EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A LITERATURA PORTUGUESA HÁ 50 ANOS

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Em 1961, os livros que se publicaram dentro dos diversos géneros literários foram os seguintes:
ROMANCE:
*Agustina Bessa-Luís – O Manto; Alves Redol – Barranco de Cegos; Fernando Namora – Domingo à Tarde; Luís de Sttau Monteiro – Angústia para o Jantar; Soeiro Pereira Gomes – Engrenagem (edição póstuma); Tomaz de Figueiredo, A Gata Borralheira.
POESIA:
Alberto Lacerda – Palácio; António Gedeão – Máquina de Fogo; Daniel Filipe – A Invenção do Amor e outros poemas; Eugénio de Andrade – Mar de Setembro; *Herberto Helder – A Colher na Boca e Poemacto; Jorge de Sena – Poesia – I; José Gomes Ferreira – Poesia – III; José Régio – Filho do Homem; Mário Cesariny de Vasconcelos – Planisfério e Outros Poemas; Poesia 61 (*Casimiro de Brito, Fiama H.P. Brandão, *Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, *Maria Teresa Horta); Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates; Vitorino Nemésio – Poesia (1935-40).
ENSAIO:
Jacinto do Prado Coelho – Problemática da História Literária; João Gaspar Simões – Crítica II, 1º vol.; Jorge Dias – Ensaios Etnológicos; Jorge de Sena – O Poeta é um Fingidor; e, O Reino da Estupidez;
CONTO:
José Gomes Ferreira – O Mundo dos Outros;
TEATRO:
Luís de Sttau Monteiro – Felizmente Há Luar;
REVISTAS:
Jornal de Artes e Letras, com direcção de Azevedo Martins.

Realce-se que, de todos os autores citados, apenas cinco estão vivos, assinalados com asterisco (*). A maioria deles já faleceram, embora todos, incluindo os desaparecidos, tenham deixado os seus nomes escritos a letras de ouro na História da Literatura Portuguesa, nos diversos géneros literários que cultivaram.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

KIUÁ MAMA IXI KUZULA




Leva a mamã
O cestinho de pregos
Da comunidade
E a barriga furada
Com divindade.

Os Nkita cumprimentam a mamã
Vermelhinhos de terra
Os Simbi a molham, e almejam a serra.
E do molhado eu amo a pedra
Com vinho argila e pemba.

Eu sobrevivo no túmulo
Dos antepassados,
E não nos netos, também eles
Pela morte amados,
Mas nada interessa que não seja
Vida, princípio activo
E sem teoria.

Realizo-me ao ar livre
E em espaços abertos
O Mundo é a casa
E as estrelas são tectos.




Pambu Njila, Meximaville

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Flores


Criança de Timor Leste, Autor (?)


No céu eu vejo morar
As entidades dos deuses sem lar
Na terra eu vejo ficar
As vozes de Timor a clamar.
Lá em baixo passam os mortos
Que eu tanto queria Marômac ver
Serpente sem noite e dia
Nem sol ou lua, no lulik
Enrolada na catana sagrada
Na pedra encantada
E de ouro sonhada.
Uma bandeira, com o desenho
Dos antepassados que o céu
Pintou com compasso
E eixo do mundo a esmagar
Os sacrifícios das aves de madeira
Dos crocodilos e dos répteis
Que guardam as portas.


O matan doc levou-me hoje à montanha dos anciãos e disse: estás bonita como a velha ferik, que no rosto gravou a floresta e a ribeira, a pedrinha pequenina e a árvore grande. Estás bonita como as coisas, minha menina, porque as pessoas são as coisas e as coisas são pessoas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"O Cisne Intacto"

Rodopio os Sinos à volta das chamas e espanto os demónios do medo

E da frustração, destruo Quadros, televisão, livros, copos e outros instrumentos diabólicos,

Como um furacão que arranca do chão Pedras e as lança pelo ar…

A Criação, a criação de um mundo sem

Papel, sem

Canetas, onde os

Símbolos não existem, neste mundo as

Sibilas morrem atrofiadas, e delas nada resta

Senão Conchas.


