EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018) - temas e autores: Mais um Abraço a José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): em destaque – V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): tema de abertura – A Lusofonia, avanços e recuos (10 anos após a criação do MIL: Movimento Internacional Lusófono).

Para o 23º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 22

Capa da NOVA ÁGUIA 22

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 22

Em todos os seus números, a Revista NOVA ÁGUIA tem assumido o propósito de, sem qualquer complexo histórico, dar voz às várias culturas lusófonas. Eis o que neste número uma vez mais acontece, de forma particularmente eloquente, desde logo na secção de abertura, onde publicamos uma selecção de textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Na secção seguinte, publicamos uma dezena de textos sobre Dalila Pereira da Costa, cujo centenário do nascimento se comemora em 2018. Depois de já a termos homenageado no ano do seu falecimento (2012), promovemos este ano um Ciclo Evocativo sobre a sua Obra no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, sua cidade natal, onde alguns dos textos que aqui publicamos foram apresentados em primeira mão.

A par de Dalila Pereira da Costa, Francisco de Holanda é a grande figura em destaque neste número da NOVA ÁGUIA. Em 2017 assinalaram-se os quinhentos anos do seu nascimento e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com outras entidades, promoveu, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um Colóquio sobre a sua “Pintura e Pensamento”. No essencial, são os textos apresentados nesse Colóquio que aqui publicamos: dezena e meia de textos, que dão conta das diversas facetas de uma obra absolutamente singular no âmbito da cultura lusófona.

Temos depois uma série de outras “Evo(o)cações”, naturalmente mais breves: de Albano Martins, que nos deixou neste ano, até Dora Ferreira da Silva e Manuel Antunes (que completariam igualmente cem anos em 2018), passando por outras figuras não menos relevantes – nomeadamente, Ferreira Deusdado, falecido há cem anos (e que será o autor de referência do IV Colóquio do Atlântico, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Universidade dos Açores e da Universidade Católica Portuguesa).

Na secção seguinte, “Outros voos”, mantemos essa senda lusófona, começando por dois ensaios: um sobre a “Expressão e Sentido da Saudade na poesia angolana e moçambicana”, outro sobre o “Ensino da Filosofia em Cabo Verde”. Como igualmente tem sido hábito, publicamos, em “Extravoo”, mais alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva e António Telmo, dois autores de referência para a NOVA ÁGUIA. Por fim, em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras recentemente lançadas (parte das quais publicadas também com a nossa chancela), e, em “Memoriáguio”, registamos fotograficamente alguns eventos para memória futura.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Dedicamos este número, no plano pessoal, a Manuel Ferreira Patrício, que completou em Setembro oitenta anos (particularmente fecundos) de vida – no próximo número, publicaremos um extenso ensaio, de Emanuel Oliveira Medeiros, sobre a sua Obra. No plano institucional, dedicamos este número à Academia Internacional da Cultura Portuguesa, que, em Junho deste ano, honrou o MIL: Movimento Internacional Lusófono (e, por extensão, a NOVA ÁGUIA) com a distinção de “Instituição Honorária”. À Academia Internacional da Cultura Portuguesa, na pessoa de Adriano Moreira, o nosso público reconhecimento por tão honrosa distinção.

NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE

NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE

Editorial…5

CIDADANIA LUSÓFONA: V CONGRESSO

Intervenções de Adriano Moreira (p. 8), Braima Cassamá (p. 10), Delmar Maia Gonçalves (p. 11), Elter Manuel Carlos (p. 12), Isabel Potier (p. 15), Ivonia Nahak Borges (p. 16), Luísa Timóteo (p. 18), Maria Dovigo (p. 18), Mariene Hildebrando e Paulo Manuel Sendim Aires Pereira (p. 21), Valentino Viegas (p. 23), Zeferino Boal (p. 26) e Carlos Mariano Manuel (p. 27).

DALILA PEREIRA DA COSTA, 100 ANOS DEPOIS

DALILA PEREIRA DA COSTA: NOTA BIO-BIBLIOGRÁFICA | Rui Lopo…32

IN VOCAÇÃO | Alexandre Teixeira Mendes…35

DALILA PEREIRA DA COSTA E A MITOLOGIA PORTUGUESA | António Braz Teixeira…36

DALILA PEREIRA DA COSTA E A NATUREZA MATRIARCAL DE PORTUGAL | Artur Manso…42

A COROGRAFIA SAGRADA NA OBRA DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Joaquim Domingues…51

ENCONTRO NA NOITE: ACERCA DO ONIRISMO MÍSTICO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | José Rui Teixeira…56

COM DALILA NO REEGA…GAÇO DE ATAEE…GINA | Maria José Leal…61

DA SUBLIMAÇÃO DA MULHER NO PENSAMENTO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Maria Luísa de Castro Soares…67

DALILA: O PANO DE FUNDO OU UMA PREMISSA INTERPRETATIVA ESSENCIAL | Pedro Sinde…74

LEMBRANÇA DE UMA TESE DE DALILA | Pinharanda Gomes…76

FRANCISCO DE HOLANDA, 5 SÉCULOS DEPOIS

O SENTIDO METAFÍSICO DA CRIAÇÃO EM FRANCISCO DE HOLANDA: ARTE E SER | Américo Pereira…80

FRANCISCO DE HOLANDA, OU DE COMO DESENHAR OS NOVOS MUNDOS POR ACHAR | António Moreira Teixeira…83

FRANCISCO DE HOLANDA, O VARÃO ILUSTRE, CENSURADO E ESQUECIDO | Delmar Domingos de Carvalho…93

FRANCISCO DE HOLANDA: DA IMITAÇÃO À IDEIA | Idalina Maia Sidoncha…94

FRANCISCO DE HOLANDA E O DIÁLOGO LUSO-ITALIANO NO CONTEXTO DO RENASCIMENTO EUROPEU DO SÉC. XVI | José Almeida…101

FRANCISCO DE HOLANDA E O FUROR DIVINO | José Eliézer Mikosz…106

A VISÃO DE LIMA DE FREITAS SOBRE O OLHAR DE FRANCISCO DE HOLANDA | Lígia Rocha…113

A TEORIA ESTÉTICO-METAFÍSICA DA PINTURA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Cândido Pimentel…121

A CIDADE DA ALMA EM FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Curado…126

FRANCISCO DE HOLANDA E A ARTE | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…134

OS MEDALHÕES NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Maria Teresa Amado…127

APONTAMENTO SOBRE FRANCISCO DA HOLANDA | Mário Vítor Bastos…143

FRANCISCO DE HOLANDA: A CIRCULAÇÃO DO SABER EM ARQUITETURA NO SÉCULO XVI | Paulo de Assunção…153

A NOÇÃO DE ARTE COMO PARTICIPAÇÃO DA CRIAÇÃO DIVINA, NO MISTICISMO MANEIRISTA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Samuel Dimas…165

A TEORIA DO PINTOR NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Teresa Lousa…170

