segunda-feira, 23 de junho de 2008

Poema de Quando me Caírem os Dentes


Que a ressaca dos dias
me deforme um pouco a feição –
isso não posso evitar.
O tempo subverte a forma
e a memória vai tecendo
imagens tortas e verossímeis.

Há uma certa indigestão
no ato de lembrar.
No que era carne e mundo
e, mastigado,
torna-se linguagem;
o que eram veias e cabelos
– o que era acaso –
penetra comigo o tempo
como fato cicatrizado
a tiracolo.

Que um certo cansaço dos anos
me arranque os dentes da boca –
posso prever.
Serão as gengivas públicas
mastigando a própria linguagem
e será o tempo
me amolecendo o corpo
e testando a validade
das minhas metáforas.



Fabrício Fortes (fabricio.fortes@hotmail.com)

4 comentários:

  1. Perfeito! Lembrar do que se era e constatar o que se é agora.
    És um poetaço!
    Beijos.

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  2. "Rugas de sentir" como diria o António Variações.

    As tuas metáforas estão muito dentro da validade, na minha opinião. Fresquinhas :)

    Gostei muito.
    Beijo*

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  3. Já digo como as meninas: «Quando eu crescer, quero escrever como você...» ;)

    Hora afortunada em que o rasto das gurias me conduziu ao seu blogue. Tudo nesse poema é bom. Há um rio negro na tua poesia: fluidez e penumbra, é uma carne ao sol, em que a putrefacção conhece o segredo das fontes mais puras.

    A lucidez terrível que a poesia transporta, sempre envelheceu prematuramente, é um varandim excruciante, uma morte-vida que beija o eterno.

    Aquele abraço, meu Amigo, você me compensa de tanto lixo que vou lendo por aqui.

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  4. Brilhante poema. Gostei muito.
    E depois das palavras do Klatuu mais não digo...

    :)

    Um beijinho

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