Babalith



“um caixão, um piano de meia cauda, instrumentos de percussão vários, balões, metrónomos, uma harpa, um piano de criança, palavras soltas, chocalhos de várias espécies, com e sem badalo, uma flauta de bisel, uma couve, um bidé, risos, pandeiretas, música de Chopin, um ré-ré, um despertador, um rolo de papel higiénico, um jarro de água, um brinquedo de corda, 2 violinos de criança (brinquedos), uma máquina de barbear eléctrica, um cravo (flor), uma casa de cão que ladra (brinquedo), pratos, guizos, um apito, espaço tempo, ritmo, luz, silêncio, uma pistola (brinquedo)” (HATHERLY, 1981: 46).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Mar de Atlas e o Céu de Tártaro




Barro cinzento esculpido
A imagem da mãe e do menino
Em máscaras de gás
Nuvens de poeira.

Sozinha em frente ao mar
Devagar assobio ao vento
Quente do Verão que passa…
A Nostalgia fere-me os sentidos docemente

E apaga-me aos poucos, deixando apenas
No horizonte uma antiga fotografia do pôr-do-sol
E uma melodia sem graça, mas triste.
A saudade caminha comigo ao longo das dunas cinzentas.

Vale deserto onde a luz vai e vem
Nas mãos das nuvens de fumo.
E as gotas da chuva de Verão batem vermelhas contra a janela
Incendeiam-me por dentro como se fossem fogo,

Choro com elas e caio por terra
Todo o meu coração é uma brasa acesa na chuva de Verão
Um lago imenso, com ilhas-rochedo, no fogo-aceso do pôr-do-sol
Espelho de mil cores, azuis violetas vermelhos, fénix
Contra a cinza-memória da rocha e seus esconderijos
De caranguejo. E os cavaleiros de fogo que ainda acreditam num Novo Mundo…
No amor…

Eu já não… e eu sou tudo isto.

Uma memória que fecha os olhos lentamente
E que se prepara com amor para um longo Inverno.

Oh que paixão delicada, por gelo, azul e branco
Estalagmites, montanhas geladas! Vales cobertos de neve…

Vem Outono, vem Inverno,

Leva-me.

Babalith




Atlantic, Moonspell, 2006

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Guerra Sem Quartel



Vamos Fugir

tenho os passos vigiados no labirinto das notícias. das
estatísticas não consigo escapar. quimeras mercantis e
mexericos mediáticos invadem-me a solidão. a realidade
não existe. a fuga é para lado nenhum. tive uma ideia,
tive uma ideia, vamos fugir! tive uma ideia, tive uma
ideia, foge comigo! tive uma ideia, tive uma ideia,
vamos fugir! tive uma ideia, tive uma ideia, foge
comigo! a informação está em toda a parte. mil olhos
nos vigiam. ninguém sabe quem dá as ordens. mas elas
cumprem-se. a televisão transmite-nos a realidade,
transmite-nos as ordens. eu cumpro. a única fuga é a
loucura. tive uma ideia, tive uma ideia, vamos fugir!
tive uma ideia, tive uma ideia, foge comigo! tive uma
ideia, tive uma ideia, vamos fugir! tive uma ideia,
tive uma ideia, foge comigo! tenho um grilo falante um
grilo falante um pateta desastrado desastrado um
cavaleiro andante cavaleiro andante um pardal
alucinado pardal alucinado tenho uma top-model uma
top-model um vingador implacável implacável tenho um
prémio Nobel tenho um prémio Nobel uma amante
insaciável insaciável tenho um serial killer tenho um
serial killer tenho Deus disfarçado Deus disfarçado
sou o maior dealer sou o maior dealer que se encontra
no mercado

Adolfo Luxúria Canibal

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Porta (Mateus 16:18)

O senhor lagarto olha para mim e é como se nunca tivesse saído da sua presença.

Levo algum tempo a aperceber-me de algo além daquilo que conclui na primeira frase. Estou descalça. O chão está húmido, não há luz, estamos numa espécie de gruta. O lagarto brilha por si próprio, um brilho simples mas fascinante. Eu também pareço ter alguma espécie de luz… azulada. Pareço um fantasma, a minha roupa são uns farrapos esbranquiçados, sujos com cores, azuis e vermelhos. Estou encharcada.

