode ser tão distinta da sua - sendo a realidade apenas uma... resta encontrarmos um significado comum para o que é: existir, ou melhor então, existir como entidade substancial.

    23 de Outubro de 2008 13:52
    Anita Silva disse...
    Só há pouco tempo descobri esse significado do termo "existir"... existir como entidade substancial é então uma plena contradição, ao implicar que a posição do ser seja simultaneamente "fora" e "dentro"... Nesse sentido pleno concordo que nada exista (ou que só o nada...), no outro, se houver possibilidade de se ser mais rigoroso, trocando-se a palavra "ser" ("a partir de" ou "fora de") por "estar"... já me parece atribuível à realidade actual.

    Tal como - regressando à mesma ideia:
    o bebé que está no ventre materno, existe? Vive "a partir de"... Como defini-lo em distinção ao viver da Mãe?

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