terça-feira, 12 de agosto de 2008

Porque odeio António Lobo Antunes




Primeiro o óbvio, pois não há nada como começar por contar os pecadilhos, auto-absolvição: porque escreve como eu gostava de escrever. O 'enrolar' das palavras, harmónicas na envolvência que geram, a certa e não a excessiva, a frase limpa de adjectivos supérfluos: vai-se lendo e descende o entranhar-se da escrita por nós adentro, simplicidade frase a frase, ideia a ideia, caligrafia de intimidades: 'nós' passamos a personagem e autor: meio envergonhados por leitores nos lermos assim, despidos, nus, por 'ele' nos ter caçado e, o sem-vergonha, o puto mariola da escrita, ter-nos tão bem desenhado; mais a outra meia de nós olhando e resmungando que afinal é tão fácil, tão claro, que, até nós, frustrados nós…. O gajo fotografa muito bem e isso dói a quem, como eu e se calhar tu, tem pena, inveja e mais umas coisas de não o conseguir assim, mão firme e jorro de arte. Eis a primeira razão porque odeio o ALA. Mas há mais…

Lembram-se de duas crónicas, na 'Visão', em jeito de manual de as bem-fazer? a da caça à pacaça e daquela onde dá a volta ao redondel e conta como, a final, se dá o murro certo no estômago do leitor, como se arruma com ele e deixa-se-lo de página à banda, o olhar siderado e fixo no nada, nada que é o seu triste vazio pois nem com tal explicação consegue, leitor copiador, voyeur invejoso, escrever assim? Pois é… ele não só o faz, arrumar connosco, leitores, como tem a desfaçatez, o cara sem-vergonha, de contá-lo e explicá-lo, de ensinar como se faz… Como se fosse assim, dois tiros em duas linhas e já está. Como se fosse assim, cábula na mão e folha em branco e já está. Como. O raio que o parta! "a mão que escreve"… o raio que o parta, eis a razão número dois e ainda a procissão está a sair do tinteiro.

Em terceiro vem que ainda é mais feio que eu. Ora desde os clássicos russos (e, talvez antes, desde o Kafka, Fourier e outros abomináveis homens da escrita) que é lei e norma que um escritor que o queira ser de face e alma abdica de metade para enriquecer a outra, a que segura a tal mão que escreve sozinha. Aquele olhar de menino perdido nas areias das praias, o puto de Benfica que revisita e revisita o seu bairro de infância, em cada tijolo uma memória e em cada calhau uma pérola, esse trombil deveria ser meu. Mas não é, ele está a roubar-mo e isso chateia-me. O seu olho azul irrita-me (sempre achei, desconfiado, que nesse azul estava o seu segredo) mas, já sob opinião médica, as minhas dioptrias não permitem que eu use lentes de contacto. Também por isso o odeio, fealdade que assumo.

Em quarto, que não tarda e já somos um clube, amanhã uma manif. Ora eu gosto de ser e quero continuar a ser um cavaleiro solitário, um masturbador na escrita. Para exibicionista do parque de Bolonha basta ele que quinzenalmente abre a gabardina e mostra mais uma página, anualmente despe-se todo para regalo primeiro dele: delicia-se com o pirilau ao léu mesmo que diga que quer apertar o botão e reformar-se, depois também prazer nosso, amantes da beleza nua, bem desenhada e escrita, rococós incluídos como ele conta e diz, Tomar sempre revisitado.

Em quinto porque é rico: paga as contas com a escrita, eldorado e meu euromilhões, eu aqui ali e em sonhos semanalmente apostando uma fortuna - eu mesmo, tudo o que tenho!, e dos céus não cai nem uma estrela nem um jackpot nem um bestseller: Nada mais que um ou dois números sem erros ortográficos, há vezes em que sai uma estrela da sorte e ganho a palmadinha do "assim sim". Penhorava tudo o que tenho para ser rico assim. Ele é-o, minha raiva por não sê-lo. Mas jogo, blogojogo. E queixo-me, como hoje, como sempre que o leio e marco a página ora com uma factura ora com um requerimento, ora com este queixume invejoso escrito.

Depois há aquele ar de sonso, de quem não parte um prato mas está sempre a espreitar as pernas da prima. Um boémio dissimulado, um Assis Pacheco e um Cardoso Pires misturados e travestidos em Agustina (dois santinhos dele, juntei outro, meu), no colo casta renda em ponto-de-cruz mas com desenhos pornográficos. Ora espreitar as pernas à prima todos o fazemos, a gaita e a inveja é que sendo ele a fazê-lo e a escrevê-lo ela não se chateia e, até suponho, as abre mais um niquito, o tal 'cadinho que é um tsunami de promessas em sonhos, erecções nocturnas e escritas diárias. Um boémio disfarçado com cara angelical, até as rugas e a calvície têm bom-ar, ar de missionário em paróquia feminina. Vá eu espreitá-las e levo logo um chapadão ou vão queixar-se à mãe. Seis, e esta é de peso.

Tantas seis razões, tão motivos para parar já e ir fazer o que tem de ser feito: se calhar copiá-lo, se calhar inventar-me, molhar o dedo e vamos a isto: escrever, deixar de escrevê-lo e escrever-me. Até já, desculpa lá ó pá.


(imagem recolhida aqui. vénia.)

9 comentários:

  1. a "da pacaça" (a outra não consigo localizá-la):

    http://nunaweb.blogspot.com/2006/04/o-mestre-ensina.html

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  2. Fartei-me de rir a ler isto! :)
    Tu és de morte, pá!

    Freakalhão! ;)

    Abraço.

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  3. :-))

    (a que ainda mais dói é a 6ª eheheh)

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  4. Pois.
    Como tu a ele, também te odeio aqui. Já tens a razão, as razões, ai.

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  5. Adoro a tua escrita. Por isso também te odeio:)

    Beijinhos.

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  6. sniffffffffffff....


    buááá´´aáááá´´aá.................


    :-))

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  7. Olha, eu conheço o homem, ainda que não seja seu íntimo. Aparenta ser um solitário intermitente, por um processo de atracção/repulsão da humanidade, é muito discreto, cerebral, mira-te, estuda-te, é meio distante, mas um excelente conversador, a vaidade dele é retórica, uma forma de agredir o que o desgosta. É bom tipo, está muito longe de ser um cagão, mais, é muito real, tem uma presença muito forte... mas de quem preferia estar noutro lado.

    Acho que a humanidade o aborrece verdadeiramente, na exacta medida em que o fascina. Não cultiva uma pose de «grande homem» e ainda parece um daqueles putos inteligentes da faculdade, que gosta muito de ler e faz por não encaixar, onde até caberia...

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  8. Muito bom!
    Poderia fazer coro com minhas com minhas confrades, mas não... não te odeio, pá!

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  9. biazinha: tu e as tuas confrades põem-me mais corado que um Frei. a continuar assim vou ter de pôr os silícios outra vez :-))

    klatuu: porque só o conheço de (poucas) entrevistas, onde incluo uma única que vi na tv, a ideia que formei dele é a de que é um eterno puto, simultâneamente tímido e cheio de (boa) malandrice. que a tão criticada arrogância não é mais que um escudo.
    gostei de ler a tua análise e ficou "fotografada". gostva dum dia o conhecer. pena esta merda de morar em Hell-meirim não me permita ir a todos os lançamentos, etc., a que gostava de estar presente. a verdade é que para acontecimentos culturais h´Lisboa, Porto e pouco mais haverá, tudo o mais é deserto que servirá para aeroportos e caminhadas de peregrinos.

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