Menina.

Ah… sim, Rei Lagarto.

A menina tem conceitos errados acerca da Religião.

Hã!?... – tossi – desculpe?

A menina acredita que tudo é o que parece e não é capaz de pensar como o Rei Lagarto.

(não sei de onde veio a pergunta que fiz então, parecia outra voz que não a minha, como uma pergunta que tinha de ser feita.)

E como pensa o Rei Lagarto?

Criando.

Criando o quê?

Neste caso a ti, minha filha. O rei lagarto cria com o pensamento, quando aprenderes a ver o meu pensamento através das coisas criadas, poderás pensar como eu.

Fiquei intrigada com a explicação, e fiquei intrigada por ter ficado intrigada com a explicação. Havia algo de infantil em estar a escutar tão seriamente a minha imaginação do que um lagarto encantado diria. Peguei numa pedra e perguntei:

Esta pedra é a tua criação, então podes fazê-la desaparecer!

Se quiser.

Então faz, por favor, senhor lagarto.

Farei desaparecer uma pedra – A sua voz cresceu em força e profundidade, encheu toda a caverna com o seu timbre profundo. – mas não essa, minha querida.

Excerto do

Segundo Livro Sem Nome, Babalith

domingo, 11 de outubro de 2009

Leite


Hércules e a Hidra, Pollaiuolo


O desespero é apenas uma vibração exótica do tédio,
Tu segues o teu caminho com sonhos tão altos que ninguém vê,
Tu caminhas de pés descalços onde a estrela prateada te guia,
À boca do dragão do desconhecido.
Salvé, Ó Campeão do Labirinto de Minos,
Salvé, Ó Destruidor dos Sete Templos de Hera,
Salvé, Ó Herói mergulhado no Lago da Imortalidade.
Salvé, Ó Diónisos, e
Salvé a Hora abençoada da Vossa Morte.

Babalith


O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.
Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Comércio

Dissemos: o Sol é o Salvador, a Terra é a Nossa Mãe. Vida, Amor, Dinheiro.
O vento riu-se, brincando com as Pérolas da Morte, da Mudança e do Sonho. A Noite suspirou.

sábado, 19 de setembro de 2009

Canção de Batalha

De "Anotações", anexo à obra "Pátria"

"Somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas. [...]";
“Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo Vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-vidas que administra o concelho [...]";
“Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo [...]";
“Um exército que importa em 6.000 contos, não valendo 60 réis [...]";
“Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo [...]";
“A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas”;
“Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções [...]";
“Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico [...]";
“Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar”,
“Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio”;
“Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários”;
“Uma literatura iconoclasta, – meia dúzia de homens que, no verso e no romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante cenografia azul e branca da burguesia de 52 [...]";
“E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares [...] teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.”
GUERRA JUNQUEIRO 1886


Canção de Batalha

"Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o arado as terras fumegantes...

Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais;
É bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais!

Acendei a fornalha enorme – a Inspiração.
Dai-lhe lenha, – a Verdade, a Justiça, o Direito
E harmonia e pureza, e febre e indignação;
E p'ra que a lavareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos a nós, iluminando a terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!"

Guerra Junqueiro

segunda-feira, 6 de julho de 2009

PEQUENO MURAL SEM MORAL

Da série Paris Metro, Jeff Beck, s/d.


Queriam todos ser a montanha porque ficavam mais altos. Vinha um e gritava lá de cima: Eu sou a montanha. E logo se ouvia: Não, eu é que sou a montanha. E logo outro e outro: Não, eu é que sou a montanha. Não…
Um fazia funerais religiosos a feijões, outro fotografava as meninas da aldeia, outro dormia pendurado pelos pés, outro imitava cucos a bater com uma colher nas bochechas. Não serviam para nada e agora estavam velhos.

sábado, 13 de junho de 2009

Fradique Mendes, a pele... o casaco, a palavra...

«Lisboa, Abril.

