sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Corona Fulgens (II)


- Olhem o mar, disse o velho, mas olhem com olhos marinheiros já que é de Portugal que falo quando vos digo olhem o mar ("Georges!", não é? "Georges! Anda ver meu país de marinheiros / o meu país das naus..."). Às vezes esquecemos, tantas vezes vem o engano: de engano e de esquecimento parece que o mundo se fez, mas marinheiros não têm tempo para se enganar: olhem com olhos marinheiros para o mar que Portugal cumpriu.

- O mar, disse o estudante de azul, então também tu falas do mar; e também eu tantas vezes mas tantas vezes estou na falésia ou na duna ou na praia a olhar, a perder-me. Imensidão, encantamento líquido do mar. É esta a alma dos Portugueses.

- "O mar sem fim é português", disse o estudante de verde, e lembrou-se de outros versos do Pessoa e disse baixinho: Portugal é feito de mar.

- Nada disso, disse o velho, e essa é a armadilha maior: cautela com o mar, é o que o marinheiro vos diz. O marinheiro não ficava na falésia ou na duna, à praia só iam as viúvas e as noivas com os corações rasgados: "máraios partam o mar!" Portugal foi o domador do mar, e o mar era o Adversário. O Pessoa disse Deus ao mar o abismo deu, mas devias saber que ele às vezes diz a verdade e às vezes o seu exactíssimo contrário... Deus o mar ao Abismo deu.

- Estás velho e já não queres sonhar, disse o estudante de azul, e o estudante de verde disse isso que dizes, como pode ser? Não somos nós a bruma, a névoa atlântica de não ter fim? Não é essa a fonte e a consumação?

- Somos sim, disse o velho e disse: somos a névoa e a bruma mas isso é porque estamos ainda sem nada ser. Não te lembras? "Pescador da barca bela / inda é tempo, foge dela / foge dela / Oh! Pescador!" Encantamento da sereia, podridão da Atlântida, sofreguidão abissal de Sirius, são estas as histórias do mar, é isto o que nos prendeu. Povos do império do mar, é isto o que nos quer desde sempre barrar. Olhem o mar com olhos de marinheiro: o barco. Olhem o corvo santo que o leme conduz. Olhem Sagres, promontorium sacrum: sagrada a terra que fere o mar.

- Confundes-me, disse o estudante de verde, e o estudante de azul disse: Perturbas-me.

- Sim, disse o velho, e sorriu: abro-vos os olhos para a serpente do mar. No timbre de Portugal a Serpe Alada: e o mundo não sabe de batalha maior.

6 comentários:

  1. Olá,

    Passei para desejar um bom fim de semana.


    Abraço

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  2. Do que me possa ter falhado, acrescente o fidalgo Casimiro, que é mais culto do que eu.

    Quanto ao mais, Nihil Obstat, nem a acrescentar, excepto:

    Viva Portugal!
    Um estreito abraço.

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  3. Alémmareando movimento das marés, ora calmaria, ora turbulência... é um mar intenso e profundo... às vezes parecer sereno na superfície ,eterno marinheiro..., nessa busca infinita, virando até alpinista se preciso for, só pra gritar por seu amor pelo mar!!!

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  4. "Máraios partam o mar..." :)

    Dito noutra grafia está algures no Raul Brandão; mas exactamente assim o ouvia eu muitas vezes em criança às peixeiras e "banheiras" velhas de Espinho.

    Agora que reli, isto parece um rally-paper para alunos do antigo Liceu :P

    Enfim, inclino-me perante o Nihil Obstat. Abraço, Klatuu. E Ruela.

    Biazinha, "tanta água a nos separar". Beijo

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