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AGOSTINHO DA SILVA | Pedro Martins…176

ALBANO MARTINS | António Fournier e António José Borges…181

ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA | Samuel Dimas…184

ANTÓNIO CABRAL | Manuela Morais…195

ANTÓNIO QUADROS | José Lança-Coelho…196

CASAIS MONTEIRO | António Braz Teixeira…197

DORA FERREIRA DA SILVA | Constança Marcondes César…200

FERREIRA DEUSDADO | Artur Manso…202

MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL | Luís de Barreiros Tavares…212

MANUEL ANTUNES | Nuno Sotto Mayor Ferrão…216

MÁRCIA DIAS | Zeferino Boal…218

OUTROS VOOS

EXPRESSÃO E SENTIDO DA SAUDADE NA POESIA ANGOLANA E MOÇAMBICANA DA GERAÇÃO DE 1985 | António Braz Teixeira…220

BREVE REFLEXÃO SOBRE O ENSINO DA FILOSOFIA EM CABO VERDE | Elter Manuel Carlos…224

PARA UMA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DA MÃE | José Eduardo Franco…231

A FISSURA NA MURALHA OU O “PRINCÍPIO DA AUTODETERMINAÇÃO” | Pedro Sinde…233

DOZE DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS | Renato Epifânio…235

AUTOBIOGRAFIA 5 | Samuel Dimas…248

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…262

DIÁLOGOS DO MÊS DE OUTUBRO (EXCERTO) | António Telmo…264

BIBLIÁGUIO

A VIA LUSÓFONA III | Miguel Real…270

AMADEO DE SOUZA-CARDOSO: A FORÇA DA PINTURA & A “RENASCENÇA PORTUGUESA”: PENSAMENTO, MEMÓRIA E CRIAÇÃO | Renato Epifânio…272

NO REGAÇO DE ATAEGINA | José Almeida…274

MESTRES DA LÍNGUA PORTUGUESA | Jorge Chichorro Rodrigues…275

POEMÁGUIO

RENASCER A SUL | Maria Luísa Francisco…30

EXPRESSAR UM ISMO; PROVA DEVIDA | António José Borges…31

ABORRECIMENTO | Arthur Grupillo…174-175

DOM SEBASTIÃO, O QUE NÃO DESCANSA; IBN QASI, TODA A VIDA NA MORTE | Jesus Carlos…215

FAZEMOS METÁFORAS; PEREGRINAÇÃO | Samuel Dimas…261

ROSTO; RESIDUAL; ARRAIS; CUNEIFORME; ANJO | Luísa Borges…268-269

CRONOS & KAIROS; PRINCIPIUM SAPIENTIAE | Paulo Ferreira da Cunha…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 22

Apresentação da NOVA ÁGUIA 22
24 de Outubro, no Palácio da Independência (Lisboa). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda sobre "A Via Lusófona"


Via Sincera
Rodrigo Sobral Cunha

Para o Renato Epifânio

Que me seja permitido nesta ocasião*, junto destes amantes do saber em língua portuguesa – e homenageando um deles –, começar por chamar para o nosso convívio alguém que, na realidade, há muito faz parte dele, Thomas Carlyle, que dizia o seguinte bem a propósito:
“Afirmo que a sinceridade, a profunda, a grande, a genuína sinceridade, é a primeira característica de todos os homens que de algum modo são heróis. Não a sinceridade que a si própria se chama sincera; ah, não, porque esta de pouco vale, na verdade; – não a sinceridade superficial, jactanciosa, consciente, porque esta muitas vezes não passa de pretensão. A sinceridade dos homens superiores é de tal espécie que ele nem sequer dela fala, porque dela não está consciente; não quero com isto dizer que esteja consciente de insinceridade; porque, qual será o homem que possa progredir desviando-se da lei da verdade, por um só dia que seja? Não; o homem superior nem se jacta de ser sincero, longe disso; é que ele não pode deixar de ser sincero! A grande realidade da existência é grande para ele. Por mais que se eleve, não pode afastar-se da terrível presença da realidade. O seu espírito é assim feito de verdade; é grande por isso, antes de tudo o mais. Terrível e maravilhoso, tão real como a vida, tão real como a morte, é este universo para ele. Ainda que todos os homens esquecessem a sua verdade e caminhassem por entre sombras vãs, ele não poderia fazer o mesmo. A todos os momentos o reflexo da chama brilha acima da sua cabeça, inegavelmente, sempre, sempre! Desejaria eu que aceitásseis esta como a minha primeira definição do homem superior. O homem vulgar pode ter essa qualidade, porque ela compete a todos os homens criados por Deus; não pode, porém, haver homem superior que não a possua.”[1]
Meio século antes do pensamento do filósofo escocês que acabais de escutar na tradução de Álvaro Ribeiro, traduzia Sampaio Bruno livremente a continuação desta mesma passagem daquele que designava “o poderoso livro de Carlyle acerca dos heróis e do heroísmo”; considerando então o herói
“um mensageiro enviado do fundo do misterioso Infinito com novas para nós... Ele vem da substância interior das coisas. Aí vive e aí deve viver em comunhão quotidiana... Ele vem do coração do mundo, da realidade primordial das coisas; a inspiração do Todo-Poderoso dá-lhe a inteligência, e verdadeiramente o que ele pronuncia é uma espécie de revelação.”[2]
Mais dizia Sampaio Bruno:
“E a vida, heróica ou pura, santa ou genial, do grande homem convém que se exiba, na sua rutilância, quando tão fumosas se condensam as desmoralizantes sombras das malfeitorias que vinham e vêm sendo o amargo pão-nosso de cada dia.”[3]
E indicava:
“Assim, o culto dos heróis não se degrada em idolatria, e a humanidade, reverenciando o heróico na história, nos seus representantes se contempla, reconhecendo-se e incessantemente aperfeiçoando-se.”[4]
Tal era o que Álvaro Ribeiro igualmente defenderia:
“Em todas as sociedades civilizadas existe este processo de cultura que se chama culto dos homens superiores. Cada povo elege as personalidades históricas e as personagens lendárias que celebra na representação social do seu destino e da sua liberdade.”[5]