A E. STURMM, ALFAIATE

Meu bom Sturmm. – A sua sobrecasaca é perfeitamente insensata. Ali a tenho,
arejando à janela, nas costas de uma cadeira; e assenta tão bem nessas costas de pau,
como assentaria nas do comandante das Guardas Municipais, nas do Patriarca, nas de
um piloto da barra ou nas de um filósofo, se o houvesse nestes remos. Quero, pois,
severamente dizer que ela não possui individualidade.
Se V., bom Sturmm, fosse apenas um algibebe, embrulhando a multidão em pano
Sedan para lhe tapar a nudez – eu não faria à sua obra esta crítica tão alta e exigente.
Mas V. é alemão, e de Conisberga, cidade metafísica. A sua tesoura tem parentesco com
a pena de Emanuel Kant, e legitimamente me surpreende que V. não a use com a mesma
sagacidade psicológica.
Não ignora V., decerto, que ao lado da filosofia da história e de outras filosofias,
há ainda mais uma, importante e vasta, que se chama a filosofia do vestuário; e menos
ignora, decerto, que aí se aprende, entre tanta coisa profunda, esta, de superior
profundidade: que o casaco está para o homem como a palavra está para a ideia.
Ora, para que serve a palavra, Sturmm? Para tornar a ideia perceptível e
transmissível nas relações humanas – como o casaco serve para tornar o homem
apresentável e viável através das ocupações sociais. Mas é a palavra empregada sempre
em rigorosa concordância de valor com a ideia? Não, meu Sturmm.
Quando a ideia é chata ou trivial, alteia-se, revestindo-a de palavras gordas e
aparatosas – como todas as que se usam em política.
Quando a ideia é grosseira ou bestial, embeleza-se e poetiza-se, recobrindo-a de
palavras macias, afagantes, canoras – como todas as que se usam em amor.
Por outro lado, escolhem-se palavras de uma retumbância especial para reforçar a
veemência da ideia – como nos rasgos à Mirabeau – ou rebuscam-se as que pela
estranheza plástica ajuntam uma sensação física à emoção intelectual – como nos versos
de Baudelaire.
Temos pois que a palavra opera sobre a ideia, ou disfarçando-a ou acentuando-a.
Vai-me V. seguindo, perspicaz Sturmm?
Tudo isto se aplica exactamente às conexões do casaco com o homem.
Para que talham os alfaiates ingleses certas sobrecasacas longas, rectas, rígidas,
com um debrum de austeridade e ressudando virtude por todas as costuras? Para
esconder a velhacaria de quem as veste. Você encontra em Londres essas sobrecasacas,
nos meetings religiosos, nas sociedades promotoras da moralização dos pequenos
patagónios e nos romances de Dickens. E para que talham eles esses fraques audazes,
bem acolchoados de ombros, quebrados e cavados de cinta, dando relevo aos quadris –
sede da força amorosa? Para acentuar os corpos robustos e voluptuosos a que se colam.
Você vê desses fraques aos Lovelaces, aos caçadores de dotes e a toda a legião dos entretenus.
Disfarçando-o ou acentuando-o, o casaco deve ser a expressão visível do carácter ou do tipo que, cada um, pretende representar entre os seus concidadãos.
Quem lhe encomenda pois um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade
um prospecto. E nem precisa o alfaiate que aprofundou a sua arte, de receber a
confissão do freguês. As ligeiras recomendações que escapam, inquietas e tímidas, na
hora atribulada da «prova», bastam para que ele compreenda o uso social a que o cliente
destina a sua farpela... Assim, se um cavalheiro de luvas pretas, com uma luneta de ouro
entalada entre dois botões do colete, que move os passos com lentidão e reflexão, e, ao
entrar, pousou sobre a mesa um número do Jornal do Economista, lhe diz, num tom de
mansa reprovação, ao provar o casaco: «Está curto e justo de cinta» – V. deve logo
deduzir que ele deseja aquelas abas bem fornidas, flutuantes, que demonstram
abundância de princípios, circunspecção, amor sólido da ordem e conhecimento miúdo
das pautas da Alfândega... Vai-me V. penetrando, bom Sturmm?
Ora, que lhe murmurei eu, em mau alemão, ao provar a sobrecasaca infausta? Esta
fugidia indicação: «Que cinja bem!» Isto bastava para V. entender que eu desejava,
através dessa veste, mostrar-me a Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou –
reservado, cingido comigo mesmo, frio, céptico e inacessível aos pedidos de meias
libras... E, no entanto, que me manda V., Sturmm, num embrulho de papel pardo? V.
manda-me a sobrecasaca que talha para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a
sobrecasaca do conselheiro!
Digo «desgraçadamente» – porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, V.
leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar. Nada influencia mais
profundamente o sentir do homem, do que a fatiota que o cobre. O mais ríspido profeta,
se enverga uma casaca e ata ao pescoço um laço branco, tende logo a sentir os encantos
dos decotes e da valsa; e o mais extraviado mundano, dentro de uma robe de chambre,
sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão.
Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre o pensar. Não é possível
conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins de baile, e um
jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a ideias
conservadoras.
Você, pondo no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro, lisa,
insípida, rotineira, pesabunda – está simplesmente criando um país de conselheiros!
Dentro dessa confecção banalizadora e achatante, o poeta perde a fantasia, o dândi
perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a
sagacidade, o padre perde a fé – e, perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica
tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim
mesquinhamente aparando a originalidade do país! Você corta, em cada casaco, a
mortalha de um temperamento. E se Camões ainda vivesse – e V. o vestisse – tínhamos
em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto.»

