Que a ressaca dos dias
me deforme um pouco a feição –
isso não posso evitar.
O tempo subverte a forma
e a memória vai tecendo
imagens tortas e verossímeis.
Há uma certa indigestão
no ato de lembrar.
No que era carne e mundo
e, mastigado,
torna-se linguagem;
o que eram veias e cabelos
– o que era acaso –
penetra comigo o tempo
como fato cicatrizado
a tiracolo.
Que um certo cansaço dos anos
me arranque os dentes da boca –
posso prever.
Serão as gengivas públicas
mastigando a própria linguagem
e será o tempo
me amolecendo o corpo
e testando a validade
das minhas metáforas.
Perfeito! Lembrar do que se era e constatar o que se é agora.
ResponderEliminarÉs um poetaço!
Beijos.
"Rugas de sentir" como diria o António Variações.
ResponderEliminarAs tuas metáforas estão muito dentro da validade, na minha opinião. Fresquinhas :)
Gostei muito.
Beijo*
Já digo como as meninas: «Quando eu crescer, quero escrever como você...» ;)
ResponderEliminarHora afortunada em que o rasto das gurias me conduziu ao seu blogue. Tudo nesse poema é bom. Há um rio negro na tua poesia: fluidez e penumbra, é uma carne ao sol, em que a putrefacção conhece o segredo das fontes mais puras.
A lucidez terrível que a poesia transporta, sempre envelheceu prematuramente, é um varandim excruciante, uma morte-vida que beija o eterno.
Aquele abraço, meu Amigo, você me compensa de tanto lixo que vou lendo por aqui.
Brilhante poema. Gostei muito.
ResponderEliminarE depois das palavras do Klatuu mais não digo...
:)
Um beijinho