Agora, se principiámos por aqui as palavras que correspondem ao convite que nos foi endereçado pelo autor do livro A Via Lusófona, foi porque, logo na abertura deste, Renato Epifânio faz suportar a noção de Pátria no conceito de cultura; e se este ligado está a culto e aquela a patres (decerto os pais heróicos), assim é que do cultivo dos heróis (que dão forma à pátria, ou se preferirdes, verdadeiramente a informam), tal como do culto destes – decorre aquela cultura que dá de beber às nações, tal como penetra nos campos a água dos rios depois de ser onda do mar e nuvem celeste.
É desta cultura, que espiritualiza as nações, que vemos surgir, à cabeça d’A Via Lusófona, a efígie de Agostinho da Silva como aquele em quem convergem o pensamento e a acção no culto sublime do Espírito Santo. Do mesmo passo que tem o poder de suplantar a “época da cisão extrema” (assim chamou José Marinho a este tempo, conforme recorda Renato Epifânio), convida já o culto do Espírito Santo à extremosa Acção. Obra daquela cultura que vivifica as nações, na de Agostinho da Silva se elege como herói o Povo Português, nascedoiro de nações que conversam acerca do universo em português. Ora, desta conversa é feita a via lusófona.
Ao contrário do que julgam aqueles que se encontram submersos na barbárie solipsista ou na barbárie do colectivismo uniforme, este livro de Renato Epifânio não é o diário de bordo de um navegador solitário: antes nele se encontram, como o vaivém das ondas, as notas de quem voga sobre esse murmúrio luso das águas que une quanto no tempo e no espaço parece separado.
Pela missão que recaiu sobre os ombros de Renato Epifânio, diremos assim dele que, inclusivamente pelo nome, se liga tanto à Renascença Portuguesa como ao que com ela, de diáfano, advém (para quem possa ver).
Mas se alta é a causa, baixos são ainda os homens. Mal ressoa ao duro humano ouvido o combate que se dá entre o Visível e o Invisível.
Mas o que combate, cordato e pacífico, Renato Epifânio – que de si mesmo diz que olha todas as pessoas de frente? Deixe-me responder de dois modos: combate o patricídio perpetrado por aqueles que dilaceram o corpo e a alma da nação portuguesa e todos os veios que a ligam ao mundo. Enquanto sopra a nortada, debaixo dos círculos dos abutres entrega-se a avidez dos chacais à voragem da hora sob o tempo insepulto. De 1755 aqui são dez gerações, de mal a pior, sob o governo burgesso (de burguês) dos publicanos (os cobradores de impostos) sem alma.
Mas regressemos ao início desta ocasião, já que Renato Epifânio é um dos poucos homens sinceros que conhecemos e chamou Carlyle à sinceridade “o mérito salvador, agora como sempre” – precisamente contra as épocas doentes de cepticismo e insinceridade (“Mundo insincero; ateísta, não verdadeiro mundo!”, no qual “Saem os heróis, entram os charlatães”, onde nem sequer há a esperar “nenhuma alba neste crepúsculo do mundo”). Recorda, todavia, o nosso conviva escocês:
“Somente num mundo de homens sinceros a unidade é possível; só entre eles, e ao fim de muito tempo, a unidade pode ser tida por boa e certa.”
E:
“O mérito da originalidade não está na novidade; está na sinceridade.”[6]
Concluindo:
“Profetizo que o mundo vai tornar-se mais uma vez sincero, crente, acolhedor de muitos heróis, mundo heróico, enfim. Será então um mundo vitorioso; não o será até então.”[7]
Concluamos também nós, meu caro Renato e amigos nossos:
Os antigos romanos diziam: Decorum est pro patria mori (decoroso é morrer pela pátria); porém, nós diremos aqui: Decorum est pro patria vivere.
É que há um segredo.
____________
* Este texto foi lido pelo autor na sessão de lançamento de A Via Lusófona, de Renato Epifânio, que teve lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra, no dia 29 de maio de 2010.
[1] T. Carlyle, Os Heróis (Tradução portuguesa e Apresentação de Álvaro Ribeiro, 1956), Lisboa, Guimarães Editores, 2002, pp. 51-52.
[2] Bruno, A Questão Religiosa, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, editores, 1907, pp. 152, 373.
[3] Ibid., p. 372.
[4] Ibid., p. 385.
[5] Na Apresentação de Os Heróis, ob. cit., p. 13.
[6] Os Heróis, p. 120. Aí pode ler-se: “Todas as épocas, a que chamamos épocas de fé, são originais; todos os homens, ou quase todos os homens, são nessas épocas sinceros. [...] Eis a verdadeira união, a verdadeira regência, a lealdade, todas as coisas verdadeiras e benditas na medida em que a pobre Terra pode produzir bênçãos para os homens.”
[7] Ibid., p. 164.

sábado, 29 de maio de 2010

Hoje




No dia 29 de Maio, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, decorrerá o Colóquio Anarquia, Monarquia e República, no qual serão oradores António Telmo ("Monarquia e República") e António Cândido Franco ("Anarquia e República").

Na ocasião, serão lançados os novos livros de António Telmo (Luís de Camões, 1.º volume das obras completas, com a chancela da Al-Barzakh e apresentação de António Cândido Franco) e Renato Epifânio (A Via Lusófona, da colecção Nova Águia, com a chancela da Zéfiro e apresentação de Rodrigo Sobral Cunha).

sexta-feira, 19 de março de 2010

Para ler o resto, vai ter que esperar pelo nº 6 da NOVA ÁGUIA...

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Giambattista e Vico e Europa: Ciência da Lira e das Nações

RODRIGO SOBRAL CUNHA

Começamos por tomar emprestada ao autor da Scienza Nuova a imagem com que, na sua Vita, designa os Pensées de Pascal, lumi sparsi, que serão aqui uns tantos pontos de vista de alguns ilustres leitores europeus do platónico partenopeu, demasiadas vezes denominado obscuro.
Esse “homem misterioso” (como o designa Antero de Quental, em 1866), que teve, entre outros, o dom da profecia retrospectiva, não poderia talvez imaginar até que ponto o mal-entendido perseguiria a sua obra ao longo de mais de dois séculos e meio, ainda que não pouco da obscuridade desta, deliberada, tivesse em vista reproduzir o eco e os reflexos, entrecortados no claro-escuro do tempo, das cisões que as idades do homem assinalam sobre a terra.
Assim, era natural que fossem os philosophes iluministas a dicionarizá-lo como o “ilegível” e “confuso” professor de eloquência da Universidade de Nápoles, primeiro doutrinador anti-cartesiano, ao que então mais parecia importar, estranho inimigo da rationalité, autor ainda de uma teoria dos ciclos históricos, quando não o “fundador da filosofia da história”, que anteciparia em parte algumas “teorias” do romantismo, em parte outras do fundador do positivismo. E a pouco mais do que isto se resumem, da primeira metade do século XVIII a esta parte ainda, a generalidade dos verbetes sobre o filósofo italiano. Isto no tocante à superfície.
Todavia, ainda em 1841, o viajado Visconde de Sernancelhe José da Gama e Castro, colocava estas considerações aos pés de O Novo Príncipe:

“Entre os mais recomendáveis publicistas que escreveram pelos princípios do século de setecentos, há um quase de todo desconhecido, ainda entre os seus, porque a muita originalidade com que escreve o torna obscuro, e exige, para cabalmente compreendê-lo meditação e estudo. Chama-se João Baptista Vico. De todos os escritores de que até agora me tem chegado notícia, nenhum me parece haver tratado com tanto conhecimento de causa da origem das línguas, da formação das nações, e de muitos outros objectos não menos curiosos que interessantes.”