(Cartas Inéditas de Fradique Mendes)

domingo, 31 de agosto de 2008

Sobre Aquilino Ribeiro


Opiniões Críticas



“Aquilino Ribeiro é um beirão da alta Beira Alta, das comarcas do Paiva – Terras do Demo (como diz um dos seus títulos de livro) – tributárias de uma região mais vasta e historicamente mais profunda – a terra lamecense, fronteira de Trás-os-Montes e das Beiras, do Portugal ameno e fácil dos vales atlânticos e do Portugal Montesinho e duro dos contrafortes continentais.

A obra de Aquilino exprime vigorosamente a condição humana nessas zonas alpestres em que nada é fácil. As aldeias endurecem-se nos seus alicerces seculares, acumulando a experiência do Inverno da neve e do lobo, e do Verão da trovoada e da canícula. O instinto, raiz da vida, dita uma conduta empírica, primária, em que os sentimentos afloram com violência e frescura. (…)

É uma concepção épica da terra e do homem que leva Aquilino à dimensão épica do livro e ao surto épico do estilo. A sua arte de narrar situa-se entre o Decameron e a novela picaresca. Do conto e do romance realistas aproveitará apenas lineamentos, virtuosidades de composição e de estilo. A peripécia envolvente e atmosférica do romance psicológico não é a peripécia de Aquilino, muito mais próximo parente do Flaubert de Salambô, de Eça de Queirós da Relíquia ou do Anatole France de Thaís do que dos romances ingleses.

A sua galeria de tipos, o retomado e sempre novo painel que nos dá da Serra da Estrela e dos vales beirões, a força e fecundidade da sua prosa castiça, que fala portuguesmente de tudo o que é português, impõem-no como um dos nossos maiores escritores e dos mais bem situados nas nossas estantes clássicas, de Gil Vicente e Fernão Lopes a Vieira e Camilo. (1)

“O autor de “Jardim das Tormentas”, de “Terras do Demo”, de “O Derradeiro Fauno”, de “O Malhadinhas”, de “Aventura Maravilhosa”, de “A Via Sinuosa”, de “Quando ao Gavião cai a Pena”, de “Cinco Réis de Gente”, de “S. Banaboião”, do prefácio e da tradução audaciosa de “A Retirada dos Dez Mil”, o animador admirável da “Raposa Salta-Pocinhas” (essa grande personagem da breve galeria da ficção portuguesa que animou de malícia e de incorrigível liberdade a infância de gerações inteiras) não necessita em verdade de homenagens: nunca foi um autor menor que convém engrandecer, nem é um autor que se sobreviva e convenha, pois, dar por vivo ao público desprevenido. O público conhece-o bem, e estima-lhe com justiça as limitações e as qualidades, porque das suas páginas irrompe uma lição de amor pela vida – aquela lição impede “O Malhadinhas” de ser lido sem os olhos rasos da comovida água da aceitação humana. A irreverência salutar do seu estilo e da sua maneira de narrar, o esplendor da presença cósmica do mundo físico nas suas páginas, a articulação encantatória das suas frases e de certas descrições que revelam da pura poesia, tudo isso faz de Aquilino Ribeiro uma simbólica figura de encruzilhada cultural, onde se encontram o primitivismo ruralista, o amor gratuito da erudição livresca, uma certa fascinação cosmopolita, o jogo mais da fantasia que da imaginação, uma liberdade de composição que desconcerta os críticos formalistas, uma subtileza psicológica mais confiada à alusão estilística que à introspecção discursiva, um cepticismo sonhador, um sentimentalismo recatado de homem das serranias, enfim, aquelas características que, de uma maneira ou de outra, e com as mais diversas limitações, propiciaram as obras que há primas da literatura portuguesa.” (2)

