terça-feira, 24 de junho de 2008

O rei-Saudade

"[fala de Pedro] Mas um dia, "Alguém" desceu ao fojo: - "Alguém" que era da morte e era da vida; e mais - de além da morte e além da vida... E eu vi a Saudade ao pé de mim. Nunca mais me deixou: vivo com ela. Fez-se em mim carne e sangue. Fez-se Inês. Por isso sabes toda a minha vida. Por isso eu sei a morte como tu. Sou o homem que viveu a vida e a morte: sou o homem-Saudade, o rei-Saudade..."
- António Patrício, Pedro o Cru, in Teatro Completo, Lisboa, Assírio & Alvim, 1982, p.167.

Uma obra belíssima e genial, como quase tudo em António Patrício. Dramaturgia iniciática. Tive a felicidade de a ver encenada no D.Maria II em 1982.

4 comentários:

  1. Tão bem lembrado e tão injustamente esquecido, Paulo!

    Um autor fundamental, dramaturgo complexo e poeta refinado. O seus poemas sobre o ópio e sobre os galgos ficaram-me gravados como uma tatuagem na carne da alma.

    §

    De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
    só para me esquecer, para me não sentir.
    Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
    passo a vida febril inquietantemente a rir.

    Eu rio porque tenho medo, um terror vago
    de me sentir a sós e de me interrogar;
    rio pra não ouvir a voz do mar pressago
    nem a das coisas mudas a chorar.

    Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
    o mistério de tudo o que me cerca
    e a dor de não saber porque vivo assim.

    §

    É o poema de quem rasga os versos
    porque os sentiu demais para os dizer
    e os ouve nas ondas tão dispersos
    como os sonhos que teve e viu morrer

    §

    Viver é ir morrendo a beijar a luz.


    António Patrício



    P. S. Com tempo ainda aqui publico as maravilhas que não estão disponíveis em hiper-texto... E Wenceslau de Moraes, e Camilo Pessanha! Os nossos orientais da diáspora do Império.

    Abraço!

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  2. Ora, e eu não o li nunca. Tantas coisas.

    Esse "riso" é tão certeiro.

    Obrigado a ambos.

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  3. Dramaturgia iniciática.
    Plenamente de acordo, esta é uma obra genial (acalento o sonho de a trabalhar com os meus alunos, um dia destes).

    E a poesia, que não conhecia, encantou-me.

    Viver é ir morrendo a beijar a luz.

    Sem palavras...

    Beijos

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  4. Também nunca o li:(
    Gostei do excerto.Muito.
    Um abraço.

    Klatuu,
    O poema é simplesmente FABULOSO!
    Espero que cumpras o que dizes no teu P.S.:)

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