É à terceira leitura que, segundo Vico, se entra na Scienza Nuova, ainda que, por outro lado, o número de pontos de vista patentes nessa obra seja quase inexaurível. Jules Michelet, que desde 1824 apresentou o pensamento de Vico à Europa do século XIX, escreveu:

“No vasto sistema do fundador da metafísica da história, existe já, pelo menos em germe, todo o trabalho da moderna sabedoria. Como Wolf, disse ele que a Ilíada era o trabalho de um povo, seu trabalho erudito e última expressão, depois de muitos séculos de inspirada poesia. Como Creuzer e Görres, interpretou as figuras heróicas e divinas da história primitiva como ideias e símbolos. Antes de Montesquieu e Gans, mostrou como o direito surge dos costumes de um povo e representa fielmente cada etapa da sua história. O que Niebuhr encontraria após vastas pesquisas, foi adivinhado por Vico; ele restaurou a Roma dos patrícios e fez viver de novo as suas curiae e suas gentes. Certamente, se Pitágoras recordaria ter lutado sob as muralhas de Tróia numa vida anterior, esses ilustres germanos podiam ter lembrado haverem todos eles vivido anteriormente em Vico. Todos os gigantes do criticismo estão já contidos e sobra lugar, no pequeno pandemónio da Ciência Nova.”

Um dos jovens discípulos de Michelet, entre os muitos que por aqui encontrou o mestre humanista francês, Oliveira Martins, escreveria em 1872:

“Presidindo à descoberta da psicologia metafísica, feita pela filosofia alemã, presidindo à teoria da economia social, feita pela raça anglo-saxónica, presidindo à escola histórica, Vico aparece aos olhos do historiador como um destes espíritos gigantes e precursores que, pela própria força e liberdade, determinam e descobrem, indicam e registam, os caminhos diferentes que a humanidade tem de seguir dentro do ciclo que uma concepção determinada do todo ilumina.”

A apresentação de Vico ao século XX, coube ao admirável esforço do seu conterrâneo Benedetto Croce, promotor, desde 1904, dos studi vichiani, movendo o filósofo idealista italiano a ideia de se encontrar no pensamento de Vico o século XIX em gérmen.
Michelet escrevera: “A palavra da Scienza Nuova é esta: a humanidade é a sua própria obra.” E é talvez este mote do romantismo liberal do historiador da Revolução que define todo um ciclo hermenêutico, mais aparente, da obra do luminar napolitano e que, passando por Croce, vem até aos nossos dias.
Um juízo do autor da Teoria do Ser e da Verdade, juízo relativo ao Sistema dos Mitos Religiosos de Oliveira Martins, vale todavia para o referido ciclo hermenêutico:

“Não vê que os mitos assinalam, entre brumas, três idades: a divina, a cósmica, a simplesmente humana.”

Um século depois daquelas palavras de Oliveira Martins, atrás citadas, escrevia o filósofo lusitano:

“Se os portugueses tivessem sido atentos ao que ocorreu na Itália, após o profundo e pletórico Renascimento, particularmente com o pensamento de Vico e a meditação do tempo e da história, do mito e da simbólica na Scienza Nuova, os nossos próprios caminhos ter-se-iam esclarecido. Mas não é impossível hoje regressar ao ponto de meditação que dizemos crucial.”

Reiteradamente afirmou Vico que uma das principais descobertas da Scienza Nuova e aquela que precisamente a converte em ciência, é a de uma história ideal eterna percorrida no tempo pelas nações. Segundo ele, o “curso” efectuado por estas, de que Roma é caso paradigmático, compreende três diferentes tipos de tempo, como de naturezas, três espécies de costumes, como de direito natural, três Estados civis ou Repúblicas, três tipos de jurisprudência assistida por três diferentes espécies de autoridade, três tipos de razões e juízos e três diferentes formas de linguagem. De da idade histórica, a dos homens, é próprio o pensamento discursivo, estruturado por géneros inteligíveis ou abstractos, manifestos na racionalidade da filosofia e da ciência, já as outras duas idades fundamentam-se nos universais imaginativos ou fantásticos, que a lógica poética da Scienza Nuova, adunando-se à sapienza poetica, deixará entrever como o próprio do mito e da fábula. A arqueologia do génio partenopeu procurará demonstrar, com efeito, como à fábula, posterior ao mito, corresponde, de acordo com a remota tradição, a vera narratio, a fala de outrora, característica das formas primevas do ser e do saber, em cujo centro luz a sapiência poética. Esta, segundo Vico, é a chiave maestra da Scienza Nuova.
A Scienza Nuova de Giambattista Vico, que meditou “sobre os mistérios que as tríades de longe procuram significar e até exprimir” (Álvaro Ribeiro) , é assim obra de tripla dimensão hermenêutica, correspondente aos três níveis de leitura para que esse livro, a nosso ver, aponta. São estes, em primeiro lugar e para a época em que foi Vico chamado a viver, decerto ainda a nossa, o de uma antropologia humanista, o de uma ontologia nobiliárquica e o de uma teologia providencialista; esta, princípio e fim de toda a verdadeira scientia .
A alta concepção do modo como a vera tradição humanista – isto é: a scientia de rerum divinarum et humanarum – culmina na Scienza Nuova, para ser justamente atendida, deve ser identificada com o tipo de acção prudencial entregue às mentes heróicas, cuja vigilância procura cumprir os desígnios da providência, salvaguardando o sensus communis, ou sentido comunitário, para bem da humanitas, de acordo com a vis veri da heroica sapientia.

(...)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Já começaram a chegar textos para o nº 6 da NOVA ÁGUIA...

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Rodrigo Sobral Cunha
TEÓFILO O JOVEM

(excerto)