.

“Era uma vez um beirão que veio para as Letras com uns sentidos limpos, de pilha-ninhos e caçador das brenhas. Veio na altura em que todas as tábuas de valores ideológicos e sociais se desfaziam mais do que se refaziam, de modo que o seu estilo admirável contraiu o jeito de esfumar-se e enfadar-se quando se trata de fazer pensar o próximo. A tese da sua obra é sempre a mesma, e simples: a exaltação do belo animal humano, uno e duplo, homem e mulher, como uma concha bivalve. O estilo dir-se-ia assentar na miúda reticulação das fibras que conjuga um mundo recôndito de coisas vindas das retinas, dos tímpanos, das papilas sensitivas à flor da pele e das mucosas, coisas que não costumam subir, do nível bulbar ou cerebeloso, ao nível da consciência cerebral falante. (…)

Levantam-se muitas objecções ao estilo de Aquilino Ribeiro. Primeiro, que só se pode ler compreensivelmente com o dicionário ao lado. Há, é verdade, nele, a fuga ao termo e ao giro frásico já muito impressos; mas a sinédoque, a perífrase, as estranhezas escusadas só ressaltam como tais dos livros e páginas em que o assunto não prende muito o autor. Com Aquilino at his best a fraseologia e o vocabulário são correntios, falados e quase sempre populares, e, mesmo quando ainda não ouvidos, medimos-lhe bem o alcance se não estivermos divorciados do povo rural.” (3)



(1) NEMÉSIO, Vitorino, Portugal, a Terra e o Homem., Fundação Calouste Gulbenkian, 2ª Edição, Lisboa, 1978, pp. 211 a 213

(2) SENA, Jorge de, Estudos de Literatura Portuguesa – «Em louvor de um Grande Escritor» Edições 70, 1982, p. 198

(3) LOPES, Óscar, Modo de Ler – Crítica e Interpretação Literária, Editorial Inova, Porto, 1972, pp. 317 e 320/21

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

REVISITAR AQUILINO


«Uma vez, um homem traçou do bordão e partiu a correr as sete partidas do mundo; andou, andou até que foi dar a comarca cujos naturais comiam calhaus e ladravam como cães». É assim que Aquilino Ribeiro apresenta a região onde nasceu, a seu dilecto amigo Malheiro Dias, no prefácio do livro a que deu o nome de «Terras do Demo».

Aquilino Ribeiro nasceu em 1885, em Carregal da Tabosa, concelho de Sernancelhe, indo viver com seus pais, ainda menino, para Soutosa, Moimenta da Beira. Aí faz o seu exame de instrução primária, seguindo depois para Lamego e mais tarde para Viseu, de onde transita para o Seminário de Beja a frequentar o curso teológico. Mas em breve regressa a Soutosa, expulso por ter reagido mal aos critérios disciplinares vigentes nesse estabelecimento. Decide então ir para Lisboa, onde viveu uma longa fase agitada, com todo o ambiente revolucionário do estertor da Monarquia e a instabilidade que se lhe seguiu durante a I República. Foi um opositor incondicional da ditadura iniciada em 1926 e, antes e depois desta, conheceu por mais de uma vez a prisão e o exílio.