Entre nós os da língua portuguesa, o provérbio Vox populi, vox Dei – que todos os Cristãos do Sacro Império Romano-Germânico conheceram, como aliás os antecessores da Christianitas do Império Romano – mantém de certo modo duas traduções, ou tradições, que enunciam duas leituras consoante queiramos escutá-lo do lado de Deus ou do lado do Povo. Digamos que uma versão do provérbio – Voz do povo, voz de Deus – é teocrática ou teológica, o que equivale a dizer conforme o desígnio do alto: posto que o povo escuta a Deus, escutando o povo escuta-se Deus, que é assim como a voz do povo; ou seja – a voz de Deus soa na voz do Povo. A outra versão do provérbio – A Voz do povo é a voz de Deus – permite já uma interpretação antropológica ou democrática, isto é, segundo o humano desígnio: escutar a voz do povo confunde-se de tal modo com escutar a voz de Deus, pois tanto fala Deus ao povo, como fala o povo a Deus, que se vai a ponto de se escutar Deus no falar do Povo; ou seja – a voz do Povo soa como voz de Deus. Claro que a interpretação maior do sábio provérbio é a que, colocando os dois como em um, não distingue versões, para melhor unir o que Deus e Povo não quiseram separado.
Procuramos assim, entretanto, aproximar-nos em obnubilada homenagem do sentido do nome próprio de Teófilo Braga (1843-1924) – o Amigo de Deus – cujo operoso amor ao Povo Português haveria de erigir pai da Pátria, “um dos últimos pais da Pátria”, segundo Álvaro Ribeiro, que em 1977 o exarava também “o último romântico”; especificando: “na exactidão histórica de quem defendeu o princípio cultural das nacionalidades, inspirado na tradição do medievalismo.” [1]
Segundo a caracterologia do exegeta da filosofia portuguesa, “Teófilo Braga pertenceu muito mais à família espiritual de Alexandre Herculano e de Almeida Garrett do que à de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queiroz” [2] . Notou, com efeito, Álvaro Ribeiro que “em Portugal foram Teófilo Braga, Sampaio Bruno e Teixeira Rego os escritores que nos ensinaram a extrair da nossa história da literatura uma história de filosofia […]” [3]. Para Álvaro Ribeiro, é Teófilo Braga “o mais poderoso obreiro da literatura portuguesa na segunda metade do século XIX”, cujo pensamento “surge na configuração propícia de um precursor da filosofia portuguesa”, ensaiando a expressão inaugural de “uma visão filosófica da História da Literatura Portuguesa” [4]. Na assunção das raízes populares portuguesas, bem como das ramagens da verdadeira teoria, virá a propósito recordar ainda o comentário de Álvaro Ribeiro – até porque ajuda a elucidar a dualidade característica do pensamento português – de que “Agostinho da Silva concorda com Teófilo Braga em atribuir ao povo uma resistência de ordem maravilhosa e de sinal profético”, posto que “a diferença notável entre os dois historiadores da literatura está em que o doutrinador positivista procurou fundamento na lei dos três estados, formulada por Augusto Comte, enquanto o intérprete franciscanista considera por firmamento o dogma da Santíssima Trindade” [5].
A singularidade romântico-positivista do pensamento de Teófilo condu-lo a assertivas como esta: “No organismo social, a consciência é conhecida pelo nome de Nacionalidade; ela está ligada a impressões profundas, de uma persistência tenacíssima, até ao ponto de já não existir nenhuma forma material de nação, e ainda se conserva esse sentimento, como se vê com o Judeu. As impressões que perpetuam essa consciência nacional são o objecto das tradições, são o proselitismo religioso, são a dedicação altruísta do civismo, por onde se revela a vida histórica de um povo.” [6]
Uma ritmanálise do pensamento de Teófilo Braga mostra-o, porém, inconciliavelmente dividido, como ele mesmo confessa no mês dos seus quarenta e um anos, entre “a serenidade contemplativa da Arte” e “a crítica, a erudição, a ciência, a filosofia”. E se nesse mesmo texto acrescenta: “só muito tarde é que consegui conciliar em mim estas duas tendências do espírito”; na verdade, um passo de linhas aí à frente vai situar-se a si mesmo, com sinceridade maior, “neste dilema dos dois amores, em que ainda se debate o espírito, atraído para a arte e seduzido pela ciência.” [7] Ora, um tal dilema, como é sabido, reflectiu-se muito especialmente nas opções que Teófilo Braga tomou em relação ao pensamento de Giambattista Vico e em relação ao sistema de Auguste Comte. Ninguém ignora qual destes dois modos de compreensão do movimento histórico se tornaria vigente no tempo dos homens e sua mentalidade, até nós.
Escutemos o que em torno disto mesmo pensou Álvaro Ribeiro:
“Lamentamos hoje que Teófilo braga não tivesse permanecido fiel à inspiração de Vico para aplicar ao pensamento do seu tempo e ao estudo das coisas do nosso país. Vico era o representante de uma filosofia peninsular em reacção a uma filosofia continental que, no século XVII com o cartesianismo como no século XVIII com o enciclopedismo, sempre tem pretendido assumir hegemonia na cultura europeia. O anticartesianismo dos povos insulares e peninsulares, orientado segundo o pensamento de Vico, seria a libertação fecunda de um falso e abstracto universalismo.
“Correspondia o pensamento de Vico às tendências próprias do liberalismo romântico, quer pela sua predilecção teológica, quer pelo estudo das tradições, quer pelo sentido da liberdade humana. A obra de Michelet, muito lida pelos escritores portugueses, ainda mantém pura a inspiração do filósofo napolitano. Só mais tarde foi o humanismo de Vico interpretado num sentido pragmatista e ateu, por quem não soube ler o contexto das suas obras admiráveis.”
“A poesia é, para Aristóteles, mais verdadeira do que a história. Mas a filosofia da história, nas grandes linhas traçadas por Vico, é propícia à formação de grandes poemas e à epopeia da humanidade. A Visão dos Tempos, de Teófilo Braga, como audaciosa e original concepção deste tipo, tem o alto mérito de ser uma concepção nova, embora imperfeitamente realizada.” [8]
Assente, por conseguinte, que houve um Teófilo romântico e um Teófilo positivista e que essa dualidade atravessará a sua obra, na qual se há-de contar decerto a República Portuguesa, importa agora reparar bem que durante uma década permaneceu ele em linha directa da obra de Vico, onde, segundo conta na Autobiografia, “recebeu a primeira iniciação”, precisamente pelo verdadeiro sentido da poesia.


[1] Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos (Organização e apresentação de Joaquim Domingues), III, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 287. São ainda palavras de Álvaro Ribeiro acerca de Teófilo Braga: “Ninguém, como o último romântico, soube interpretar a História do Povo Português nos seus aspectos fonético, prosódico, versicular, ortográfico, literário, político, científico, filosófico e religioso como o Mestre admirado, venerado e respeitado do Curso Superior de Letras” (ibid., pp. 291-292). E na transição para a política, observa Álvaro Ribeiro: “Teófilo Braga viu que o problema social português consistia em doutrinar um amplo escol que estivesse apto a exercer as funções governativas logo que fosse proclamada a República” (ibid., p. 580). Num texto intitulado “Vicissitudes da filosofia portuguesa”, de 1952, Álvaro Ribeiro regista: “Como é sabido, foi Teófilo Braga quem conseguiu transformar a propaganda romântica e messiânica de um regime político melhor, - melhor do que o regime da Carta Constitucional, - na severa doutrinação positivista que conduziu logicamente à proclamação da república” (Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos [Organização e apresentação de Joaquim Domingues], I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 472).
[2] Dispersos e Inéditos, III, ob. cit., p. 288.
[3] Álvaro Ribeiro (1957), in Dispersos e Inéditos (Organização e apresentação de Joaquim Domingues), II, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 356.
[4] Álvaro Ribeiro, Os Positivistas – Subsídios para a história da filosofia em Portugal, Lisboa, s.e., 1951, pp. 58-59, 64. “Uma teoria das morfologias culturais talvez fosse a mais conveniente para o trabalho que Teófilo Braga se propôs fazer entre nós e que em grande parte realizou. […] Assim deixou-nos Teófilo Braga uma obra que podemos admirar com sinceridade, que podemos utilizar com proveito, mas que serve principalmente de modelo e exemplo para quem quiser reconstituir, à luz da filosofia especulativa, a teoria da cultura portuguesa” (ibid., p. 77).
[5] Ibid. (1958), p. 455.
[6] Teófilo Braga, Traços Gerais de Filosofia Positiva, Lisboa, 1877, p. 8 (citado por Álvaro Ribeiro, Os Positivistas, ob. cit., p. 72).
[7] Preliminar dos Contos Phantasticos (2ª edição), em Fevereiro de 1894. Nos Contos tradicionais do Povo Português, cita Teófilo, sintomaticamente, o poemeto de Filinto Elísio “Defeitos da Filosofia”: “Que cousa há nas matas espinhosas / Dessa magra e subtil Filosofia / Que emparelhar se atreva c’um bom Conto / De Fadas, c’o condão de uma varinha? […] Oh ricas Fadas, rico encantamento, / Enleio dos sentidos agradável, / Com que saudade crua, e com que pena / Vos choro, de entre nós afugentadas / Por esses maus Filósofos esquivos / De todo o bom saber […]!”
[8] Álvaro Ribeiro, Os Positivistas – Subsídios para a história da filosofia em Portugal, ob. cit., pp. 59, 60, 163. Dedicámos há mais de uma década um estudo ao pensamento de Giambattista Vico e à sua recepção na Europa e em Portugal, sob o título “Giambattista Vico e Europa: Ciência da Lira e das Nações”, publicado em Gepolis - Revista de Filosofia e Cidadania, nº 6, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 1999 (pp. 50-61).

sábado, 30 de janeiro de 2010

Diário da NOVA ÁGUIA: 30 de Janeiro...

Foi mais uma tarde memorável na Biblioteca Municipal de Sesimbra, um dos locais de eleição do Mapiáguio (graças, em particular, à sua responsável, Dra. Maria José Albiquerque). Hoje, a Câmara Municipal inaugurou um extenso ciclo relativo ao Centenário da República – daí a presença do próprio Presidente da Câmara: Arquitecto Augusto Pólvora.

A sessão iniciou-se com duas magníficas palestras sobre duas insignes figuras da nossa História, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga – por Pedro Sinde e Rodrigo Sobral Cunha, respectivamente.

Depois, seguiu-se o lançamento de mais um título da Colecção NOVA ÁGUIA: “Cartas de Noé para Nayma”, de Carlos Aurélio.

A sessão acabou já bem depois da hora. Ficou a promessa de lá voltarmos em Março, no dia 27: já com o quinto número da NOVA ÁGUIA. A NOVA ÁGUIA regressa sempre a todos os muitos locais onde é bem recebida…





(Rodrigo Sobral Cunha, falando sobre Teófilo Braga)


(Pedro Sinde, apresentando a obra de Carlos Aurélio)


(aspecto da assistência)

P.S.: Por razões logísticas, por motivo de obras no espaço, o anunciado lançamento na Casa Bocage, em Setúbal, foi adiado para o dia 27 de Março.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Algumas fotos do lançamento duplo de hoje...


(durante a sessão: Elsa Rodrigues dos Santos, em pé; na mesa, António José Borges, Ana Paula Tavares, Rodrigo Sobral Cunha e Renato Epifânio)


(António José Borges, autografando o seu livro: "de olhos lavados")


(Rodrigo Sobral Cunha, autografando o seu livro: "A verdadeira história de Aladino e a lâmpada maravilhosa")
P.S.: Os nossos agradecimentos à Paula Viotti e ao José Pires F., pelas fotos.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mais um volume da Colecção NOVA ÁGUIA...

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Apresentação de A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa (Zéfiro/ Colecção Nova Águia) de Rodrigo Sobral Cunha, com prefácio de António Telmo, ilustrações de Carlos Aurélio e posfácio de Pedro Sinde

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“É certo que, para estas matérias, podemos detectar uma espécie de magos confabuladores, alcandorada nos anéis do tempo, que vai contando a história (como o tal árabe cristão a Galland, este aos outros e por aí fora), de preferência cada vez melhor: ponto acrescentando a ponto, espiralando a linha do tempo e assim melhorando o conto, mas sempre a partir de uma mesma essencial verdade que pulsa em segredo aqui e ali na história. Mas muitas outras vezes a história é cada vez pior contada, ponto a ponto se suprimindo o conto, desfazendo em recta a espiral do tempo, até o essencial sentido (aquele que faz a duração vital da narrativa) ficar escondido como uma lamparina na mais profunda das cavernas. Tais pactos de confabulação, como os de Galland e Hannâ Diyâb, reproduziriam assim à escala o processo milenar que fez andar As Mil e Uma Noites da Índia à Pérsia e ao Egipto, com os nomes de Salomão, Alexandre Magno, os Cruzados, ou Dhinazad e Xerazade (filha da noite, em arábico), nas caravanas que pernoitam à roda das fogueiras donde saem génios e criaturas dos outros mundos que há neste. Quanto àqueles cujas vozes e os gestos deram vida às Noites muito para além das vidas dos seus reais protagonistas, até nós, refere o barão de Hammer Purgstall esses confabulatores nocturni, narradores noctívagos que Alexandre ouviu e que Eduardo Lane (tradutor das Mil e Uma Noites) disse que eram uns cinquenta no Cairo de 1850, conforme recorda Borges; e isto sem subestimar os mercadores a quem se deve, na observação de Walter Benjamin, a afinação das astúcias com que o contador de histórias do ciclo das Mil e Uma Noites capta a atenção do seu auditório. Naturalmente, há evidências de ordem vária: ao gosto da arqueologia positiva e da filologia, por exemplo, encontrou o egiptólogo húngaro Ernõ Gaál um manancial considerável para a história de Ala Al-Din em papiros egípcios helenísticos e romanos (II-IV d.C.), situando-a depois da conquista árabe do Egipto pelo século VII e relacionando-a com a prática do roubo de túmulos no Egipto. Mas é dentro da própria história que a coisa que está fora dela se passa!” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 9)