Em Paris conviveu com grandes mestres da Filosofia e Sociologia quando frequentava a Sorbonne, onde conheceu aquela que viria a ser a sua primeira mulher. Sendo esta alemã de nacionalidade, reside na Alemanha algum tempo, casa e vai morar em Paris, donde regressa a Portugal com a eclosão da primeira Grande Guerra. Trabalha como professor no Liceu Camões e mais tarde, a convite de Raul Proença, como bibliotecário na Biblioteca Municipal de Lisboa. Aqui se forma o grupo de intelectuais que está na origem da “Seara Nova”.

Da sua obra constam cerca de sessenta títulos, desde romances, novelas e contos, a numerosos volumes de crónicas, estudos, traduções e histórias para crianças que foi escrevendo ao longo dos anos, mais afincadamente nas últimas décadas da sua vida. Faleceu em 1963, cinquenta anos após a publicação do seu primeiro trabalho, o livro de contos “O Jardim das Tormentas”.

Aquilino Ribeiro foi um observador das realidades da natureza humana, dos contrastes da sociedade, o narrador irreverente do viver das gentes mais rudes com quem conviveu e de quem fez um retrato preciso, opondo a rudeza do gesto à pureza de sentimentos, aplicando imagens, comparações, provérbios, numa inexcedível riqueza de palavras que o colocaram para sempre entre os mais talentosos obreiros a nossa língua.

Revisitar páginas de Aquilino «é picar na nascente, renovar o veio da língua viciado por outras línguas, corrompido pela gíria das cidades»:

«...Escurentava agora o luar a pontos de a neve parecer ao largo cinza e mais cinza que caía. Mas, diante dos olhos, os flocos faiscavam e batiam-nos nas ventas rijos como areia.
O lobo, quando chegámos ao cabeço distante uma centena de passos do sítio em que nos aparecera, calou a serenata. E rompemos adiante, como se não déssemos conta de sentinela tão mal intencionada. Ele mudo e quedo como um penedo.
- Hum – maluquei com os meus botões – estás à espera dos colegas...
E, se bem o pensei, melhor assucedeu. Obra de cinco minutos adiante, saem-nos quatro lobos pela ilharga, mas que velhacos! Muito mansarrões, passo descosido, focinho por terra, como pessoas não-te-rales que vão ao seu destino. Quatro feras de vulto para espotejar um vitelo meio touro e ficar com fome.
(...) Quando anoiteceu de todo, os maganos, sempre leva-que-leva à nossa mão, chegaram-se mais para perto. Todo o meu zelo era não os perder de vista que já se me afigurava tolherem-se não sei por que resto de cobardia de nos saltar. O frade vinha atrás de mim a bater os queixais de medo e, acreditem Vossorias se quiserem, tão forte batiam que os engenhos que se armam nos milhos contra os gaios não fariam maior estreloiçada.
- Passe para a minha banda – disse-lhe eu, que já me parecera ver um dos moinantes, o mais alentado, esticar os jarretes, com mentes de pular à garupa do burrico.
O frade lá se ajeitou à esquerda, tão cosido contra mim que cheguei a supor que animal e frade queriam montar no machito. Ouvi-lhe gemer:
- É hoje o nosso último dia!
- Vossa Paternidade não traz nada... navalha, ferro, pau que seja?
- Nada.
- Mas que é isso que há um bocado vinha a tilintar nos alforges?
- É um turíbulo; é o turíbulo da igreja das Arnas, que trago para consertar.
- Dê-mo cá...
- Hem?
- Dê-mo cá... Depressa, homem!
O frade passou-me o turíbulo para as mãos, atravessei a faca nos dentes, e aí me pus a tocar ferrinhos, a bimbalhar, a fazer uma matinada que nem cambalheiras arrastadas por um cavalo! E, querem Vossorias saber, os lobos meteram o rabo entre as pernas e desarvoraram. Certo, assim Deus me salve!
Ouvimo-los ainda uivar para a cernelha do morro, mas não lhes tornámos a pôr a vista em cima, nem as bestas deram sinal de que nos fossem a acompanhar. O frade erguia graças a Deus e berrava:
- Milagre! Milagre!
»


RIBEIRO, Aquilino. O Malhadinhas. Livraria Bertrand, 1ª edição, Lisboa, 1958, p. 140 a 143