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“Que os extremos se tocam, vê-se particularmente bem no caso da tradução, com a traição e a tradição, como é sabido, pois o tradutor pode ser textualmente ou oralmente o traidor ou o servidor da tradição. Mas nem só. Pode acontecer-lhe estranhamente que, transmitindo, traia o tradutor a causa e outras vezes, ao contrário, traindo-a, transmita a causa. Tal é a sina do traditor. O que Galland diz, pois, sobre o assunto é que aquele que descobre Aladino era um mágico africano, que se aplicara ao seu mister – a magia – desde a juventude e que depois de aproximadamente quarenta anos de encantamentos, de operações de geomancia, de sufumigações e da leitura de livros de magia, chegara enfim a descobrir que havia no mundo uma lâmpada maravilhosa, cuja posse o tornaria mais poderoso que qualquer monarca do universo. Por uma operação de geomancia o mágico toma conhecimento do local do tesouro dos tesouros. A lâmpada encontra-se num lugar subterrâneo no meio da China, completamente inacessível, excepto para Aladino (que por isso passa a estar no mapa estratégico do geomante). Desloca-se então ao local, próximo do qual vive não por acaso Aladino. O mago, além de conhecedor das artes do fumo, é também fisionomista e lê no rosto do formoso Aladino “tudo o que era absolutamente necessário para a execução do que motivara a sua viagem”, segundo afiança o narrador gaulês.” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 12)

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“Nem toda a riqueza do sultão, acrescida da do seu grão-vizir e demais homens ricos do reino, era suficiente para acabar uma só das janelas do palácio de Aladino, manifestamente uma das maravilhas do mundo. Como é evidente, o problema não era apenas de ordem técnica, pois nem mesmo os melhores ourives e joalheiros do reino (manifestamente decadente) conseguiam compreender a ordem de subtileza artística em jogo. (Não sabiam sequer distinguir jóia de joie, que é como quem diz o trigo do joio!). É que se aquele palácio podia fazer-se da noite para o dia e durar pelos séculos fora, podia igualmente desfazer-se do dia para a noite. O que explica que a janela imperfeita, não na arquitectura mas na ornamentação de diamantes, rubis e esmeraldas, fosse completada com um estalar de dedos de Aladino, com a lucerna ao alto. Xerazade escapa ao régio imposto diário sobre a beleza mantendo o rei (seu marido) acordado; pois onde uns cortam, põem outros e à história das decapitações contrapõe ela uma verdadeira narrativa: com pedraria da árvore da vida temperou Aladino a sua moradia. Sem a boa conselheira, portanto, o reino afundar-se-ia nas trevas (sem ouvidos para a múrmura fala de Xerazade, soam as decapitações na Europa). De variedade quase infinita, como é bom de ver, são os materiais para edificação e os melhores não estão propriamente à mão. “Os grandes feitos da arte, observou Ruskin, são tornados possíveis quando as almas dos homens se encontram como as jóias nas janelas do palácio de Aladino, puras por igual as pequenas gemas e as grandes, sem precisar de cimento, mas sim da harmonia das suas facetas.” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 47)

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“Fora de portas da cidade, o mágico africano levara Aladino muito para lá dos amplos arredores com casas e palacetes de belos jardins, desaparecendo aos poucos qualquer sinal de presença humana e alargando-se o horizonte em plena extensão. Um lagarto contornou uma rocha procurando sombra. Aladino, que nunca andara tanto na vida, sentiu-se exausto de tão longa caminhada.
– “Tio!” – perguntou ao falso irmão de seu falecido pai o alfaiate Mustafá: “Aonde vamos? Só vejo descampados e montanhas e nem uma árvore já! Se continuarmos, não sei se terei forças para regressar à cidade!”
– “Coragem, sobrinho!”, respondeu-lhe o falso tio na persecução do seu estratagema; – “quero mostrar-te um jardim que excede de longe todos os que viste até hoje; está próximo, ainda que não te pareça, mas quando lá chegares hás-de me dizer o que seria não o teres visto depois de estares tão perto dele! Enche-te de coragem, Aladino, pois já és um homem! Levo-te a um sítio maravilhoso, perto do qual todas as riquezas dos reis deste mundo são coisa de crianças!”
Convencido, reergueu-se o ânimo a Aladino e dirigiu-lhe então o magrebino doces palavras, para lhe tornar mais leve o caminho e contou-lhe histórias de encantar, ora verdadeiras ora falsas, entretendo-o, rumo ao fim secreto que o trouxera da extremidade da África ao Oriente extremo. E para Aladino não perder o ritmo, o mago tirou de um saco hermeticamente fechado um fruto carregado de ritmo: uma laranja marroquina. Abriu-a ao meio, mostrando-lhe a geometria octangular daquele fruto e deu-lhe a provar o sabor da matemática convidando-o a transformar a geometria que ali via em energética aritmética, saboreando-a de modo a ficar a saber inteiramente ao que sabe a laranja (“toda a vez que não encontrares geometria na laranja, como a decagonal ou outra, é porque ela não presta”). E o africano, viajado como era, falou-lhe pausadamente de outras terras: primeiro, daquelas onde vivera – Índia, Pérsia, Arábia, Síria, Egipto – e depois, das que atravessara, por exemplo a maior floresta do mundo, a taiga da Sibéria, com seus silêncios e seus sons. Falou-lhe moroso dos costumes dos outros povos: por exemplo, como os aborígenes australianos cantavam os caminhos, como repetiam passo a passo desde o Tempo do Sonho os cantos primordiais da Criação, onde foi dado nome às coisas, e como cada homem fazia o seu caminho ritual de amplas extensões, lugares e viventes segundo uma música de versos sagrados que era também um mapa para encontrar os passos dos irmãos desde o Início. E disse-lhe mais verdades acerca do povo das andorinhas e do povo dos girassóis e ainda de certos povos do mar. Ensinou-lhe também um provérbio mourisco: “Aquele que não viaja desconhece o valor dos homens”.
E nisto chegaram ao pé de uma montanha, ao fundo de um vale deserto. Soprou uma brisa desconhecida no rosto de Aladino. O mago parou a estudar atentamente uma rosa-do-deserto.
– “É aqui!”, exclamou de olhos rebrilhantes como sóis negros. – “Repousa um instante e prepara-te, Aladino, pois estás à beira de ver coisas extraordinárias e desconhecidas dos mortais; e quando as vires, hás-de me agradecer teres testemunhado maravilhas tais que olhos humanos nunca viram!” (A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, § 51)

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“Para entrar na gruta, isto é, para levantar a pedra que tapa a entrada, Aladino, diz-lhe o mágico, deve invocar o nome do seu pai e do seu avô, isto é, deve invocar os seus patriarcas. Nessa invocação, podemos ver o sinal da ligação à cadeia dos antepassados, que é condição necessária para que o neófito possa encontrar aquele “poder” primordial, simbolizado pela lâmpada. A esta cadeia de ouro se chama em língua árabe, no sufismo, silsila. Podemos aqui lembrar, agora, que Cristo desce ao limbo dos patriarcas ou dos pais (limbus patrum) para os resgatar, mas esse acto de resgatar contém em si necessariamente um outro: o de reatar a cadeia dos profetas, seus patriarcas ou ancestrais, até à origem adâmica, em que o último se liga ao primeiro ou o mais baixo ao mais alto ou o de baixo ao de cima. Trata-se, de algum modo, de estabelecer a relação com a sua silsila: de resto, não deve ser por acaso que S. Mateus se dá ao trabalho de referir, logo no início do seu evangelho, a ascendência de Cristo. Os sufis fazem o mesmo para comprovar a validade da sua iniciação, pois todas as silsilas válidas vão dar ao profeta Maomé, daí recuando, profeta a profeta, até Adão. […] Ainda em relação aos patriarcas de Aladino, convém ter presentes estas duas etimologias: o nome do seu pai, Mustafá, significa “o eleito” e Aladino significa “a glória da religião”. Ora, o filho do “eleito” é, portanto, a “glória da religião”. Não nos é dito o nome do seu avô, talvez porque simbolize aqui a origem da sua origem.”

Pedro Sinde (Posfácio)

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“Aladino permaneceu na caverna durante três dias (sexta-feira, sábado e domingo) que – coisa ainda não inteiramente notada – são os dias santos das três religiões abraâmicas, aquelas que, segundo Álvaro Ribeiro confluem na formação do pensamento português. Se a interpretação iniciática que Pedro Sinde fez do Aladino estiver correcta, a passagem de Ruskin pode bem ilustrar a unidade interna, e transcendente, com que a gnose da tradição lusíada, pelo prisma da imaginação criadora, cingiu os três monoteísmos.”

Pedro Martins

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“O mágico negro foi lá [China] que adivinhou Aladino e a sua lâmpada e veio de extremo a extremo da terra até ao Império do Meio, para, uma vez de posse da lâmpada, poder dominar o mundo, fazer dele o seu globo, uma farsa macaqueada do Quinto Império. No momento exacto em que estava prestes a consegui-lo, uma criança negou-lhe esse poder. Aladino não lhe entregou a lâmpada. Pouco foi preciso depois para que nesse mesmo mundo, que é o nosso, reinasse a Bondade e a Beleza.
E também a Verdade, porque tudo será um Milagre da Luz.”

António Telmo (Prefácio)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Depois de amanhã, no Porto...

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No próximo dia 19 de Junho, pelas 17h00, decorre a sessão de lançamento do livro "Filosofia do Ritmo Portuguesa" da autoria de Rodrigo Sobral Cunha.

A apresentação da obra terá a intervenção especial do Prof. Doutor Fernando Carvalho Rodrigues e a moderação estará a cargo do Prof. Doutor Alexandre Quintanilha.

Esta sessão terá lugar no Auditório IBMC-INEB (Rua do Campo Alegre, 823 - Porto).

Para conhecer um pouco da obra, por favor consulte o link http://sigarra.up.pt/flup/noticias_geral.ver_noticia?p_nr=2729

sábado, 13 de junho de 2009

Próxima sexta, no Porto

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Apresentação do livro "Filosofia do ritmo Portuguesa" no IBMC

19 de Junho, 17 horas, Auditório do IMBC

No dia 19 de Junho (sexta-feira), às 17 horas, o Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) recebe o lançamento do livro de filosofia sobre Ritmanálise, de Rodrigo Sobral Cunha. O evento, que se realiza no auditório do IBMC, é moderado por Alexandre Quintanilha e conta com a intervenção especial de Fernando Carvalho Rodrigues, ex-Director dos programas de Ciências da NATO, investigador que ficou conhecido como o "Pai do Satélite Português".

Rodrigo Sobral Cunha, autor do livro "Filosofia do ritmo Portuguesa", é um filósofo que tem desenvolvido trabalho num modelo do conhecimento, de origem portuguesa, baseado no "ritmo", o qual que tem vindo a ser explorado desde o início do século passado. O "Ritmo" surge assim como figura central, e a Filosofia do Ritmo Portuguesa, como se lê na sinopse do livro «apresenta-se como um modelo de conhecimento para o qual o ritmo é a própria energia de existência e bem assim o princípio unificador da Física, da Biologia e da Psicologia».

Esta é, assim, uma forma de pensamento contemporâneo que se apresenta transversal e que, segundo o autor, «foi concebida pelo filósofo, físico e matemático português Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos e apresentado à Europa, como tal, pelo filósofo e epistemólogo francês Gaston Bachelard a partir da obra La Dialectique de la Durée (1936)».

O livro será debatido pelo ex-Director do programa de Ciências da NATO Fernando Carvalho Rodrigues, um reputado cientista português que já recebeu diversos prémios e condecorações, dos quais se destacam o Pfizer (1977), a comenda da Ordem Militar de Santiago da Espada (1995) e doutor Honoris Causa (1995) pela Universidade da Beira Interior.

Pelo Instituto de Biologia Molecular e Celular estará o Alexandre Quintanilha, biofísico com interesse por várias áreas de conhecimento numa perspectiva abrangente, em particular no que se refere à promoção da uma cultura científica. Alexandre Quintanilha tem estado ligado à integração de várias áreas do saber, entre elas as ciências da vida e a filosofia.

O evento de lançamento do livro, levado à estampa pela Serra d'Ossa Edições, terá lugar na Rua do Campo Alegre, 823, no Porto, e está aberto a todos os que se possam interessar pela temática.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Palavras de Aladino...



8. Há, todavia, coisas acerca das quais devemos umas vezes perguntar se são verdadeiras ou falsas e outras vezes o que significam. Os eruditos perdem-se frequentemente nas primeiras e os génios nas segundas. Para bem e para mal; porque o verdadeiro de uns é não raro o falso de outros, como o bem de uns é frequentemente o mal dos outros e vice-versa.

Rodrigo Sobral Cunha

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ainda sobre a Filosofia do Ritmo Portuguesa, de Rodrigo Sobral Cunha – breve apontamento.

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Este é, antes de mais, um livro escrito com o corpo. Porque só o corpo tem, antes de mais, a experiência do ritmo que atravessa todo o cosmos, todo o ser. De tal modo que, como escreveu Teixeira de Pascoaes, se pode mesmo dizer que “o ritmo é a substância das coisas”.
De um corpo são, mais até, de um corpo atleta – eis o que diria se não conhecesse o autor; conhecendo-o, imagino até que este livro tenha sido verdadeiramente escrito na piscina, ao ritmo das braçadas que ambos tanto gostamos de dar. Como sabem todos os nadadores, a natação é, sobretudo, uma experiência de ritmo, muito mais do que qualquer outra actividade. Na natação o corpo “levita” e, “levitando”, “sem pé”, tem a mais profunda experiência de ritmo que, humanamente, é possível ter.
Obviamente, um corpo, ainda que são, ainda que atleta, não chega. Um corpo sem mente não tem consciência de si e, nessa medida, não apreende esse ritmo. Decerto. Mas a inversa é aqui igualmente, ou ainda mais, verdadeira: uma mente sem corpo também não. É por isso que este livro jamais poderia ter sido escrito por um “anjo” (leia-se: por uma mente sem corpo). Mais. Este é um livro que, a ser lido por um “anjo”, o levaria, enfim, a invejar a condição humana.
Porque só o Homem, enquanto corpo-mente, pode ter a plena experiência do ritmo.